A seis meses do início da campanha eleitoral, especialistas ouvidos pelo Estadão avaliam que a polarização e o voto útil devem emperrar o crescimento de uma candidatura de terceira via capaz de desafiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno, tese defendida pelo PSD de Gilberto Kassab (PSD). Por outro lado, a baixa rejeição e o alto desconhecimento dos presidenciáveis da sigla são vistos como pontos que podem levá-los a quebrar a dinâmica eleitoral que se repete desde 2018.
As análises foram feitas sobre os dados apresentados pela pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira, 11. O levantamento aponta que, no primeiro turno, Lula pontua a partir de 35%, enquanto Flávio parte de 29%. O melhor desempenho da terceira via é o do governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), com 8%. Os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), têm 4% no melhor dos cenários.
"A entrada de Flávio Bolsonaro no circuito fez com que a eleição se tornasse polarizada novamente", disse o cientista político e professor do Insper Leandro Consentino. Para ele, o fato dificulta o estabelecimento de uma terceira via. "Tanto Ratinho como Caiado têm um perfil mais à direita e que por vezes flertam com o bolsonarismo", acrescentou.
Cientista político da FGV, Marco Antônio Teixeira avalia que a foto de momento para uma candidatura alternativa não é boa - Flávio tem 21 pontos de vantagem sobre Ratinho Jr. - e deve piorar com o início do período eleitoral. A tendência é que, com dois candidatos no pelotão da frente, o eleitorado opte pelo voto útil. "Quando a campanha começar, com os atores políticos se dividindo entre os dois principais concorrentes, a tendência é que a terceira via se enfraqueça mais", disse ele.
Mesmo com a desaprovação do governo Lula superando a aprovação, o presidente do instituto Locomotiva, Renato Meirelles, entende que mais do que nomes, falta à terceira via uma narrativa que conquiste os eleitores.
"A pesquisa mostra que quando o eleitor pensa em direita, ele pensa em Bolsonaro. O sobrenome segue organizando a maior fatia desse campo. No meio disso, a terceira via vira aquele produto que fica na prateleira: todo mundo olha, pouca gente leva", afirmou ele.
Ratinho (37%), Caiado (51%) e Leite (55%) têm índices de desconhecimento superiores aos de Lula (4%) e Flávio (9%). A rejeição deles também é menor: 40% dizem que não votariam no paranaense, percentual que é de 35% nos casos do goiano e do gaúcho - Lula é rejeitado por 54% e Flávio, por 55%.
Para o cientista político do Mackenzie, Rodrigo Prando, esses números indicam que há espaço para uma candidatura alternativa. "O Ratinho é desconhecido em outras regiões do Brasil e o pai, por ser um apresentador popular, tem penetração nas regiões do Nordeste", disse ele.
"As rejeições menores dos candidatos do PSD dão margem para trabalhar a imagem deles. A pesquisa está longe de ser um balde de água fria para este campo", acrescenta.
Do ponto de vista de estratégia política, Prando levanta a hipótese de que uma chapa pura do PSD, encabeçada por Ratinho com Leite como vice e Caiado como uma espécie de "superministro" da Segurança Pública, tem potencial para chegar a cerca de 15% dos votos. "Pode ser que, ganhando espaço e com a força do PSD nas prefeituras, a gente tenha uma modificação do cenário [eleitoral]", concluiu ele.
Independentemente do resultado das eleições, há um consenso de que Kassab está bem posicionado para a disputa: se conseguir levar o candidato do PSD ao segundo turno, tem potencial para ganhar de Lula ou Flávio. Caso contrário, será o fiel da balança que pode definir o vencedor.
"O Kassab vai ter para o segundo turno a importância que a Tebet teve na última eleição", diz Teixeira, da FGV. Para Consentino, do Insper, como a eleição tende a ser polarizada, os votos de centro tornam-se cruciais. "É justamente essa pequena fração, que não é nem bolsonarismo nem lulismo, que está localizada num espectro muito parecido com esse candidato do PSD, como foram os votos da Tebet em 2022", disse.
Kassab rechaçou na quarta-feira a possibilidade de indicar o vice de Lula como noticiado pela imprensa e disse que seu partido mantém o plano de ter candidato próprio. Ele minimizou os resultados das pesquisas neste momento. "Eu participo de eleições há 40 anos. É um retrato do momento onde os candidatos não estão definidos, os partidos também não. Mas as pesquisas são verdadeiras, retratam o momento", declarou sobre a Genial/Quaest.