O presidente do STF, ministro Edson Fachin, determinou nesta quinta-feira, 3, que os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça se manifestem em até cinco dias úteis sobre a mais recente crise no Supremo. Além dos ministros, o procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também devem se manifestar.
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"Cabe à Presidência do tribunal zelar para que a possível apreciação colegiada seja feita, a tempo e modo, com o elevado senso de responsabilidade que os fatos reclamam, sempre assegurando o respeito às garantias constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório", disse Fachin no despacho.
No documento, Fachin tambem pede mais informações sobre:
- o cumprimento pela Polícia Federal, em relação a autoridades com foro no Supremo Tribunal Federal por prerrogativa de função, do constante da Lei Orgânica da Magistratura, sem exceção;
- eventuais indícios de que credenciais de acesso institucional tenham sido utilizadas para avaliar documento estritamente particular e de que informações sujeitas ao sigilo judicial foram reveladas a pessoa investigada;
- as circunstâncias em que se deu o despacho (referido nas p. 3-4 do eDOC 7 da PET nº 16.662) que determinou a apresentação da identificação das pessoas mencionadas nas fls. 3-5 da IPJ-M nº 144738439.2026;
- as medidas, no exercício do controle externo da atividade policial, que foram tomadas para zelar pela observância estrita do art. 33, parágrafo único, da LOMAN.
O despacho de Edson Fachin é uma resposta à petição enviada pela PGR na terça-feira, 1º, na qual o órgão pediu a extinção e a nulidade da investigação determinada pelo ministro André Mendonça sobre a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. No parecer, a PGR também apontou suposto abuso de poder por parte de Mendonça, relator do caso.
A decisão da PGR ocorreu após a quebra do sigilo do material da investigação, que expôs mensagens e contatos entre Vorcaro, fundador do Banco Master, e Moraes.
Mensagens enviadas por Vorcaro
Mensagens enviadas por Daniel Vorcaro ao contato atribuído a Alexandre de Moraes mostram que o banqueiro recorreu diversas vezes ao magistrado para pedir que ele atuasse junto ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. A primeira vez que Vorcaro recorreu a Moraes para pedir uma atuação junto às cúpulas da Polícia Federal e do Ministério Público foi em 30 de outubro de 2025.
Na conversa, o banqueiro afirmou que seria “importante reforçar” com Andrei Rodrigues e Paulo Gonet a orientação para que “ninguém de baixo” -- em referência a delegados e procuradores -- fizesse “uma sacanagem” com o Banco Master.
Naquele momento, a instituição financeira estava prestes a anunciar uma suposta venda para um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira e por investidores dos Emirados Árabes Unidos.
Quando as mensagens foram trocadas, Vorcaro já tinha firmado um contrato de R$ 131 milhões com o escritório de advocacia de Viviane Barci, mulher de Moraes. Dados do Imposto de Renda do banco, compartilhados com a CPI do Crime Organizado, mostram ainda que o Master havia transferido R$ 80 milhões para a conta do escritório em outubro de 2024.
Os pedidos de Vorcaro para que Moraes procurasse Andrei Rodrigues e Paulo Gonet e tratasse do caso envolvendo o Master continuaram até poucas horas antes da prisão do banqueiro. Ele foi detido na noite de 17 de novembro, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando estava prestes a embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Na tarde de 16 de novembro, às 16h57, Vorcaro questionou Moraes sobre a possibilidade de Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, adiar o cumprimento das medidas cautelares que estavam prestes a ser executadas. Para investigadores, o conteúdo das mensagens e a insistência do banqueiro junto ao ministro sugerem que Vorcaro tinha conhecimento da primeira fase da Operação Compliance Zero antes de ela ser deflagrada.
“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, escreveu Vorcaro ao ministro.
Até o momento, a Operação Compliance Zero já teve dez fases. Vorcaro está preso desde 4 de março, por determinação do ministro do STF André Mendonça. Antes disso, ele havia sido solto em 29 de novembro de 2025, após decisão do Tribunal Regional Federal da 1.ª Região (TRF-1).
Vorcaro classifica situação como ‘muita sacanagem’
Dois dias antes de sua primeira prisão, em 15 de novembro de 2025, Vorcaro questionou Moraes sobre a possibilidade de “reverter” o andamento das investigações envolvendo o Banco Master. A instituição era suspeita de emitir títulos de crédito sem lastro real, manipular ativos e participar de uma fraude financeira estimada em R$ 12 bilhões.
“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”, lamentou o banqueiro ao ministro, conforme consta na investigação.
Na véspera de sua prisão, Vorcaro voltou a questionar Moraes sobre o andamento do caso e sobre uma possível atuação de Andrei Rodrigues. Em mensagem enviada ao ministro do STF, o banqueiro perguntou: “Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei dá pra segurar?”.
O conteúdo do celular de Vorcaro também evidencia a forma como as conversas com o ministro eram conduzidas. As mensagens eram enviadas em modo de visualização única, por meio de capturas de tela de textos escritos no aplicativo de notas do aparelho. Dessa maneira, os investigadores conseguiram recuperar somente as imagens encaminhadas pelo banqueiro, sem ter acesso às respostas de Moraes.