Mergulhadores localizaram o navio Tutoya, torpedeado por um submarino alemão em 1943 no litoral de São Paulo, constatando que ele está partido ao meio e protegido como sítio arqueológico.
Um grupo de mergulhadores identificou o navio Tutoya que naufragou após ser torpedeado por um submarino alemão durante a Segunda Guerra Mundial, no litoral de São Paulo. Com o mergulho, foi possível constatar que ele estava partido ao meio, portanto, deve ter sido afundado naquela posição.
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Os destroços estão localizados entre Peruíbe e Iguape. Inclusive, o grupo é responsável por comprovar outros dois naufrágios na região, próximos à Ilha da Queimada Grande: o Araponxga e o Irmãos Gomes.
“A gente mergulhou nesse segundo da história que foi congelado. Um cargueiro brasileiro, torpedeado na Segunda Guerra Mundial por um submarino alemão”, afirma a mergulhadora e pesquisadora de naufrágios, Tatiana Mello.
“O navio conta uma história. Muitos gostam de dizer que o navio é como uma cápsula do tempo. Ele guarda um determinado momento da nossa história. Os hábitos, como se fazia, a tecnologia, está tudo preservado lá. E o Brasil é um grande lugar para isso”, reforça o também mergulhador e pesquisador de naufrágios Maurício Carvalho.
Apaixonados pela investigação no fundo mar
Os dois começaram uma pesquisa sistemática por mais informações do Tutoya partindo dos dados contidos no Sistema de Informação de Naufrágios (SINAU). “Tanto eu quanto a Tati, nós somos apaixonados por naufrágio, pela história marítima, e há muitos anos a gente faz pesquisa de muitos navios diferentes. Eu já participei de pelo menos umas 40 identificações de navios pelo Brasil”, diz Maurício.
A embarcação, embora ainda não tivesse sido identificada, já é uma velha conhecida da história: os registros apontaram que Tutoya foi atacado em 1º de julho de 1943. Moradores da região também sabiam que ele estava ali, pois naquele ponto ocorre a pesca esportiva, por exemplo. Foi inclusive o marinheiro Clayton Aloise quem passou as coordenadas para a equipe de mergulhadores.
Encontro da embarcação
Eles fizeram um mapeamento da embarcação e também da área para saber, por exemplo, a profundidade das águas. A partir disso, é feito o planejamento do mergulho para que tudo seja feito em segurança, visando o tempo e o consumo de oxigênio dentro do mar.
Foi só em 26 de dezembro que Tatiana, Marco Bafi, Luiz Flório conseguiram meios de ir até o local para fazer a identificação, levando em consideração também as condições marítimas. O Tutoya foi localizado em um dos três pontos, com o auxílio de um equipamento chamado sonar, uma tecnologia que usa ondas sonoras para detectar objetos e mapear o fundo do mar.
“Marcou um relevo diferente no fundo, nós fomos nos aproximando”, explica Tati. “Até o momento que eu passei em cima dele”, complementa. Eles conseguiram ancorar próximo e já se preparam para a parte da equipe descer. O primeiro mergulho durou cerca de 35 minutos.
“Para a nossa imensa sorte, quando nós descemos no cabo, aquela boia que a gente jogou em cima dele, eu caí praticamente na praça de máquinas. Não perdi muito tempo, já fiz as medidas logo no começo do mergulho para garantir a informação, garantir o que eu tinha ali de dado técnico para ver se batiam ou não as medidas [que já tinham]. A gente conseguiu já no começo do mergulho fazer toda a popa [frente] dele. A praça de máquinas, motores, achei os guindastes de carga e o leme.”
Eles voltaram para o barco, descansaram e analisaram as medidas coletadas: “Bateu aquela emoção porque as medidas batiam”, revela. Com as condições seguras, ele desceram para um segundo mergulho.
Partido ao meio
Foi durante essa nova inspeção, que chegaram à conclusão de que o navio havia sido acertado no meio. “Chegou um momento que o navio desapareceu na areia, ele meio que sumiu. Achei estranho”, conta Tati ao dizer que pensava ter se perdido pois a água não era muito clara.
Eles novamente nadaram circulando o navio e só o viam sumir na areia. Então, decidiram seguir o caminho para analisar melhor. “E depois de uns 15/20 metros, mais ou menos, eu comecei a ver uma mancha escura, uma sombra. Um ferrinho aqui, outro ferrinho ali na areia. Fomos seguindo, seguindo até que cresceu aquela mancha e era a proa do navio”, detalha.
“Aí caiu a ficha. O navio realmente está partido ao meio. Ele está partido na terça parte central dele, na verdade”, detalha. “Ele foi torpedeado próximo da cabine de comando que ficava bem naquela região e o navio literalmente quebrou. Os sobreviventes disseram que o navio foi torpedeado na cabine de comando e arqueou. Ele afundou pelo meio.”
Na ocasião do naufrágio, sete pessoas morreram. “Ali no fundo foi muito emocionante, porque eu falei ‘aqui que entrou o torpedo e quebrou o navio. Aqui é onde estavam as sete pessoas que perderam a vida no naufrágio’”, relembra.
A história do Tutoya
O navio cargueiro a vapor de aço foi construído em 1913 na Inglaterra e tinha o nome de Mitcham. Dez anos depois, ele foi vendido para o Lloyde Brasileiro e rebatizado de Uno. Em 1929, foi novamente rebatizado como Tutoya em homenagem a uma cidade do Maranhão.
Segundo os pesquisadores, ele fazia viagens mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, seguindo as normas de navegação. De acordo com Tatiana, o “Brasil dependia desses navios, a população dependia desses cargueiros para chegar remédio, para chegar alimento, para chegar todo tipo de carga, todo tipo de material de um estado para o outro.”
Foi numa madrugada que o Tutoya foi atingido por um submarino alemão U-513, que circulava pela costa brasileira, mesmo depois de acender as luzes e se identificar. “Imagina o medo que eles tinham de estar ali trabalhando nessas condições e sete pessoas perderam a vida lá, sete brasileiros torpedeados por um submarino nazista. Só trinta sobreviventes que relataram essa história, testemunhas vivas disso tudo que aconteceu”, pondera.
Navio não pode ser retirado dali
Segundo Maurício, não existe um motivo para a embarcação ser retirada dali, já que não tem nenhum valor comercial, além de existir uma legislação que proíba qualquer interferência humana ali. “Existe uma legislação que torna esse navio um sítio arqueológico, então, nenhuma peça pode ser retirada, não pode ser feita nenhuma intervenção sobre o navio. A nossa visita a esse navio é única e exclusivamente contemplativa. A gente mergulha, vê o navio, estuda fotografa, filma, mas a gente não mexe em nenhum dos objetos que estão presentes lá.”