Tradicionalmente voltado à diplomacia, o Brasil investe apenas cerca de 1,1% do PIB em defesa, o que representa "aproximadamente metade da média mundial", diz o Le Figaro. Porém, um discurso recente do presidente brasileiro marca uma inflexão. O texto cita a fala de Lula durante a visita do presidente da África do Sul a Brasília, em março, quando alertou que o país não está devidamente preparado contra ameaças externas e invasões.
A reportagem também lembra o tom crítico de Lula ao questionar as ambições geopolíticas de Donald Trump, afirmando não ter "garantias" de que o presidente americano diga "que a Amazônia também lhe pertence".
O temor brasileiro se insere em um contexto mais amplo de tensões na América Latina. O jornal elenca episódios recentes que alimentam essa preocupação, como a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro e pressões políticas americanas contra lideranças da região, como a acusação contra Raul Castro na semana passada.
O próprio Brasil foi alvo indireto dessa postura, com a imposição de um tarifaço de 50% sobre seus produtos pelos Estados Unidos no ano passado.
Aumento do orçamento militar
Apesar do aumento de 13% do orçamento militar no ano passado, especialistas ouvidos pelo Le Figaro apontam que o contexto internacional exige avanços e que o Brasil precisa revisar a estrutura desses gastos e redefinir suas prioridades. Para a pesquisadora Ana Penido, a capacidade do país de colocar em prática hoje sua estratégia de defesa é "baixa".
Um estudo interno das Forças Armadas reforça o desafio. Seriam necessários cerca de R$ 800 bilhões ao longo de 15 anos para modernizar o arsenal, muito acima dos valores atualmente previstos. Diante disso, o governo avalia alternativas, incluindo maior cooperação com países do Sul Global.
Por fim, o texto destaca um componente político sensível devido à aproximação de aliados de Jair Bolsonaro com Trump. O jornal francês cita a imprensa brasileira para dizer que o encontro entre o pré-candidato Flávio Bolsonaro e o presidente americano em Washington na terça-feira marca "o pontapé inicial da ingerência americana na eleição presidencial" de outubro.
Outra preocupação é a proposta de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Essa possibilidade preocupa o governo, que teme abrir espaço para ações externas mais diretas. No conjunto, o Le Figaro conclui que o Brasil se vê pressionado a rever sua postura histórica de baixa militarização diante de um ambiente internacional cada vez mais tenso.