Há risco de o surto de ebola chegar ao Brasil?

20 mai 2026 - 11h01

De acordo com especialistas, possibilidade de o vírus chegar ao país não pode ser descartada, no entanto, ela é muito baixa.A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta internacional de "emergência de saúde pública de preocupação internacional" após a confirmação de um surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC). Até o momento, já são 139 mortes suspeitas e ao menos 600 de casos da doença no país e no vizinho Uganda.

Há seis cepas do vírus do ebola
Há seis cepas do vírus do ebola
Foto: DW / Deutsche Welle

O cenário reacendeu uma dúvida: o vírus pode chegar ao Brasil como aconteceu com a pandemia de covid-19?

Publicidade

De acordo com uma nota da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), é difícil que o vírus do ebola chegue ao Brasil, mas reforçou a "importância de vigilância ativa em portos, aeroportos e serviços de saúde, especialmente para identificação precoce de viajantes provenientes de áreas afetadas que apresentem sintomas compatíveis".

A entidade ressaltou ainda que a classificação de emergência de saúde pública não significa que haja uma pandemia em curso, mas indica a necessidade de fortalecimento da vigilância epidemiológica e apoio internacional imediato para conter a disseminação da doença.

"Simplificando, a OMS declara emergência de saúde pública de preocupação internacional para mostrar que existe um surto da doença em uma localidade específica e assim chamar a atenção dos outros continentes. O objetivo é alertar outros países para se protegerem e também para ajudar àqueles que estão enfrentando a doença", detalha Luana Araújo, infectologista e presidente do comitê científico de saúde única da SBI.

Até o momento, o surto de ebola foi registrado apenas em duas localidades da África. A possibilidade de ele chegar ao Brasil existe, mas é considerada muito baixa, segundo os especialistas ouvidos pela DW.

Publicidade

"O tráfego de pessoas é pequeno para aquela região e isso dificulta que o vírus chegue ao Brasil. O país tem apenas dois aeroportos que recebem voos direto da África, e mesmo assim não são de cidades em que estão sendo registrados os casos", explica Alberto Chebabo, infectologista do laboratório Sérgio Franco, da Dasa, e professor do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Outro fator que dificulta que um surto de ebola ocorra no Brasil está no reservatório natural do vírus. Por ser uma zoonose, ou seja, uma doença infecciosa transmitida naturalmente entre animais e seres humanos é necessário que haja animais hospedeiros para o vírus. "Os morcegos frugívoros da família Pteropodidae são o principal reservatório natural do vírus. Essa espécie não é nativa da fauna brasileira. Esse fator dificulta a circulação do vírus e é muito difícil que ele se estabeleça em nosso país", acrescenta Maria Gabriela de Lucca Oliveira, patologista.

Brasil tem plano de contingência para o ebola

Apesar de o risco ser baixo, se o ebola chegar ao país, as autoridades têm protocolos de combate à doença. Após a pandemia de covid-19, o Brasil criou o Plano de Contingência Nacional para Febres Hemorrágicas Virais. O documento foi lançado em outubro de 2024 e lista ações específicas que devem ser tomadas no setor da saúde em todo o território nacional diante de uma eventual introdução de novas doenças, entre elas o ebola.

Em 2014, devido ao maior surto de ebola registrado desde a sua descoberta, em 1976, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu uma nota técnica que define protocolos operacionais para reduzir o risco de transmissão nos pontos de entrada do país.

Publicidade

Segundo a nota, qualquer caso suspeito ou provável deve ser tratado com rigor, reduzindo ao máximo a exposição de pessoas e ambientes. Dessa forma, o viajante suspeito deve ser isolado rapidamente, evitando contato com outros passageiros e profissionais, e removido o mais breve possível para uma unidade hospitalar de referência, sem permanecer em áreas de circulação ou, quando possível, nos postos médicos dos terminais.

Entre as principais medidas previstas está o uso obrigatório de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) por equipes envolvidas na assistência ao caso suspeito, na limpeza e desinfecção de áreas que esse passageiro esteve.

A nota também estabelece que todo caso suspeito deve ser comunicado imediatamente às autoridades sanitárias e aos serviços de vigilância epidemiológica.

Em aeroportos selecionados, principalmente aqueles com maior possibilidade de receber viajantes provenientes de áreas afetadas, o documento prevê triagem sanitária por meio da verificação de temperatura corporal, preenchimento do Termo de Controle Sanitário do Viajante e investigação do histórico recente de viagem e contato com casos suspeitos.

Publicidade

Viajantes com febre, sintomas compatíveis ou histórico de exposição recente devem ser encaminhados para avaliação e remoção conforme protocolo específico, enquanto aqueles sem sinais de risco recebem orientação para automonitoramento da saúde.

A nota ainda prevê entrevistas e monitoramento de contatos de casos suspeitos, com identificação de pessoas que tiveram exposição próxima ao viajante doente e envio dessas informações à vigilância epidemiológica para acompanhamento. Além disso, determina que, em situações de óbito suspeito por ebola, o corpo seja tratado como material infectante, com acionamento do Instituto Médico Legal ou serviço correspondente, proibindo o translado dos restos mortais devido ao risco de transmissão por fluidos corporais.

Sem casos no Brasil

Não há registro de casos confirmados de ebola no Brasil, entretanto já foram notificados dois casos suspeitos no país há pouco mais de dez anos, sendo o primeiro em outubro de 2014, no município de Cascavel, no Paraná, e o segundo em Belo Horizonte, Minas Gerais, no ano de 2015.

Ambos as suspeitas eram referentes a pessoas que apresentaram sintomas parecidos com os da doença e haviam acabado de retornar de Guiné. Exames, porém, deram negativo para o ebola. Entre os anos de 2014 e 2016, foi registrado, no oeste africano, o maior surto de ebola desde a sua descoberta, em 1976. No período, foram registrados mais de 28,6 mil casos.

Publicidade

O que é o ebola e quais os tratamentos

O ebola é uma doença viral grave, com sintomas que podem começar de forma semelhante a uma gripe, como febre, dor de cabeça e cansaço. À medida que a doença progride podem surgir vômitos, diarreia e, em casos mais graves, falência de órgãos e hemorragias.

Ao contrário de outros vírus mais comuns que são transmitidos pelo ar, no caso do ebola o contágio ocorre por contato direto com fluidos corporais de infectados, como suor, sangue e secreções. Uma pessoa se torna contagiosa quando apresenta os primeiros sintomas. A contaminação ocorre também pelo contato com objetos infectados, como material hospital ou agulhas que carregam a doença.

"O período de incubação do vírus é de dois a 21 dias, então, nesse período não há risco de contágio, mas quando a carga viral no sangue aumenta o paciente já está assintomático e aí sim ele transmite", explica Oliveira.

Existem seis cepas do vírus do ebola, mas três delas são as responsáveis pela maior parte dos grandes surtos. São elas: Zaire, Sudão e o Bundibugyo, que é o responsável pelos casos registrados atualmente na África, segundo a OMS.

Publicidade

Ainda não há vacina e tratamento específico para a variante Bundibugyo. Atualmente, os médicos buscam controlar os sintomas através de suporte clínico e hidratação, para minimizar as chances de hemorragia.

O atendimento precoce é um dos fatores que aumentam as chances de sobrevivência. A taxa de mortalidade da doença é alta. Estimativas apontam que a cepa Bundibugyo pode matar entre 30 e 40% dos infectados. Já outras em outras variantes, essa taxa pode chegar a 90%.

"Quem tem a saúde mais fragilizada é mais suscetível a ter complicações, mas esse vírus é grave e pode trazer complicações de saúde para indivíduos saudáveis também. Isso acontece porque ele age rapidamente no corpo, podendo causar hemorragia e falência múltipla dos órgãos", acrescenta Chebabo.

Ainda segundo os infectologistas, outro fator que contribui para a alta letalidade do ebola está relacionado à estrutura de saúde precária em alguns países africanos onde a presença do vírus é mais comum.

Publicidade
A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se