A polícia investiga dois seguranças por omissão e cumplicidade na agressão à dentista Giulia Falcão, cometida por seu marido, o empresário Ivo Kos, em São Paulo. Preso preventivamente após vizinhos chamarem a polícia, Kos é acusado de espancar a mulher com socos e um taco de beisebol. A defesa da vítima busca mudar a acusação de lesão corporal para tentativa de feminicídio. O empresário nega parte das agressões, e a Justiça rejeitou o pedido para converter sua detenção em prisão domiciliar.
Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher e violência doméstica. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.
Os dois seguranças suspeitos de não ajudar a dentista Giulia Falcão, de 27 anos, que foi agredida pelo marido, Ivo Kos, de 48 anos, passaram a ser investigados pelo 15º DP, Itaim Bibi, informou a Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP) nesta quinta-feira, 20. O nome deles não foi divulgado.
Ivo, sócio-fundador da Virgo, foi preso na madrugada de sábado, 15, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, sob acusação de ter agredido a mulher na volta de um jantar com clientes.
Segundo as imagens das câmeras da rua, um dos seguranças está de carro, visualiza a agressão e vai embora. "Isso é um crime omissivo", disse o advogado Fábio Fajolli, responsável pela defesa da vítima, na última segunda-feira, 17.
Outro segurança teria ajudado Ivo a arrastar a mulher até a residência. No relato, Giullia afirma que o marido foi preso porque vizinhos teriam escutado a briga e acionado a polícia.
Tentativa de feminicídio
Nesta quarta-feira, 19, a defesa de Giulia afirmou que vai buscar mudar o enquadramento da acusação contra o empresário Ivo Kos de lesão corporal para tentativa de feminicídio.
Os advogados de Ivo Kos afirmam que as informações relacionadas ao caso permanecem sob segredo de justiça e, por essa razão, não irá comentar o processo.
"O representante legal também lamenta que pessoas sem qualquer vínculo com os fatos investigados sejam citadas publicamente, como os familiares do acusado, expondo terceiros que não integram o processo. Por fim, a defesa corrobora sua confiança nas instituições e nas determinações da Justiça", disse Davi Gebara, responsável pela defesa do empresário.
A pena para lesão corporal grave pode chegar a cinco anos de reclusão, enquanto a de feminicídio pode alcançar 40 anos e a tentativa, diminuída de um a dois terços, conforme alteração de 2024 no Decreto-Lei 2.848, de 1940.
"Foi um equívoco tipificar o crime como lesão corporal porque há vários indícios de que a intenção era matar a Giullia", destacou o advogado. "Vamos trabalhar para mudar essa tipificação para que ele (Ivo) responda ao caso no Tribunal do Júri."
Giullia usou as redes sociais para falar sobre o caso. Ela aparece nas imagens com o rosto machucado, com os olhos e lábios inchados, além de ferimentos no nariz.
A Justiça de São Paulo também negou o pedido da defesa de Kos para converter a prisão preventiva em domiciliar. Ivo está preso no Centro de Detenção Provisória I de Pinheiros, segundo a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP).
Quem é Ivo Kos
Ivo Kos é empresário com atuação na região da Faria Lima, centro financeiro de São Paulo. Ele é sócio-fundador da Virgo, uma securitizadora que foi alvo de um processo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no ano passado.
O empresário foi acusado pela CVM de uso indevido de recursos de fundos de reserva de certificados de recebíveis imobiliários (CRI) e do agronegócio (CRA). Ainda em 2025, a securitizadora foi vendida para o grupo Riza e passou a se chamar Riza Sec.
Em uma rede social, ele informa que se formou na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e possui histórico profissional de atuação em instituições financeiras ligadas à gestão de recursos e fundos.
Ele diz que, em sua trajetória, teve experiência no J.P. Morgan, banco dos Estados Unidos, e na Itaim Asset Management, uma gestora de recursos. Em 2018, fundou a Virgo. Na mesma plataforma, ele informa que entrou em um período sabático desde setembro do ano passado.
Em uma publicação no Instagram, Ivo diz que tinha se afastado do trabalho por motivos de saúde, mas que estava de volta.
"Não presto mais serviços fiduciários! Focar no que eu amo fazer e me considero bom! Originar, estruturar e distribuir deals! DCM, ECM Imobiliário, crédito, agro, distressed, legal claims, precatórios, special sits, toda e qualquer intermediação devido ao meu network", diz na postagem.
No Instagram, onde acumula mais de 15 mil seguidores, ele diz ser amante de viagens, gostar dos Beatles e ter um cachorro chamado Donald Trump.
Em várias postagens, Ivo exibe passeios para destinos como Islândia e Alpes franceses, onde participou da temporada de esqui. Há também registros de refeições em restaurantes de alta gastronomia.
O empresário é filho de Olga Kos, vice-presidente do instituto que leva o nome dela. A entidade é conhecida pelas ações esportivas e culturais voltadas às pessoas com deficiência. Em nota, o Instituto Olga Kos salientou que casos de violência doméstica "não comportam relativização" e afirmou ser necessário "distinguir a esfera individual do trabalho desenvolvido pelo instituto".
Ivo e Giullia Kos são casados há cerca de 2 anos e meio, segundo ela. Depois da briga da última sexta-feira, ela gravou um vídeo para mostrar o rosto machucado.
"Essa é a situação que meu marido me deixou. Essa é a situação. Um dedo quebrado, meu rosto todo deformado. Esse é o homem sério, de negócios, a família séria que vocês conhecem", afirmou a dentista.
Conforme o boletim de ocorrência, acessado pela reportagem, a briga começou quando o casal voltava de um jantar com clientes de Ivo e foi motivada por "motivos fúteis". Ela diz que, ainda no carro, foi agredida com socos no rosto e no corpo e revidou com golpes.
Na sequência, ao chegar em casa, o registro informa que a mulher se negou a entrar na residência e que Ivo a puxou para dentro com a ajuda de um segurança que trabalha na rua.
Já dentro do imóvel, Giullia relata que o empresário a agrediu com um golpe de taco de beisebol na mão e a ameaçou com um taser. Ela diz que tentou ligar para a Polícia Militar, mas o marido tomou seu celular e a ameaçou de morte caso ela saísse de casa.
Giullia precisou ser internada. "Hoje foi mais uma das agressões que vêm acontecendo em quase três anos de casamento", disse em uma das postagens. Ela afirma sofrer violência doméstica há pelo menos dois anos.
Na versão de Ivo que consta no boletim de ocorrência, ele diz que Giullia estava sob efeito de álcool. Ele negou as agressões no carro, mas admitiu ter desferido um soco na mulher do lado de fora de casa.
Ele também negou as acusações sobre o taco de beisebol e as ameaças com taser. Disse que chegou a pegar gelo para Giullia passar nos ferimentos, mas que ela teria desferido um golpe no rosto do empresário.
Ambos foram submetidos a exame de corpo de delito no Instituto Médico-Legal, e Ivo foi submetido a exame toxicológico.