[Coluna] A gramática do respeito: onde falta diálogo, sobra violência

19 fev 2026 - 13h01
(atualizado às 14h00)

A falta de diálogo horizontal e acolhedor com os estudantes, impede a criação de relações reais e humanas no ambiente escolar.O comportamento do aluno não nasce do nada; ele é construído nas interações que a própria escola promove, ou deixa de promover. Quando deixamos de lado a importância da conversa e o direito à voz, enfraquecemos qualquer instituição de ensino. Afinal, a comunicação importa?

Para Mikhail Bakhtin, a língua só existe em sociedade. Fora da interação, a palavra é morta. Então, em uma conversa, a fala influencia o outro. Assim, sem levar em conta a importância de saber como e com quem se fala, a equipe da instituição pode, sem perceber, criar uma onda de violência por parte daqueles que são invisibilizados dentro da escola.

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Entretanto, o que vemos hoje no cenário educacional brasileiro é um abismo entre a teoria e a prática. O Novo Ensino Médio, com suas promessas de "projetos de vida", apresenta uma lacuna perigosa: não levar em conta o diálogo real entre a equipe pedagógica e os discentes. Ignora-se que, para o estudante se desenvolver, ele precisa ser ouvido em sua integralidade e não apenas ser uma esponja de diretrizes técnicas ou imposições mal formuladas. Afinal, não se constrói um "projeto de vida" de cima para baixo.

O aluno precisa, acima de tudo, sentir-se escutado, com justiça e com apoio. Como ouvimos dos próprios estudantes, muitas escolas tornaram-se verdadeiras cadeias, onde o encarceramento não se dá apenas por muros físicos, mas por barreiras reais ao desenvolvimento social e ao senso de pertencimento do jovem.

O jovem é tratado como culpado por um crime que não cometeu, por isso tratam-no como se este fosse um monstro selvagem, muitas vezes com xingamentos ou com ofensas indiretas, excluindo a possibilidade de diálogo.

O falso "problema cultural"

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Essa falha de comunicação ou essa comunicação preguiçosa tem cobrado um preço alto. O aumento alarmante de agressões, verbais e físicas, contra equipes escolares é o sintoma de uma escola que parou de escutar quem mais importa: o aluno. É comum ouvirmos que esses episódios são "problemas culturais".

Precisamos ser diretos: não existe cultura problemática, existem culturas diferentes. O conflito surge quando a escola, despreparada para lidar com as diferenças, tenta silenciar o que não compreende.

Muitas vezes, a violência é a última e trágica forma de expressão de um aluno que não encontrou espaço no discurso oficial da instituição. Culpar a cultura de uma região, baseando-se apenas em índices e ignorando o material humano, é reduzir o aluno a uma peça descartável. É cravar uma distância entre educação e aprendizado, esquecendo-se de uma premissa básica: o aluno só aprende se houver o desejo de aprender, e quem teria desejo, em um ambiente onde não há diálogo?

Falta de preparo do sistema

O problema não é a cultura do aluno, mas a falta de preparo do sistema para mediar o ambiente.

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A relação entre professor e aluno é, por natureza, pautada no conflito de ideias. Sociologicamente, ela é atravessada pela posição social de quem fala e de quem escuta. Não é necessário ser um especialista em psicologia para entender que o modo como interagimos molda o comportamento humano. Se o ambiente é de imposição de regras, falta de explicações e silenciamento, a resposta será a resistência, que, por vezes, transborda em violência.

Enquanto não mudarmos a perspectiva em favor de uma comunicação mais humana entre todos os atores escolares, a violência continuará a se perpetuar. A escola precisa deixar de ser um monólogo de autoridade para se tornar, verdadeiramente, um espaço polifônico de construção.

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Vozes da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do programa no Instagram em @salvaguarda1.

Este texto foi escrito por João Victor Rossi da Cruz, 20 anos, estudante de letras na Universidade Estadual de Londrina (UEL), e reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.

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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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