O crescimento da produção brasileira de veículos nos próximos anos virá das montadoras chinesas, não das empresas tradicionais. Um estudo da Bright Consulting mostra que as fabricantes de veículos já instaladas localmente alcançaram o pico de volume em 2025, com 2,42 milhões de unidades feitas aqui. A partir de agora, esse número vai diminuir, dando espaço para as chinesas.
A expectativa é de que, em 2030, as montadoras tradicionais façam 2,25 milhões de carros no Brasil do total de 2,89 milhão de unidades que serão fabricadas localmente. "Com a nova concorrência, as empresas já instaladas aqui têm o desafio de lançar produtos ainda mais adequados ao mercado e nem todas têm conseguido fazer isso", diz Cássio Pagliarini, CMO da consultoria.
Como exemplo positivo, ele cita a Volkswagen, que em meados de 2025 lançou o Tera, modelo de grande aceitação do consumidor e, portanto, com bom resultado de produção e vendas.
Impacto na indústria de autopeças
A consultoria alerta que a expansão das chinesas não terá efeito negativo apenas na produção das montadoras tradicionais, mas também nas fabricantes de autopeças brasileiras. "Essas novas empresas trazem seus próprios fornecedores da China e costumam pagar de 20% a 30% a menos por componente", diz Murilo Briganti, COO da Bright Consulting.
Segundo ele, por causa disso, é um desafio para essas indústrias menores se associarem às novas montadoras, o que pode fazer com que muitas delas acabem fechando as portas nos próximos anos.
Mais lançamento de carros
Esse cenário de grande competição e mudanças no setor automotivo vai se refletir, naturalmente, nos carros. Briganti conta que, nos próximos anos, o segmento vai passar por uma grande renovação. "A partir deste ano, 90% dos lançamentos serão de veículos totalmente novos, não simplesmente atualizações."
O primeiro motivo para isso está na concorrência com as chinesas. O especialista diz que essas empresas têm ciclos de desenvolvimento de produtos que variam de 12 a 24 meses. Nas marcas tradicionais, o intervalo varia de 48 a 60 meses, mas há uma corrida para encurtar esse tempo e trazer novidades ao consumidor.
Outro fator que estimula a renovação dos carros é o Mover, política automotiva que incentiva a eletrificação e o uso de biocombustíveis. O programa, inclusive, estimula o lançamento de carros 100% a etanol, sem o sistema flex que permite o abastecimento também com gasolina.
Por fim, o Proconve, legislação de emissões, impõe regras cada vez mais rígidas a cada dois anos. Isso faz com que projetos mais antigos acabem saindo de linha. "Em 2029, entra uma fase muito importante, com grande impacto em veículos diesel", conta Briganti.
Segundo ele, a regulamentação fará com que o lançamento de picapes e SUVs que usam o combustível precise também ter algum nível de eletrificação — o que acaba por encarecer o preço. "Por isso, as marcas já começaram a investir em projetos que deixam o diesel de lado e adotam motores flex", observa.
A briga entre montadoras novas e tradicionais será intensa nos próximos anos, com impactos importantes na indústria automotiva local. Nesse cenário, quem sai vitorioso é o consumidor, que ganha mais opções de compra e, de quebra, com tecnologias menos poluentes.