Fusca é como o gosto de um cidadão que só conhece espaguete ao sugo

No dia em que você provar um molho bolonhesa, ah, que diferença! Você precisa andar de Fusca todo dia para dar valor aos outros carros

21 jan 2026 - 09h36

Nasci no finalzinho da década de 60, quase na virada dos anos 70. Aprendi a dirigir numa Kombi 1200 ’59, do meu avô, lá nas ruas de Sorocaba. Tinha 12 anos. E passei minha adolescência lavando o Voyage (depois dois Monza) do meu pai e o Fusca 1300 ’75 da minha mãe infalivelmente aos sábados de manhã... para ganhar o direito, aos 14 ou 15 anos, de dar uma volta no quarteirão.

Acumulei muita quilometragem nesse Fusquinha nos anos seguintes. E exatamente por ter rodado tanto nele que essa paixão por automóveis floresceu.

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Como a formação do meu pai era em mecânica, ele mesmo cuidava da manutenção dos carros de casa. Lembro de vê-lo transformando o motor 4 cilindros a gasolina de um Comodoro 78 em versão a álcool, usando fio de cobre pra aquecer o coletor de admissão, além de viver com uma coleção de giclês no bolso. O Fusquinha tinha rodas de Brasília (aro 14) e pneus diagonais de Opala, mais largos. Acho que eram 7.35/14. De resto, totalmente original.

Em anos de uso, esse Fusquinha nunca quebrou. Nada. Nada mesmo. Aliás, só uma vez, quando a correia do dínamo partiu. E eu estava lá na casa do chapéu. Claro que ele tinha correia reserva e meu pai tinha me ensinado a trocar. Foi fácil. Mas só isso, em mais de 8 anos em que esteve em casa. Guiei muito esse Fusca. Acho até que minha paixão por carros nasce de tanto ter guiado um carro... tão ruim! O Fusca é como o gosto de um cidadão que só conhece espaguete ao sugo! No dia em que você provar um molho bolonhesa, ah, que diferença! “Como é melhor!!!” Você precisa andar de Fusca todo dia para dar valor aos outros molhos, digo, carros.

Como toda incoerência é bem-vinda nas paixões, hoje, claro, tenho um Fusca 1300 76’. Mas tenho também uma Variant 1600 74’. O Fusca só existe para justificar as qualidades da Variant: cada vez que eu guio um, logo fico extremamente feliz por ter o outro!

Volkswagen Fusca na Garagem VW
Volkswagen Fusca na Garagem VW
Foto: VW / Guia do Carro

Inteligência Artificial

Por ser esse cara antigão, confesso que sou resistente para usar IA. Já tentei algumas vezes e até me assustei com a precisão do resultado frente ao que encomendei. Um dia, eu vou acabar aderindo. Para escrever meus textos, porém, nunca.

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A não ser hoje.

Pedi pra uma dessas ferramentas bolar um texto que falasse de prazer ao dirigir carros e motos. Ele veio mais ou menos assim:

A estrada chama, um convite silencioso que a alma reconhece. Não é sobre o destino, mas sobre a dança, a sinfonia mecânica que começa ao girar a chave ou pressionar o botão de ignição.

No carro, o prazer se instala em uma cabine que é um santuário. O habitáculo acolhe, o banco abraça, e os comandos respondem a um toque, a um pensamento quase. É a orquestração do movimento: o ronco grave do motor, a precisão da direção, a forma como o chassi lê o asfalto e traduz a paisagem em sensações táteis.

Na moto, a experiência transcende o abrigo. Despido das barreiras de vidro e aço, o piloto funde-se ao vento, à temperatura do ar, ao cheiro da chuva que se aproxima. Não há habitáculo, apenas a união perfeita entre corpo e máquina.

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E por aí vai.

Gente, não é nada disso. Que bom que a IA não sabe do que estou falando. Ela desfila um rosário de sentenças poéticas, mas nunca, nunca mesmo, conseguirá sintetizar o que é frear um Porsche 911 Carrera GTS, dos novos (ou dos antigos, tanto faz) no final de uma reta, em um autódromo, a mais de 220 km/h. Ela não sabe. Então deixa eu te explicar o que é prazer ao dirigir, pelo menos pra mim.

Falo de coração acelerado quando você sente a traseira de um carro, numa fração de segundo, começar a escapar. Ou do suor na testa quando você deita a moto numa curva em um ângulo além do que havia feito... e dá certo. Ou sentir os pelos eriçados dos braços ao frear forte, acima dos 200 km/h, pra entrar no S do Senna a cerca de 70 km/h, com a traseira solta e você acertando no volante.

Prazer ao dirigir

Vou destacar alguns carros e os respectivos porquês.

Gol GTi – Lembro do exato instante em que dei a partida em um deles, lá em 1990. Era o primeiro, um Azul Mônaco, lançado no final de 1988, modelo 89. Eu trabalhava como estagiário na área de imprensa da Autolatina (holding que geria VW e Ford). E fui mandado do escritório central para a planta da VW, na Via Anchieta. Lembro da sensação majestosa de não precisar de um afogador para dar a partida! E me recordo muito bem da pegada de baixa que aquele motor tinha... Anos depois, comprei um pra mim.

Alfa Romeo 164 V6 – Peguei esse carro na garagem da Quatro Rodas para levá-lo a uma sessão de fotos. Eu havia acabado de entrar na revista. Ao sair com o carro do prédio da Editora Abril e entrar na rua, fazendo aquela corriqueira manobra de 90 graus, tomei um susto do quanto ele tinha a relação de direção direta! Tive, anos depois, uma 145 Quadrifoglio. E era a mesma coisa. Não me lembro de outros carros que dessem tanto tesão de fazer curvas... não pela suspensão que, no caso da Alfa 164, tinha uma traseira bem soltinha. Mas pelo movimento mínimo que você tinha que fazer no volante de direção.

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Honda CBX750F – Com vinte e poucos anos, eu já tinha tido uma Honda CBR450F e uma Yamaha RD350LC. Na primeira, eu desfilava. Na segunda, eu aprendi o significado de mesclar velocidade com ronco. Nada, repito, nada é tão sedutor quanto o berro de um motor 2 tempos conforme se ganha velocidade. Mas eis que faltava a rainha das motos brasileiras dos anos 80: a SeteGalo.

Tive uma 87, que tinha o apelido de Hollywood à época, devido às cores. E confesso que foi um grande erro: depois que você tem a primeira moto 4 cilindros, nunca mais você quer pilotar qualquer outra coisa. Ela tinha um desempenho primoroso, um ronco encorpado e, melhor do que a RD, um conjunto muito mais equilibrado de suspensões e freios. Até porque a ideia era continuar vivo, mesmo em altíssimas velocidades.

Há o risco de não conseguir acabar esse texto, pois nem comecei ainda a descrever o “crème de la crème”. E ele começa com a...

BMW Série 3 – Tenho duas passagens. Uma foi a primeira que eu testei, uma 325i Cabriolet ‘93, câmbio manual. Gente. Eu teria hoje uma Série 3, tranquilamente. Pensando bem, teria não... Entendi ali o quanto a essência da BMW em prometer um carro construído para gerar prazer ao dirigir correspondia, de fato, na prática, ao produto em si. A BMW é a pura definição do prazer ao dirigir.

Encaixei no carro como nunca havia sentido nada antes. Costurava com ele no trânsito como se o conhecesse havia tempo. Eu nem trocava as marchas. Dava tapas com desprezo na alavanca. E ela sempre entendia para onde ir. E o equilíbrio do carro em curvas de alta, versus a tração traseira sem nenhum controle eletrônico?? Bom. A segunda Série 3 inesquecível foi uma M3, acho que a E46, em 2000 ou 2001: a primeira que veio com paddle shift. Gente (2). Eu vou resumir no seguinte: moí um tanque e meio de gasolina em 3 dias (isso não é força de expressão. Gastei tudo isso mesmo.)

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Uno Turbo i.e. – No ano da graça de 1994, turbocompressor era sinônimo de preparação de motor. Não se usava em carros de série, até que a Fiat, de modo genial, criou um produto absolutamente aspiracional para seu carro mais popular. Já contei essa história: no lançamento, eu entrevistei o presidente da fabricante na época e mencionei o fato de o carro “passarinhar” nas arrancadas. Se a geometria não deveria ser revista.

O italiano respondeu: “Questa macchina non ha nemmeno 120 cv. Questo fenomeno è intenzionale. Si ha l'impressione che cammini molto più di quanto non faccia in realtà”. Ou: “esse carro não tem nem 120 cv. Esse fenômeno é proposital. Você fica com a impressão de que ele anda muito mais do que realmente anda”. Isso é ou não é genial? Daquele momento em diante, eu me tornei muito mais fã da Fiat do que poderia imaginar alguns anos antes!

A lista é longa. Você volta na próxima semana para o segundo capítulo?? Vou falar de carros como o Dauer 962 LeMans, a Chevrolet Zafira, o Chevrolet Omega CD, o Ford Ka 1.6, a Kawasaki Z900RS, o Honda Civic VTi, o Porsche Macan Turbo (o elétrico), mais alguns outros que vou me lembrar. Ah, claro, e do 911. Até lá.

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