BRASÍLIA - Os setores nacionais afetados pelas novas tarifas de 25% aplicadas pelos Estados Unidos avaliaram positivamente o lançamento da nova edição do plano Brasil Soberano. Apesar disso, eles ainda têm demandas ao governo brasileiro, que incluem, entre outros pontos, a ampliação do Reintegra (o Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para Empresas Exportadoras, uma espécie de cashback tributário, que devolve de 3% a 6% do valor das exportações para compensar resíduos de impostos da cadeia produtiva).
A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), por exemplo, avaliou que a medida vem ao encontro de uma das reivindicações apresentadas na reunião com os representantes do governo, no início da semana.
"A iniciativa é importante e poderá ajudar o setor, mas não será suficiente para, individualmente, salvar a indústria calçadista do baque representado pelo tarifaço dos Estados Unidos", avaliou o presidente executivo da entidade, Haroldo Ferreira, ressaltando, ainda, que aguarda as regulamentações adicionais. "O acesso ao crédito por parte das empresas atenua os impactos da perda de mercado internacional apenas havendo perspectivas de resolução do problema na maior brevidade possível", acrescenta.
No dia 21, o executivo havia solicitado, além da linha de crédito emergencial, a ampliação do Reintegra e o maior controle e monitoramento de importações, bem como aplicação mais efetiva de medidas de defesa comercial diante do avanço expressivo e nocivo das importações de calçados - em especial provenientes da China, Vietnã e Indonésia.
Representante de outro setor fortemente impactado pela sobretaxa, o presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, saudou a tempestividade do governo, que reagiu um dia após a entrada em vigor da nova tarifa. "Ninguém esperava que o governo fosse anunciar um plano desse numa rapidez tão grande, então surpreendeu", disse ele.
Velloso, no entanto, pediu ao governo, em reunião na terça-feira, 21, o fim da exigência de manutenção do nível de emprego pelas empresas socorridas. "Na nossa opinião, para se aderir ao Brasil Soberano, não deveria haver exigência de estabilidade de emprego", afirmou. "Mas no anúncio de ontem não falaram de exigência de emprego. Acho que não vai ter", prosseguiu.
A Abimaq também recebeu de forma positiva o montante disponibilizado - de R$ 18,5 bilhões. "Parece ser um recurso suficiente", ponderou Velloso. "A gente analisa que ele foi um sucesso, porque teve demanda. Existem algumas linhas que o BNDES lança que não tem demanda e [o recurso] fica lá encalhado", completou.
O montante será destinado aos setores afetados pela medida norte-americana, bem como por conflitos internacionais, além de proporcionar linhas de crédito menos custosas para setores estratégicos para a balança comercial, fertilizantes e minerais críticos.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por sua vez, considerou oportuna a disponibilização de crédito emergencial para as empresas afetadas e sustentou que a medida ajuda a aliviar o "duro golpe" recebido por setores importantes da indústria nacional.
A indústria de transformação deve ser o setor mais impactado pela tarifa adicional, pois 47% do valor total das exportações desse segmento são alcançadas pela medida do governo dos EUA.
Para a CNI, essa barreira protecionista se sobrepõe ao estrangulamento financeiro das empresas e evidencia a urgência do pacote governamental. "Vale destacar que esses setores já lidam com um conjunto de amarras operacionais e tributárias diariamente, como os juros altos e a incidência do IOF sobre operações de crédito, pilares do perverso Custo Brasil", destacou a entidade, que vê espaço para que a resposta emergencial anunciada pelo governo seja um dos instrumentos de uma 7ª missão da Nova Indústria Brasil (NIB), voltada para a ampliação da inserção da indústria brasileira no mercado internacional.
Os setores avaliam que a expansão de mercados não é medida imediata e exige tempo e capacidade de adaptação das empresas, o que ainda envolve custos. Na semana passada, o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Laudemir Müller, disse que vai anunciar em agosto um plano de diversificação de mercados para produtos afetados pela nova tarifa, no valor de R$ 130 milhões.