Mariangela Hungria, cientista da Embrapa e premiada pelo World Food Prize, afirma que a segurança alimentar vai além de colheitas maiores, exigindo redução de perdas, logística eficiente e combate aos riscos climáticos. O Brasil lidera o uso de fertilizantes biológicos sustentáveis, mas a expansão esbarra em entraves econômicos, foco em grandes monoculturas e falhas na distribuição. Para a pesquisadora, aliar biotecnologia, manejo do solo e ciência de dados é vital para garantir o acesso a alimentos.
Reconhecida por suas pesquisas com fertilizantes biológicos, que renderam a ela em 2025 o World Food Prize, considerado uma espécie de Prêmio Nobel da Agricultura, a engenheira agrônoma Mariangela Hungria, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), afirma que os desafios da segurança alimentar vão muito além do aumento da produtividade no campo. Envolvem reduzir perdas, melhorar a logística, ampliar o acesso a alimentos de qualidade e desenvolver sistemas agrícolas capazes de resistir às mudanças climáticas.
Ela lembra que os produtos biológicos beneficiam o meio ambiente e o solo, e podem reduzir nossa dependência da importação, fortalecendo a indústria nacional e gerando empregos. E que o Brasil reúne condições para ampliar significativamente o uso de tecnologias biológicas, mas enfrenta barreiras econômicas e dificuldades de acesso, especialmente entre pequenos produtores.
Veja a seguir os principais trechos da entrevista:
A ciência e a biotecnologia estão transformando a produção de alimentos. É possível dizer que caminhamos para uma agricultura biológica?
Acredito que seja um caminho sem volta. Nosso trabalho demonstrou que os (fertilizantes) biológicos podem ser utilizados em larga escala e com alta produtividade. Não adianta dizer ao agricultor que ele vai melhorar o solo e reduzir as emissões de gases de efeito estufa se tiver de lucrar menos. Precisamos oferecer soluções capazes de competir com os produtos químicos, permitindo sua substituição total ou parcial. Ainda não conseguimos pensar em uma agricultura 100% biológica, mas avançamos muito. A pandemia de Covid-19 e a guerra entre Rússia e Ucrânia, que dificultaram o transporte e o acesso aos fertilizantes, também impulsionaram essa mudança. A partir de 2020, o uso de biológicos cresceu muito, e o Brasil virou líder mundial nesse mercado. Mesmo assim, eles ainda representam cerca de 10% do uso de produtos químicos. Em três anos, com as soluções que já existem, poderíamos chegar a 40% ou 50%.
O que limita essa expansão?
O maior entrave é econômico. Os biológicos são baratos, mas as empresas estão acostumadas a margens de lucro muito elevadas dos produtos químicos. Por isso, concentram seus investimentos em grandes culturas, como soja, milho e cana-de-açúcar. Temos soluções biológicas para mais de cem outras espécies cultivadas, mas faltam produtos, por exemplo, para tomate e feijão, porque esses mercados são considerados pequenos. Precisamos encontrar maneiras de superar essas barreiras e ampliar o acesso às tecnologias, inclusive para agricultores de menor porte.
De que forma?
Cooperativas e associações sólidas podem ter papel importante. Estabelecemos uma parceria com uma grande cooperativa do Paraná, que reúne pequenos e médios agricultores e se comprometeu a produzir também para culturas além da soja, do milho e da cana. Esperamos que essa experiência estimule outras. Mas é preciso cuidado: produzir biológicos exige alta tecnologia, ambiente estéril, condições nutricionais específicas para os microrganismos e profissionais qualificados. Não basta ter uma pequena estrutura para fabricar um produto. Apesar de os biológicos serem baratos, construir uma bioindústria de qualidade exige investimentos elevados. Cooperativas maiores podem reunir recursos e contratar equipes especializadas. Também precisamos ampliar a distribuição. Levantamentos nas regiões Norte e Nordeste mostram que muitos agricultores conhecem os biológicos, mas não conseguem encontrá-los.
Além de maior produtividade, como a ciência pode contribuir para reduzir perdas e desperdício de alimentos?
A segurança alimentar não depende apenas de produzir alimentos. A produção talvez nem chegue à metade do problema. É preciso considerar políticas públicas, comunicação, ciência de dados e diferentes áreas do conhecimento. No caso das perdas, o de frutas é um exemplo preocupante. Estima-se que chegue a 70%. Podemos desenvolver tecnologias de processamento para transformá-las em polpas, concentrados e outros produtos, aproveitando melhor essa riqueza. Já o desperdício no consumo exige educação, para formar gerações mais conscientes sobre a importância de evitar que alimentos sejam descartados. É especialmente triste ver o Brasil entre os países com maiores perdas e desperdício enquanto ainda há pessoas passando fome.
Como a inteligência artificial e a análise de dados podem ajudar nesse cenário?
A ciência de dados é fundamental, inclusive para identificar quem passa fome, onde essas pessoas estão e de que tipo de alimentação precisam. Não faz sentido, por exemplo, enviar alimentos de São Paulo para uma comunidade amazônica sem considerar as necessidades daquela população. E também não basta coletar informações e entregá-las à inteligência artificial. É necessário saber formular as perguntas, verificar como os dados foram obtidos e avaliar se podem ser comparados. Tenho visto análises equivocadas, que comparam informações produzidas com metodologias diferentes. A inteligência artificial não resolve tudo sozinha. A curadoria dos dados e o conhecimento científico são indispensáveis para produzir resultados confiáveis.
Que outros aspectos devem ser considerados para tornar os alimentos sustentáveis mais acessíveis à população?
Temos muito a melhorar na logística. Perdemos alimentos no armazenamento e no transporte. Se melhorássemos essa infraestrutura, os alimentos poderiam chegar mais baratos ao consumidor. Também precisamos fortalecer as cadeias locais de produção e ampliar o acesso a alimentos tradicionais cultivados mais perto de onde são consumidos.
Quais são os riscos das mudanças climáticas para a produção brasileira de alimentos?
A situação é muito séria. Em algumas regiões, o aumento médio da temperatura pode chegar a seis ou sete graus, muito acima da média global projetada. Áreas de Palmas (TO), Cuiabá (MT) e partes do Nordeste podem enfrentar condições que inviabilizem a agricultura. Podemos desenvolver tecnologias, como a edição gênica, mas a vida tem limites biológicos. As proteínas podem perder sua estrutura em temperaturas extremas, e não conseguiremos manter a produção em condições acima do suportável. Grandes áreas que hoje produzem alimentos podem deixar de ser agricultáveis. Por isso, precisamos investir em ciência e tecnologia, mas também em políticas globais capazes de frear as emissões de gases de efeito estufa.
Quais tecnologias podem ajudar nesse enfrentamento?
Uma das principais ferramentas é recuperar uma abordagem mais biológica e natural do solo. O uso de biológicos, a rotação de culturas e o plantio direto, associados à alta produtividade, contribuem para aumentar a resiliência do solo. Temos observado, inclusive em pesquisas realizadas em áreas produtoras de grãos em Mato Grosso, que práticas conservacionistas tornam as plantas mais tolerantes a períodos de seca do que sistemas baseados no revolvimento do solo e em práticas tradicionais. Também precisamos preservar as florestas. A Amazônia é fundamental para o equilíbrio climático e a captura de carbono. As altas temperaturas, no entanto, podem prejudicar as enzimas responsáveis pela fotossíntese. Isso pode agravar o problema climático.