Raio-X do trabalho revela que ter carteira assinada é ‘privilégio’ para poucos no Brasil

País ainda convive com um cenário em que a formalização é exceção para milhões de trabalhadores, mesmo com mercado de trabalho aquecido

1 mai 2026 - 05h00
Dos 102 milhões de brasileiros ocupados, apenas 39,2 milhões têm carteira assinada no setor privado
Dos 102 milhões de brasileiros ocupados, apenas 39,2 milhões têm carteira assinada no setor privado
Foto: Nilton Fukuda/Estadão / Estadão

Apesar de um mercado de trabalho aquecido e com taxas de desemprego baixas, o Brasil ainda convive com um cenário em que a formalização é exceção para milhões de trabalhadores. Dados divulgados na quinta-feira, 30, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, dos 102 milhões de brasileiros ocupados, apenas 39,2 milhões têm carteira assinada no setor privado. 

Na prática, isso significa que ter um emprego formal, com direitos garantidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), ainda é um “privilégio” restrito a uma parcela da população. 

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Para o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, a raiz do problema está no alto custo do trabalho no país. “O mercado de trabalho brasileiro tem um custo tributário extremamente elevado. A gente paga muito imposto, e isso ajuda a explicar essa informalidade muito elevada que a gente tem”, afirma.

Segundo ele, mesmo após a reforma trabalhista de 2017, que flexibilizou contratações e demissões, o peso dos encargos ainda dificulta a ampliação do emprego formal.  

Com o custo de ter um funcionário CLT alto, um  fenômeno que cresce é a chamada “pejotização”. Ao contratar trabalhadores como pessoa jurídica (PJ), empresas conseguem reduzir encargos, mas isso também implica perda de direitos trabalhistas. 

“A pejotização é uma consequência desse custo elevado. Não é totalmente informal, mas foge das obrigações da CLT e pode reduzir contribuições importantes, como para a Previdência”, avalia Vale.

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O economista-chefe da Garantia Capital, André Perfeito, chama atenção para uma transformação mais profunda: a mudança na relação entre trabalhador e emprego. 

“Hoje existe uma mudança microeconômica importante. Com tecnologia e aplicativos, surgiram novas formas de trabalho. Se você perde o emprego, em poucos dias pode encontrar alguma atividade, mesmo que informal ou temporária”, afirma.

Segundo Perfeito, plataformas digitais e trabalhos sob demanda ampliaram as possibilidades de renda, reduzindo a dependência do emprego tradicional. “Você tem uma outra relação com o trabalho. Isso ajuda a manter o desemprego baixo, mesmo com juros altos e crescimento moderado”, explica.

Por outro lado, ele pondera que o trabalho com carteira assinada não deve desaparecer, mas tende a se concentrar em funções específicas e mais estruturadas. “A CLT é a expressão de um tipo de trabalho. Algumas funções não têm como ser informais ou freelancers, como cargos administrativos ou de gestão”.

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Raio X do trabalhador brasileiro

Raio X do trabalho no Brasil
Foto: Ilustração/Terra
  • Salário mínimo (2026): R$ 1.621,00
  • Salário médio: R$ 3.722,00
  • População ocupada: 102 milhões de pessoas
  • Empregados do setor privado com carteira assinada: 39,2 milhões
  • Empregados do setor privado sem carteira: 13,3 milhões
  • Empregados do setor público: 12,7 milhões
  • Trabalhadores por conta própria: 26 milhões
  • Trabalhadores domésticos: 5,5 milhões
  • Trabalhadores informais: 38,1 milhões
  • Taxa de informalidade: 37,3%
  • População desocupada: 6,2 milhões
  • População subutilizada: 16,3 milhões
  • Taxa de desemprego: 6,1%
  • Desalentados: 2,7 milhões
  • Jovens “nem-nem” (nem estuda nem trabalha): 8,8 milhões 

Escala 6x1 

No campo legislativo, o debate sobre as condições de trabalho tem avançado. Três propostas em tramitação no Congresso buscam reduzir a jornada semanal, incluindo a adoção de dois dias de descanso. Entre elas, há duas PECs que limitam a carga a 36 horas semanais e um projeto do governo que propõe reduzir de 44 para 40 horas, sem corte salarial.

Duas Propostas de emenda à Constituição (PECs) limitando:

  • 8 horas diárias
  • 36 horas semanais

Projeto do governo:

  • Redução de 44 para 40 horas semanais
  • Sem redução de salário

Enquanto movimentos de trabalhadores defendem ganhos em qualidade de vida, entidades empresariais alertam para aumento de custos, queda de produtividade e riscos ao emprego caso o Congresso reduza a jornada.

A FecomercioSP estima que o custo sobre a folha de pagamentos de empresas do País será de R$ 158 bilhões, em um cenário conservador. "Esse montante seria ainda maior, de R$ 610 bilhões, se a proposta de diminuir a jornada para 36 horas semanais triunfasse".

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A assessora jurídica da FecomercioSP, Karina Negrelli, chama a atenção para externalidades que a mudança de escala pode causar. Segundo ela, pode haver migração de contratos CLT para modelos sem proteção trabalhista. "A reação dependerá do porte e da capacidade de adaptação das empresas", explica.

A coordenadora jurídica do VAT (Vida Além do Trabalho), Alana Alves, reconhece que a mudança gerará impactos, mas diz que o ponto central é encontrar equilíbrio entre lucro e qualidade de vida do trabalhador. "Temos de chegar a um denominador comum e entender que o lucro do empresário não pode estar acima da vida do trabalhador".

Alana afirma ainda ser preciso evitar que mudanças aumentem a precarização do trabalho. Ela também chama atenção para o processo de pejotização. "Somos contra a pejotização irrestrita, pois pode esvaziar direitos trabalhistas e neutralizar os efeitos do fim da escala 6x1".

Fonte: Portal Terra
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