Com a disseminação global das canetas emagrecedoras e a tendência de maior consumo de proteína, o preço da matéria-prima do whey protein disparou. Nos últimos 12 meses, a alta é de 105%, com a tonelada do concentrado de whey com 80% de teor proteico (WPC 80) atingindo € 22 mil (cerca de R$ 128 mil) na União Europeia nas duas primeiras semanas de maio — não há um dado consolidado para o Brasil, pois há poucos fabricantes no País —, de acordo com a rede de serviços financeiros StoneX.
Como as canetas emagrecedoras reduzem o apetite, o whey protein passou a ser consumido para ajudar a preservar a massa magra durante o processo de emagrecimento. Assim, a propagação desses medicamentos, associada a um maior consumo de whey desde a pandemia, pressionou o preço do insumo.
O concentrado de whey é feito a partir do soro do leite, que, por sua vez, é um resíduo da fabricação do queijo. Esse soro é filtrado, e o material retido é transformado em whey protein. Antigamente, esse produto era usado na alimentação de animais.
Na análise do CEO da distribuidora de ingredientes proteicos Protesa, Tiago Chimelli, além da proliferação das canetas emagrecedoras, o whey protein deixou de ser um produto de nicho, da indústria de nutrição esportiva e de fórmulas infantis, e se popularizou pela sociedade em geral. "O nicho virou 'mainstream', e as marcas passaram a usar o insumo como fortificante proteico em alimentos em geral." Hoje, há no mercado, por exemplo, chocolates e pães com whey.
A oferta do insumo, porém, não acompanhou o crescimento da demanda — daí a alta no preço. Chimelli não vê possibilidade de os preços recuarem antes do segundo ou do terceiro trimestre de 2027, quando novas unidades fabris devem entrar em operação no mundo.
Uma das poucas fabricantes de concentrado de proteína de whey no Brasil, a Sooro Renner é uma das empresas que estão expandindo sua operação. A companhia está investindo R$ 800 milhões em uma fábrica em Francisco Beltrão (PR).
Para a analista de inteligência de mercado da Stonex, Juliana Torres, pode haver alguma correção nos preços nos próximos meses se a cotação elevada fizer o consumo cair. Ainda assim, o preço não deve recuar para patamares como os vistos no ano passado, diz ela. "O concentrado de whey tem uma produção pouco regionalizada, com o Brasil dependendo muito da importação dos Estados Unidos e da Europa."
Os EUA são um dos principais produtores do insumo e, lá, apesar da alta no preço, o consumo não está cedendo, destaca Chimelli. Como consequência, os estoques estão diminuindo. O empresário conta que, por ora, repassou cerca de 70% do aumento para os clientes.
O CEO da Growth Suplementos, Diego de Freitas Rodrigues, diz que, desde o ano passado, a empresa fez dois reajustes de preço em seus produtos, cada um de 15%. Como não consegue repassar todo o aumento para o consumidor, a Growth tem buscado outras estratégias para não perder tanto suas margens. Uma delas é oferecer produtos com menor teor proteico.
"Grande parte do público, como o usuário de canetas emagrecedoras, não precisa de uma dose tão alta de proteína, como se fosse um atleta de fisiculturismo. Para esse consumidor, lançamos o whey com concentração de 60%."
Até então, a Growth trabalhava com concentração de 80% e 90%. O novo produto é 40% mais barato que o tradicional. Com menos proteína, é possível também melhorar o sabor do suplemento, acrescenta Rodrigues.
A empresa ainda passou a vender embalagens menores, com preços reduzidos para quem não vai à academia todos os dias. "É uma opção que cabe no bolso."
A Supley, também de suplementos, é outra que começou a oferecer produtos com volume reduzido. Antes, a empresa só tinha potes de 900 gramas. Agora, conta com embalagens de 450 gramas. "A intenção, com o produto, é atender novos canais de venda e também ter um ticket médio mais barato", diz Alberto Moretto, sócio da companhia.
Moretto conta que a Supley fez ajustes de cerca de 40% no preço de seus produtos para tentar compensar a alta do insumo. Segundo ele, a demanda por whey protein ainda é crescente, mas menor do que seria se o concentrado de whey não estivesse tão caro. "Quem tomava dois shakes por dia agora toma só um shake e complementa com uma barrinha de proteína."