A busca pela primeira habilitação no Brasil deu um salto de 360% em apenas um ano. Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram que o número de novos registros disparou impulsionado pelo novo programa do governo federal batizado de CNH do Brasil, que tornou mais barato o processo de retirada da habilitação.
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De acordo com o governo, o número de pedidos passou de 369,2 mil, em janeiro de 2025, para 1,7 milhão em janeiro de 2026. Entre os estados com maior número de emissões, São Paulo lidera o ranking nacional, com 76.521 mil habilitações expedidas no mês passado, seguido por Minas Gerais, com 23.548, Rio de Janeiro, com 23.301, Bahia, com 21.476, e Paraná, com 18.492.
Taiane Amorim, de 29 anos e moradora de Salvador, faz parte deste grupo de brasileiros que decidiu tirar a habilitação agora, com o serviço mais simples e barato. Ela conta que decidiu iniciar o processo de retirada da CNH após o nascimento do filho, em 2023. No entanto, adiou o sonho várias vezes devido aos altos custos cobrados pelas autoescolas.
“Eu decidi tirar a carteira há mais ou menos uns três anos, logo após o nascimento do meu filho. Porém, esse sonho foi adiado por diversas vezes. E o principal motivo era a taxa abusiva, que eu não concordava, ficava indignada porque a gente percebia que a prioridade não era o cliente, era o dinheiro.”
Para Taiane, o programa do governo foi essencial por oferecer inclusão, uma vez que respeita às limitações dela como mãe e sem horário flexível para as aulas, e a redução de custos. Segundo ela estima, o valor final da CNH vai ficar em torno de R$ 800, bem abaixo dos orçamentos que recebeu em autoescolas. “Eu pedi cinco orçamentos em autoescolas aqui em Salvador e gastaria de R$ 3.500 a R$ 4.000.”
Alexandre Cruz, estudante de Direito e morador de Rio Branco, no Acre, também está no processo para tirar a CNH. O jovem, que completou recentemente 18 anos, já planejava tirar a CNH antes mesmo de atingir a maioridade, mas durante suas férias, que coincidiu de o programa do governo entrar em vigor, ele decidiu dar início ao processo para ter sua habilitação.
Segundo o estudante, o modelo tradicional custaria cerca de R$ 3.000, pelo novo formato o valor ficou entre R$ 700 e R$ 800. “O programa caiu como uma luva. É acessível e incentiva muito, principalmente quem não tem a condição de pagar, porque torna obrigatório pagar apenas as taxas dos exames e, eventualmente, aula com os instrutores. Enfim, foi uma maravilha”, comemora.
Cenário de colapso nas autoescolas
Se de um lado houve redução de custos para os alunos, por outro, as autoescolas enfrentam uma crise, com queda na demanda. Matheus Martins, vice-presidente da Associação dos Centros de Formação de Condutores do Estado de São Paulo (Acesp), cita uma queda brusca no número de autoescolas, especialmente em São Paulo, onde o total teria caído de cerca de 3.600 para 2.300 unidades após o início do programa.
Segundo Matheus, o fechamento das unidades ocorre porque não há novos alunos. “O setor está colapsado. Não tem aluno nas autoescolas”, enfatiza ao criticar o governo que, segundo ele, implementou o programa de forma rápida, sem estudos de impacto e sem diálogo com a categoria, motivado por interesses eleitorais.
Ao Terra, Matheus Martins também questiona os números divulgados pelo governo. Ele sugere que o percentual está inflado e não representa, de fato, novas pessoas se habilitando. Segundo ele, a Senatran reativou cerca de 800 mil processos antigos (Renach) vencidos, alguns desde 2001, o que distorce as estatísticas atuais.
“Muitos dos números divulgados se referem apenas a acessos à plataforma Gov.br e à realização do curso teórico gratuito, sem que os candidatos avancem para exames médicos, aulas práticas ou provas, o que significa que grande parte não está efetivamente tirando a CNH”, argumentou. Matheus prevê que menos de 20% dos cadastrados devem concluir o processo, enquanto a maioria acessa o sistema apenas por curiosidade.
Em nota, o Senatran informou que o número de pessoas que já concluíram os cursos teóricos passou de 196.707 em janeiro de 2025 para 824.494 este ano, alta de 319%, enquanto os exames teóricos tiveram aumento de 32%, indo de 171.232 para 225.462.
Já os cursos práticos cresceram 22%, saindo de 328 mil para mais de 400 mil, e os exames práticos registraram aumento de 11%, com mais de 323 mil aplicações em janeiro de 2026, frente a 291 mil no mesmo período do ano anterior.