Diante dos altos custos de produção e do crescimento lento na maior economia da Europa, lideranças empresariais alemãs avaliam transferir operações ou ampliar investimentos fora do país.Empresas alemãs continuam a transferir suas operações para o exterior - e isso se aplica a negócios de todos os portes. Segundo relatos na imprensa, a Gardena, fabricante de ferramentas de jardinagem sediada na cidade de Ulm, planeja cortar 250 empregos na Alemanha e transferir parte de suas operações para a República Tcheca. Isso representa uma redução de 10% de sua força de trabalho no país.
Grandes multinacionais, como Basf, continuam a ampliar seus investimentos no exterior. No início deste ano, foi divulgado que a gigante alemã da indústria química pretende transferir posições de serviços para a Índia, o que coloca sob pressão muitos postos de trabalho em sua unidade de Berlim.
No ano passado, a situação foi descrita em termos ainda mais dramáticos.
"A crise industrial da Alemanha avança em ritmo acelerado", escreveu em novembro a revista online Finanzmarktwelt, com base em dados do Departamento Federal de Estatística (Destatis) referentes ao período de 2018 a 2023. O órgão ainda não divulgou números mais recentes.
Ameaça a empregos em solo alemão?
De acordo com os dados, cerca de 1,3 mil empresas alemãs com mais de 50 funcionários transferiram funções de negócios para o exterior entre 2021 e 2023. Isso equivale a 2,2% de todas as empresas desse porte com sede na Alemanha em 2023.
Essas transferências teriam custado aproximadamente 50,8 mil empregos no país. Muitos temiam que essa tendência continuasse ou até mesmo se acelerasse, dados os altos custos de energia e mão de obra na Alemanha.
No entanto, o banco estatal de desenvolvimento alemão KfW já observa uma tendência diferente. Em junho, seu departamento de pesquisa anunciou que "muitas empresas de médio porte estão reduzindo sua presença internacional." De acordo com as conclusões do banco, o número de empresas alemãs de médio porte que atuavam no exterior caiu de cerca de 880 mil em 2022 para cerca de 760 mil um ano depois.
"As condições gerais para o comércio exterior se deterioraram significativamente", afirmou Dirk Schumacher, economista-chefe do KfW. Ele atribui essa tendência às "tensões geopolíticas na Ucrânia e no Oriente Médio, à crescente concorrência das exportações da China em setores-chave e à política comercial protecionista dos Estados Unidos".
Diagnósticos divergentes
A Associação das Câmaras de Comércio e Indústria Alemãs (DIHK), no entanto, apresenta um panorama bastante diferente.
Com base na pesquisa sobre o clima de negócios realizada pela entidade no início de 2026, o porta-voz da DIHK, Sven Ehling, disse que as pressões de custos sobre a indústria alemã atingiram um recorde histórico, o que tem levado muitas empresas a planejar maiores investimentos no exterior.
De acordo com a DIHK, 43% das empresas industriais planejam investimentos estrangeiros em 2026, o que corresponde a três pontos percentuais a mais do que no ano anterior. "Os motivos são claros: aumento dos custos, problemas estruturais e condições econômicas desfavoráveis na Alemanha como local de negócios", explicou Volker Treier, diretor de comércio internacional da DIHK.
Novos motivos para investir no exterior
No passado, o investimento estrangeiro tendia a fortalecer as operações domésticas, gerando mais empregos no país. Isso era particularmente verdadeiro para investimentos voltados à abertura de novos mercados ou à expansão de vendas e atendimento ao cliente. No entanto, a participação de empresas alemãs que investem no exterior principalmente para o desenvolvimento de mercado vem caindo, de acordo com a pesquisa da DIHK, de 30% para 28%.
"As empresas agora são forçadas a investir no exterior principalmente por razões de custo. Isso com frequência leva a cortes significativos nas unidades domésticas", disse Treier. O investimento estrangeiro ajuda a reduzir custos, em vez de impulsionar a expansão.
De modo geral, a tendência de investir no exterior está longe de ser clara. A situação atual se assemelharia mais a um movimento lateral. De acordo com o professor Steffen Müller, do Instituto Leibniz de Pesquisa Econômica de Halle (IWH), os investimentos diretos de empresas alemãs no exterior estão "bem abaixo dos níveis máximos".
À DW, Müller explicou que as estatísticas do Bundesbank - o Banco Central da Alemanha - mostram valores de transações anuais de 120 bilhões de euros (cerca de R$ 700 milhões) entre 2017 e 2022. Em contraste, os números para 2024 são de 80 bilhões e, para 2025, de menos de 100 bilhões de euros. Esses números dão "poucos motivos para supor que um fluxo de capital significativamente maior esteja saindo do país do que nos anos anteriores".
América perde, Ásia ganha
A pesquisa revela mudanças significativas nos destinos preferenciais dos investimentos alemães no exterior. A América do Norte, em particular, vem perdendo atratividade. A participação de empresas alemãs que planejam investir lá caiu de 48% para 44%.
Ao mesmo tempo, aumentam os investimentos na Ásia. De acordo com a DIHK, a participação de empresas industriais que investem na China está subindo de 31% para 34%. A região Ásia-Pacífico (excluindo a China) também vem ganhando importância, crescendo de 21% para 26%.
"A disputa tarifária com os Estados Unidos está alimentando a incerteza e fazendo com que as empresas adiem decisões", disse Treier.
A zona do euro continua sendo a região mais importante para investimentos de empresas alemãs (64%). A estabilidade, o mercado único comum e a moeda compartilhada oferecem condições confiáveis - um fator particularmente importante nas decisões de investimento em tempos de incerteza geopolítica, como observou o representante da DIHK.