Após mais de duas décadas de negociações, o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia finalmente ganhou contornos definitivos. Porém, é fundamental que o Brasil esteja atento ao capítulo ambiental. À medida que as tarifas caem, surgem barreiras não tarifárias sob a forma de obrigações ambientais rigorosas.
Como ex-ministro e negociador em fóruns internacionais, testemunhei de perto a atuação europeia que instrumentaliza a agenda climática para servir a interesses comerciais próprios.
A União Europeia construiu, ao longo de décadas, um arcabouço ambiental sofisticado, integrado a políticas industriais e agrícolas amparadas por altos subsídios, crédito direcionado e proteção regulatória. Sua indústria internalizou custos ambientais com apoio público consistente. O Brasil, por sua vez, é pressionado a adotar rapidamente os mesmos padrões, sem instrumentos equivalentes de transição, sem participação efetiva na formulação das regras e sem apoio econômico proporcional.
Esse descompasso cria uma assimetria estrutural. O risco não reside apenas no desempenho ambiental, mas na dificuldade de comprovar tais avanços segundo metodologias, métricas e certificações definidas unilateralmente por Bruxelas.
A crescente complexidade das imposições ambientais europeias imporá custos e barreiras. Para grandes corporações globais, trata-se de um desafio gerenciável; para as pequenas e médias indústrias brasileiras, representa algo muitas vezes intransponível, criando um obstáculo invisível mesmo para quem já produz de forma sustentável.
Há um risco de transformação do Mercosul num "tomador de regras" ambientais externas, reduzindo o bloco à condição de uma "colônia ambiental", submetida a padrões definidos fora de suas realidades produtivas e tecnológicas. Obrigações ambientais para nós, proteção industrial e agrícola para eles.
O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, vastas áreas de floresta preservada e um extenso ecossistema marinho protegido. Contudo, ainda corre o risco de pagar um "pedágio verde" para acessar mercados, enquanto importa bens industrializados europeus com vantagens competitivas construídas sob proteção estatal.
A sustentabilidade deve ser uma oportunidade de negócio, e não uma barreira alfandegária. Mais do que reagir, é hora de liderar: converter nossa eficiência ambiental em inteligência competitiva, construir vantagens comparativas e posicionar o Brasil como o fornecedor global mais confiável de produtos sustentáveis.