Intervenção americana na Venezuela abre década de incertezas para petróleo no Brasil

22 jan 2026 - 18h20
(atualizado às 18h31)

Eventual aumento da produção venezuelana pode acirrar concorrência por mercados e investimentos na era dos renováveis. Brasília, enquanto isso, redobra aposta na exploração de novas fronteiras.Quando Donald Trump causou um terremoto político na Venezuela, com a captura de Nicolás Maduro, o setor petrolífero brasileiro ressintonizou os radares sobre o mercado. Já num cenário de crescente sobreoferta do petróleo, a baixa do preço do barril se tornou um risco, em virtude das especulações sobre o declarado plano do presidente americano para turbinar a produção venezuelana.

O impacto dos primeiros dias foi ameno, mas a incerteza ainda paira sobre um setor que redobra a aposta em novas fronteiras de exploração. Entre dúvidas quanto à viabilidade de uma célere reforma da infraestrutura venezuelana, especialistas não descartam o futuro acirramento da concorrência por mercados importadores e investimentos.

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"Os projetos que estão mais protegidos levariam de 18 a 24 meses para produzir de maneira importante. Mas há outros que vão levar sete ou oito anos", estima Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), descartando riscos de curto prazo. "Se a Venezuela realmente entrar no mercado muito forte, este pode ser um fator daqui a dez anos."

Os barris de petróleo bruto são hoje a principal commodity vendida pelo país, tendo superado a soja em 2024 e 2025, ao gerarem mais de 44 bilhões de dólares anuais em exportações. São 38 bilhões a mais do que em 2006, quando a Petrobras descobriu a camada do pré-sal. À época, o Brasil exportava 500 milhões de barris a menos por ano, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

O caminho para os planos de Trump, entretanto, é cheio de obstáculos. A sucateada infraestrutura petrolífera venezuelana precisa de investimentos multibilionários, e a atração do capital, por sua vez, depende de uma nova atmosfera regulatória. Ainda há o problema das disputas judiciais com petrolíferas expropriadas no início do século, que cobram de Caracas indenizações de bilhões de dólares.

Anos de riscos

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A Venezuela poderia chegar a produzir 1,5 milhão de barris ao dia em cerca de três anos, em comparação aos estimados atuais 800 mil, calcula Juliano Bueno de Araújo, diretor técnico do Instituto Arayara Internacional, que é dedicado à pauta energética.

Em períodos de pico dos anos 1960, 1970 e 1990, a Venezuela produziu mais de três milhões de barris ao dia. A sua reserva conhecida ultrapassa os 300 bilhões de barris, ou 17% do total no planeta. "Em dez anos, seria ainda possível subir este patamar para cerca de dois milhões de barris ao dia", afirma.

A linha do tempo coincide com a gradual queda da demanda mundial por petróleo a partir de 2030, esperada pela previsão mais recente da Agência Internacional de Energia (AIE), caso se mantenham políticas já anunciadas ou implementadas pelos países.

Por sua vez, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) destacou, em estudo do ano passado, que o presente acirramento das tensões geopolíticas aumenta o risco de choques no mercado de petróleo na próxima década. Ao mesmo tempo, levará os países a diversificarem fontes de energia e priorizarem recursos domésticos.

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A previsão da EPE, que alimenta o Ministério de Minas e Energia (MME) com pesquisas para o planejamento energético nacional, é que a trajetória até 2035 seja marcada por barris a preços moderados, volatilidade persistente nos preços e avanço das tecnologias de baixo carbono.

No Brasil, o setor de petróleo e gás quer ser visto como rocha de estabilidade entre as rachaduras da geopolítica global. "Estamos vivendo a guerra do petróleo global. De alguma maneira, isso poderá trazer a saída do capital de alguns investidores do Brasil. E tracionará outros, que entendem que aqui há garantia de fornecimento", prossegue Bueno de Araújo.

Expansionismo na Petrobras

Somadas às preocupações ambientais e com as mudanças climáticas, as projeções incitam discussões sobre o futuro do petróleo brasileiro, em particular da Petrobras. A gigante estatal não só lidera a franca expansão do setor no Brasil, como tem aumentado nos últimos anos o foco sobre a exploração e produção de petróleo.

"A Petrobras tem importância inegável para o país, só que não está acompanhando nos últimos anos a necessidade de diversificação de investimentos, com olhar para a descarbonização", diz Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima (OC) e ex-presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

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Sozinha, a Petrobras é responsável por quase um terço de toda a expansão upstream - isto é, focada nos estágios iniciais, de exploração e produção - de petróleo e gás na América Latina e no Caribe, de acordo com relatório assinado pela organização Urgewald, na Alemanha, e o Instituto Arayara Internacional, no Brasil.

No terceiro trimestre do ano passado, a produção média de óleo pela Petrobras era de 2,5 milhões de barris ao dia. O crescimento foi de cerca de 15% sobre o mesmo período de 2024.

Lógica de mercado

Diante dos desdobramentos políticos em terras sul-americanas, a possibilidade de a China se voltar ainda mais à produção brasileira, em consequência da presença americana na Venezuela e no Caribe, oferece uma oportunidade, mas limitada.

O país asiático foi, entre julho e setembro, o destino de pouco mais da metade das exportações de petróleo da Petrobras. Já na Venezuela, as compras chinesas chegaram a cerca de 470 mil barris ao dia em 2025, ou seja, mais da metade do total nacional, estimou a empresa de análise energética Vortexa à agência de notícias Reuters.

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Mas o petróleo venezuelano é mais pesado do que o brasileiro, e as refinarias mundo afora são adaptadas a tipos específicos da commodity. Por outro lado, essa segmentação também amortece o impacto para o petróleo brasileiro de uma eventual disparada da produção venezuelana.

Uma parte dos analistas e representantes do setor afirma que é hora de perfurar novos poços para repor reservas em nome da segurança energética nacional. Mas também para garantir excedentes que gerem riqueza a tempo, diante da perspectiva de queda na demanda global por petróleo.

"Caso o nosso vizinho comece a explorar as suas reservas, e num mundo em transição energética, é necessário ter pressa para extrair o petróleo o mais rápido possível. Ou você decide que não vai mais produzir petróleo ou que vai produzir logo", diz Rafael Chaves, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-diretor da Petrobras.

Críticos, entretanto, contra-argumentam que o Brasil já tem reservas suficientes até 2050 e exporta mais da metade do seu petróleo, com descobertas recentes no pré-sal. No ano passado, a britânica BP fez na Bacia de Santos sua maior descoberta de petróleo e gás em 25 anos na costa brasileira.

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Qual é a Petrobras do futuro?

Em 2021, a AIE afirmou que o mundo já não precisava de novas reservas de petróleo ou gás, se o planeta pretendia de fato atingir a neutralidade climática até 2050.

"O petróleo exportado queima em outro país e contribui para a crise climática, mesmo que não entre na conta das metas climáticas do Brasil", pontua Suely Araújo, coautora do relatório A Petrobras de que precisamos, no qual especialistas pedem reformas na estatal em benefício do clima. "São necessários o gerenciamento estratégico de áreas já abertas e um programa de descarbonização", afirma o texto.

Outras recomendações do documento incluem a diversificação de atividades, a priorização de renováveis, a descarbonização da logística e o investimento em biocombustíveis.

Não há, entretanto, sinal de que o mercado pretenda desacelerar investimentos no petróleo do Brasil. Já foram arrematados em leilão, inclusive por empresas estrangeiras, blocos de exploração da Bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial. Lá, em águas profundas ricas em biodiversidade, a Petrobras recebeu a licença do Ibama para procurar petróleo no ano passado, às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30, em Belém.

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"Estes blocos vão virar plataformas daqui a 20 anos. Até quando pretendemos aumentar a exploração de petróleo?," critica a especialista do Observatório do Clima. "A Petrobras tem potencial de liderar a transição energética, se transformando numa empresa de energia."

Outra fronteira do petróleo brasileiro está na Bacia Sedimentar de Pelotas, no litoral de Paraná e Rio Grande do Sul. Desde 2023, 50 blocos já foram arrematados por diferentes empresas, incluindo a Petrobras, na contagem do jornal local A Hora do Sul.

Petrobras afirma estar preparada e "resiliente"

Procurada pela DW, a Petrobras afirma ter estruturado sua estratégia para a próxima década de forma a reduzir custos e emissões. "Essa abordagem permite que a companhia continue gerando valor mesmo em cenários de transição energética acelerada, ao mesmo tempo em que avança na transição energética de forma justa, segura e alinhada às necessidades do Brasil", disse a estatal em nota enviada à reportagem.

A empresa alega que seus projetos de exploração e produção apresentam "elevada resiliência a baixos preços de petróleo", e que 60% dos investimentos de manutenção e expansão das operações da companhia previstos para o quinquênio 2026-2030 são "resilientes" a um cenário em que o preço do petróleo brent despencaria para 22 dólares por barril - valor próximo ao atingido no início da pandemia de covid-19. Hoje, o barril está cotado a mais de 60 dólares.

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A Petrobras também afirma planejar investir 13 bilhões de dólares em transição energética até 2030, o que inclui fomento a biocombustíveis e projetos de descarbonização, e cita ter alcançado "40% de redução das emissões operacionais totais e 70% nas de metano em relação a 2025".

Destaca ainda que o petróleo brasileiro "tem uma intensidade de carbono menor do que a média do mundo, e a exploração permanece necessária tanto para atender à demanda nacional quanto para financiar a transição".

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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