Indústria de insumos agrícolas vê recuperação lenta, apesar de juros menores e preços mais altos

Executivos das fabricantes Syngenta, Mosaic, Cibra, Corteva, FMC, Helm e Biotrop descrevem processo desigual que depende de ajustes ainda em curso

29 set 2026 - 15h04
Resumo
Apesar da queda dos juros e da alta nas cotações agrícolas, a indústria de insumos prevê uma recuperação lenta e desafiadora para o agronegócio. Executivos de grandes fabricantes apontam que o alto endividamento do produtor, a escassez de crédito e o aumento nos pedidos de recuperação judicial ainda travam o setor. Com isso, o saneamento financeiro deve levar até 36 meses, exigindo maior controle de custos diante de um cenário de vendas estagnadas e incertezas no mercado.

A queda dos juros e a reação das cotações agrícolas animam o mercado, mas uma parte dele, a indústria de insumos, ainda não enxerga uma recuperação rápida do agronegócio. Executivos das fabricantes de defensivos, fertilizantes e sementes Syngenta, Mosaic, Cibra, Corteva, FMC, Helm e Biotrop descrevem um processo lento, desigual e dependente de um ajuste de balanços que ainda está em curso. Para parte deles, o setor não saiu do momento mais difícil.

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Há quem veja o pior como coisa do passado. "Nosso entendimento é que os juros começaram a cair e devem continuar a cair", afirma André Glezer, co-CEO da Agrolend, instituição financeira especializada em crédito ao agro. "É um ciclo de alta."

Os sinais de melhora existem. A Selic, que fechou 2025 em 15% ao ano, foi reduzida para 13,75% em setembro. No porto de Paranaguá (PR), a saca de soja saiu da casa de R$ 130 no início do ano para R$ 162, segundo a Pátria Agronegócios.

Insumos agrícolas: recuperação mais lenta
Insumos agrícolas: recuperação mais lenta
Foto: Jenne Roriz|Estadão / Estadão

Entre os fabricantes, porém, o tom é mais contido. "Alguns dizem que o Sol começou a nascer novamente. Mas, dentro desse contexto, a gente ainda tem muita coisa para fazer", afirma Eduardo Monteiro, responsável pelas operações da Mosaic Fertilizantes no Brasil e no Paraguai. "Os próximos 12 meses continuarão sendo desafiadores."

Segundo ele, os recursos privados liberados até agora no Plano Safra estão 20% abaixo do volume do mesmo período do ano passado, e só 10% das linhas com juros subsidiados saíram do papel. Monteiro não detalhou a base das comparações. "Falta o dinheiro", diz.

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No mercado de capitais, as emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) recuaram 50,4% no primeiro semestre, para R$ 7,1 bilhões, segundo a Anbima.

André Savino, presidente da Syngenta Proteção de Cultivos no Brasil, diz que a lentidão de recuperação é proporcional ao tamanho da dívida acumulada no campo. Somando bancos, indústria e distribuição, o endividamento do produtor chega a cerca de cinco vezes o lucro da atividade, segundo ele, que não detalhou a base do cálculo.

O agronegócio registrou 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre, alta de 21,9% sobre igual período de 2025, de acordo com a Serasa Experian. "Essa tendência mostra claramente que o sistema está longe de chegar ao fim desse problema", disse Savino. "O mercado vai melhorar, mas vai demorar."

Para ele, a crise nasceu de fatores conjunturais, mas já provoca mudanças permanentes na forma como as empresas administram capital e estoques.

Pedro Dias, chefe de Finanças Estruturadas da Corteva Agriscience, afirma que o saneamento dos balanços do setor leva de 24 a 36 meses, mesmo com juros em queda e preços melhores. Segundo ele, a crise atual difere das anteriores porque o País caminha para o quinto ano seguido de juros restritivos. O estresse atinge primeiro o agricultor, depois a distribuição e, por último, a indústria, que, por esse motivo, teve mais tempo para se proteger.

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Nem por isso as fabricantes escaparam. Fábio Neufeld, chefe de Soluções Financeiras da Syngenta, diz que o desempenho de crédito da companhia, conhecida pelo bom histórico, está hoje "fora de todos os padrões". "A gente está sofrendo também", afirmou.

Na avaliação dele, a escassez de recursos tem mostrado quem se organizou nos anos bons. "Agora que a água baixou, a gente está vendo quem está pelado", diz.

Situação é difícil de explicar a acionistas estrangeiros

O tamanho da mudança ainda divide os executivos. Santiago Franco, CEO da Cibra, diz ter dificuldade para explicar a crise aos acionistas estrangeiros, que só enxergam "safra recorde atrás de safra recorde". "Nós vivemos em um mundo paralelo", disse.

A geopolítica, segundo Franco, torna o planejamento de médio e longo prazo ainda mais difícil. "A gente amanhece à mercê do humor do cara lá fora", diz ele.

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Para Sebastian Lüth, vice-presidente para a América Latina da Helm, a própria expectativa de um novo ciclo favorável é parte do problema, já que juros menores, preços altos e clima bom foram justamente a combinação que antecedeu a crise. "Não tenho certeza de que simplesmente esperar por um novo ciclo mais positivo seja a solução", afirmou, em debate promovido na semana passada pela Agrolend, em São Paulo.

Renato Guimarães, presidente da FMC Brasil, espera um período prolongado de vendas sem crescimento na distribuição. "Vamos ter de viver com faturamentos próximos à estagnação, porém com uma melhora de qualidade e diminuição de custos", diz.

Na visão de Guilherme Carneiro, diretor financeiro da Biotrop, a virada virá, mas sem data marcada. "Estamos num ciclo de inadimplência e retração. O próximo, com certeza, é de recuperação, depois de expansão, e começa tudo de novo", diz. "A pergunta é quanto tempo dura cada ciclo."

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