AUSTIN (TEXAS, EUA) - Neste ano, a futurista Amy Webb decretou o fim de seus famosos Tech Trend Reports lançados anualmente desde 2014 durante o festival South by Southwest (SXSW). No palco, simulou inclusive um velório, com direito a música fúnebre e vídeo com forte apelo emocional. "Estamos aqui reunidos para lembrar e celebrar a vida do trend report", afirmou para um público de aproximadamente 1,5 mil pessoas.
Criando um clima de suspense, rasgou um de seus trend reports, invocando o termo destruição criativa para enfatizar o processo pelo qual novas tecnologias substituem as antigas, reestruturando empresas, modelos de negócios, e a economia.
"A maior ameaça para qualquer organização não é a disrupção vinda de fora, mas a recusa de destruir o que existe internamente." Nesse movimento, Amy Webb resolveu acabar com seus famosos relatórios de tendências, ou na realidade rebatizá-lo de Convergence Outlook, enfatizando que estamos entrando em uma nova fase da revolução tecnológica onde líderes precisam saber o momento certo de destruir seus impérios, para construí-los novamente.
Amy Webb concedeu uma entrevista exclusiva para o Estadão na Casa São Paulo, durante o famoso festival de inovação em Austin, nos Estados Unidos, onde delineia como o Brasil pode aproveitar as oportunidades nesta nova era de convergência. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Este ano, a sra. lançou no SXSW um novo report (ou relatório) afirmando que estamos vivendo em uma nova era de convergência, o que lembra o livro 'Cultura da Convergência', publicado por Henry Jenkins em 2006, que explorava como os meios de comunicação estavam convergindo na era digital. Quais as novidades dessa nova era da convergência?
Não estou familiarizada com este livro; no entanto, sempre existem tendências e incertezas. A diferença agora é que diferentes tecnologias estão maturando ao mesmo tempo. Isso já aconteceu antes, durante a revolução industrial, ou logo após a Segunda Guerra Mundial, quando catalisadores externos fizeram com que várias coisas maturassem ao mesmo tempo, gerando muita incerteza. Essas condições produzem grandes tempestades, essas convergências. Sempre há convergências acontecendo, mas não como a de agora, onde temos uma supertempestade acontecendo de uma só vez. E isso cria condições muito desafiadoras para os negócios, para o governo. Também produz novas culturas, e mudanças na forma como as pessoas se relacionam. Atualmente, estamos vivemos um momento de enormes mudanças.
No relatório que acaba de lançar no SXSW, a sra. menciona que a era da convergência não é definida por tendências isoladas, e sim pela colisão de tecnologias, fluxos de capital, geopolítica, pressões climáticas e mudanças comportamentais em escala. Que papel o Brasil pode desempenhar nesta nova era de convergência?
Tenho uma profunda afinidade com o Brasil. E sempre acho que o Brasil tem diversas oportunidades a explorar nos principais setores econômicos, desde a agricultura, a mineração, até os serviços financeiros. A agricultura é uma das maiores oportunidades para a inteligência artificial. Qual é a única coisa que todas as pessoas no planeta precisam? De comida. Todo mundo precisa comer. E onde está a maior volatilidade? No clima. Porém, os jovens não estão mais tão interessados em trabalhar com agricultura, se compararmos com outras áreas. Portanto, mais uma vez, esta é uma oportunidade perfeita para inovação e criatividade. Há muitas oportunidades, mas existem alguns problemas estruturais no Brasil que atrapalham. E parte disso é a necessidade de sangue novo na política. O Brasil precisa de pessoas mais jovens, com novas ideias e perspectivas, dispostas a se envolver e a concorrer a diferentes cargos.
O Brasil ocupa a segunda posição no uso de biotecnologia na agricultura. Como a sra. prevê a evolução do uso de biotecnologia na agricultura?
Há muitas pesquisas focadas em tornar as colheitas mais resilientes, e isso envolve edição genética. Aqui no SXSW, falei sobre edição de genoma em humanos. Você pode fazer a mesma coisa em vegetais, trigo, e até em animais. Embora algumas pessoas fiquem muito preocupadas com esse tipo de manipulação genética, ela não produz resultados terríveis. O Brasil já começou a fazer investimentos em biotecnologia. Por exemplo, o Brasil poderia manipular seus grãos de café, para adaptá-los a germinar em outros lugares, outros tipos de solo e clima. Acho que há várias oportunidades, e se o Brasil desenvolvesse esse tipo de propriedade intelectual, poderia licenciá-la e criar uma indústria inteiramente nova, que poderia ser vendida a outras empresas e países, gerando novas fontes de receita.
Como o debate em torno da regulamentação e governança da inteligência artificial vai evoluir nos próximos anos? Haveria espaço para equilibrar as assimetrias econômicas e políticas entre os países? Ou as grandes empresas tecnológicas se tornarão ainda mais poderosas?
Depende. Quando, nos Estados Unidos, as pessoas falam sobre os líderes soberanos da IA, elas se referem a Sam Altman (da OpenAI) e Dario Amodei (da Anthropic), que são os CEOs dessas empresas. Mas mesmo estes líderes estão sujeitos a outros soberanos, que nesse caso são os reguladores europeus. A Europa está bastante avançada em termos de regulação e governança da IA. E o Chile foi o primeiro país a regulamentar as interfaces cérebro-computador. Nos Estados Unidos, não temos uma política nacional de regulamentação da IA, e cada Estado estabelece sua própria regulamentação. A Califórnia é extremamente cautelosa. O Texas, nem tanto. Não vejo nenhuma mudança nisso. Pois esse tipo de regulamentação coloca a receita dessas empresas potencialmente em perigo. E acho que haveria uma relutância em fazer isso nos Estados Unidos. Então, não vejo isso mudar no futuro.
A sra. mencionou que o Brasil precisa de líderes políticos mais jovens. Você acha que a governança da IA seria um dos temas na pauta destas lideranças políticas?
Não. Eu acho que o foco são os relacionamentos. Quantos anos tem o Lula? Ele está na casa dos 80, certo? Lula é inteligente. Tenho certeza de que ele tem uma compreensão geral da IA, mas não consigo imaginá-lo sentado em uma sala com os jovens do Vale do Silício, conversando. O que eu adoraria ver são brasileiros mais jovens, e americanos, também, já que temos o mesmo problema… Eu adoraria ver pessoas mais jovens, capazes de ter uma visão a longo prazo, interessadas em questões cívicas e governamentais, dispostas a ingressar no serviço público. Mas isso é difícil, porque nessas carreiras, você não ganha tanto dinheiro, e há muito escrutínio sobre você. As pessoas vão observar tudo o que você está fazendo. Neste momento, temos líderes mundiais que não entendem realmente nada sobre esse tipo de tecnologia. Eles têm assessores políticos que os informam, mas eles não entendem realmente. E, sob o ponto de vista deles, eles são as pessoas mais importantes do mundo. Trump é a pessoa mais importante sob o seu ponto de vista, potencialmente o Lula como presidente do Brasil também é a pessoa mais importante para ele. Mas para os líderes das big techs, eles são os mais importantes. Então, o maior desafio é criar relacionamento, fomentar a conversa. E, nesse contexto, eu acredito que um novo grupo de lideranças políticas jovens, que simplesmente não tenham a bagagem de todos esses anos de mandato, pode trazer uma conversa nova, o que seria ótimo.
Voltando ao relatório sobre a nova era da convergência lançado no SXSW: a sra. também menciona que a geopolítica econômica será liderada pela infraestrutura, onde chips, computação, energia e minerais de terras raras são ativos estratégicos. O Brasil é líder global em energia renovável, com quase 90% da sua eletricidade gerada a partir de fontes renováveis como hídrica, eólica e solar. Possui também a segunda maior reserva de terras raras, com uma reserva estimada em cerca de 21 milhões de toneladas. Há um mês, o Brasil e a Índia assinaram um memorando histórico para cooperar em minerais críticos e terras raras, visando aumentar a resiliência da cadeia de abastecimento e diversificar o domínio chinês. Como a sra. avalia esta parceria entre Brasil e Índia?
Ótima pergunta. O mundo está num processo de reordenação. A Índia tem atualmente a maior população mundial, um PIB sustentável e um mix diversificado de produtos. E o Brasil tem recursos, pessoas muito inteligentes, uma comunidade empresarial forte e uma boa localização geográfica para o comércio. Esta parceria poderá representar um desafio significativo para a China e, de repente, uma concorrência que nunca existiu. Isso é extraordinariamente promissor. Porém, a mineração de terras raras é incrivelmente prejudicial ao meio ambiente, e causa um escoamento extremamente poluente, e isso é um desafio. Portanto, agora o Brasil tem uma oportunidade de inovar, de desenvolver métodos mais sustentáveis para a mineração de terras raras. A oportunidade é enorme e seria fascinante ver esta parceria aos poucos, ou talvez rapidamente, desbancar o domínio que a China teve durante tanto tempo.
A América Latina é uma região onde existe muita influência das tecnologias tanto dos Estados Unidos quanto da China. Como a sra. vê o papel geopolítico dessa região diante dessa tensão geopolítica entre Estados Unidos e China?
A América Latina depende de empresas chinesas como a Huawei para a sua infraestrutura de conexão. E isso continuará a ser um problema. Novas parcerias estão se formando, e a China tem dominado não apenas a América Latina, mas também a África. Como no continente africano, alguns países da América Latina fazem parte da política 'Um Cinturão, Uma Rota', onde a China investe em infraestruturas, estradas, pontes, telecomunicações, utilizando empresas para ajudar. Existe uma espécie de programa de reembolso dos empréstimos, o que até agora a maioria dos países não foi capaz de pagar. Portanto, essa dependência cria um problema a longo prazo.
Muitos especialistas acreditam que estejamos caminhando para uma bolha de IA semelhante à do ponto.com no início dos anos 2000; e outros, que estejamos caminhando para um inverno da IA como o das décadas de 1970 e 1980, considerando os altos investimentos e as incertezas quanto aos custos e ao retorno do capital investido. A sra. concorda com essas previsões?
Em termos de estarmos caminhando para um inverno da IA, como aconteceu nos anos 1980, isso foi causado por outra conjuntura. Naquela época, o financiamento para a IA era majoritariamente liderado pelo governo, e o inverno da IA foi precipitado pela saída de investimentos do governo britânico. E não vamos esquecer de que estávamos no auge da Guerra Fria, e foram feitas algumas promessas ao governo dos EUA de tecnologia para a tradução simultânea do inglês para o russo, e do russo para o inglês. Na época, não havia muitos estudos de caso para a IA, estávamos no início. Assim, não vejo um inverno de IA acontecendo agora, porque existem muitas aplicações para a IA atualmente. O que me preocupa é se a comunidade de investidores terá paciência. Custa caro investir nesse tipo de pesquisa, refinar os dados, construir data centers. Há muitos custos de infraestrutura, e os investidores normalmente não gostam de investir em infraestrutura porque querem algo que dê lucro. A certa altura, os investidores vão querer o retorno, e esse retorno não virá por um tempo. Dito isso, há tanto capital investido em IA hoje em dia, que todos nós precisamos que essas tecnologias tenham sucesso, caso contrário teremos outro colapso financeiro como o de 2008. E por isso espero que os investidores tenham paciência, e que essas empresas parem de contrair dívidas desnecessárias.
Inteligência artificial é um termo abrangente cunhado pela primeira vez em 1956 com diversos subcampos como robótica, aprendizado de máquina, processamento de linguagem natural, para citar alguns. Embora as tecnologias de IA tenham sido utilizadas durante décadas, o surgimento da IA generativa popularizou o termo e, para a população em geral, IA é agora IA generativa. Por outro lado, alguns termos que usávamos há alguns anos, como algoritmos, aprendizado de máquina, internet das coisas, têm sido cada vez menos usados. A sra. acha problemático esse movimento reducionista em torno do termo IA?
É problemático pelo que representa. As pessoas estão usando ferramentas sem entender como funcionam, mas também sem desenvolver as habilidades de que precisam primeiro. Posso fazer uma analogia. Minha filha é escoteira. Parte de se tornar uma escoteira é aprender a interpretar um mapa físico. Você tem de aprender a se orientar. Você tem de aprender a medir. Se você aprender a fazer todas essas coisas, isso exigirá raciocínio, experiência e uso do seu corpo. Se o GPS parar de funcionar, todos os satélites morrerem, minha filha ficará bem. Ela será capaz de chegar a qualquer lugar que precisar. Não conheço muitas pessoas de quem eu possa dizer isso, sejam eles adultos ou adolescentes. E este é o ponto com a IA. Estamos falando de IA agora como um termo genérico para tudo. E o problema é que, quanto mais as pessoas se tornarem dependentes dessas ferramentas, menos desenvolverão essas competências importantes de que necessitam, como seres humanos. E tudo bem até que algo dê errado. Como recentemente, quando os servidores da AWS caíram, eu vi várias postagens dizendo: 'Estou no meio do meu trabalho. Não consigo terminar', ou 'Não sei o que fazer'. Minha filha, de certa forma, é uma representante do que eu esperava que mais pessoas fossem. Na minha casa temos robôs, ela tem acesso antecipado a várias tecnologias, mas ela também tem habilidades para sustentar tudo isso. E acho que isso é algo importante a se pensar daqui para frente.