Quanto mais tempo durar a guerra no Irã, pior será para a economia global, especialmente para as nações mais pobres, alertam especialistas. No Brasil, setor do agronegócio poderá ser o mais afetado pela crise.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, consegue influenciar as bolsas e os mercados de energia com simples mensagens de texto em sua rede social Truth Social.

Conflito no Irã ameaça desestabilizar os preços em todo o mundo
Conflito no Irã ameaça desestabilizar os preços em todo o mundo
Foto: DW / Deutsche Welle

Os mercados de ações reagiram positivamente após a declaração de Trump na segunda-feira (23/03) de que os EUA estariam travando negociações com o Irã e que a Casa Branca adiaria por cinco dias sua ameaça de destruir as usinas de energia iranianas. O preço do petróleo chegou a cair brevemente abaixo de 100 dólares por barril (R$ 523).

Publicidade

No final da semana passada, em contraste, Trump havia provocado uma forte alta nos preços do petróleo após anunciar que atacaria as usinas de energia do Irã se o regime não reabrisse o Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico.

Aumento de preços em toda a cadeia produtiva

Em comparação com o mês passado, não apenas o petróleo bruto e o gás natural estão sofrendo aumentos rápidos de preços, mas um total de 15 grupos de commodities, conforme relatou pelo jornal alemão de economia Handelsblatt após uma análise de dados.

De acordo com a reportagem, produtos químicos básicos, fertilizantes, plásticos, gases nobres e alguns metais ficaram mais caros entre 10% e 50%. "Os aumentos de preços serão sentidos em toda a cadeia produtiva industrial", afirmou Matthias Zachert, CEO da empresa química Lanxess.

Publicidade

Fertilizantes básicos como enxofre, amônia e ureia são produzidos em grandes quantidades na região do Golfo. A previsão de escassez está elevando os preços no mercado mundial. A Qatar Energy, por exemplo, interrompeu a produção de ureia. Fábricas de fertilizantes na Índia, Paquistão e no Brasil vêm tendo que reduzir sua produção. A ureia já está em falta no mercado atacadista dos EUA.

Escassez iminente de hélio

O mesmo se aplica ao gás hélio, sendo que 40% da produção mundial desse gás, necessário para a fabricação de semicondutores, é gerada a partir do gás natural do Golfo Pérsico. Se houver uma escassez, a produção de chips na Ásia será paralisada.

"O hélio é um problema real", disse Julian Hinz, especialista em comércio do Instituto de Economia Mundial de Kiel. "Se a situação se prolongar, se tornar problemática. Mas o que significa 'prolongar'?" O especialista acredita que não há escassez física de matérias-primas no momento, ainda não. Mas a mera expectativa de escassez já provoca aumento de preços, explicou o economista: "Há incerteza sobre o que pode acontecer. O que de fato aconteceu não é tão crucial." Os pronunciamentos erráticos da Casa Branca não são particularmente úteis nesse sentido.

Impacto na Alemanha

Hinz ainda não prevê um problema real para o comércio alemão, uma vez que 90% do volume comercial do país é destinado para a União Europeia (UE). O comércio com a região do Golfo é relativamente baixo.

Publicidade

No entanto, os preços dos alimentos na Alemanha também podem subir devido ao aumento dos custos de transporte e dos preços dos fertilizantes, como alertaram a deputada Esra Limbacher, do Partido Social-Democrata (SPD), e o presidente da Associação Alemã de Agricultores, Joachim Rukwied.

Numerosos setores preveem aumentos de custos e, potencialmente, preços mais altos para os consumidores. Isso, por sua vez, poderá levar a um aumento da taxa de inflação - atualmente baixa - e desacelerar o já modesto crescimento econômico.

Países mais pobres dependem de importações de energia

Os efeitos da guerra contra o Irã já são sentidos na África, segundo a organização de ajuda humanitária Pão para o Mundo. Os preços dos fertilizantes nitrogenados artificiais subiram drasticamente; situação semelhante à ocorrida após o início da invasão russa da Ucrânia em 2022. Naquela época, as entregas de fertilizantes ucranianos foram interrompidas por vários meses. Sem uma quantidade suficiente desses produtos, as colheitas e a segurança alimentar em alguns países africanos ficarão comprometidas, temem os especialistas da ONG, que preferem permanecer anônimos.

Embora alguns países africanos possuam reservas de petróleo e gás natural, eles são severamente afetados pelo aumento dos preços dos derivados de petróleo. Isso ocorre porque a gasolina, o diesel e o querosene muitas vezes precisam ser comprados no mercado global devido à falta de refinarias na África.

Publicidade

Os países que subsidiam a gasolina precisam aumentar significativamente seus gastos governamentais para compensar o aumento dos preços. Isso, segundo os especialistas da Pão para o Mundo, leva ao crescimento da dívida pública e da inflação.

Senegal, Benin, Eritreia, Burkina Faso e Zâmbia serão provavelmente os mais afetados pela atual crise energética, de acordo com a organização.

Agência de Energia prevê " crise dupla do petróleo"

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, lançou um alerta em tom dramático sobre uma "grande ameaça" à economia global. Nenhum país, seja na África, Ásia ou Europa, escapará dos efeitos da crise se ela continuar a se desenvolver nessa direção. O cenário, segundo Birol, é pior do que a soma das duas crises do petróleo da década de 1970.

Como os próprios EUA também estão sendo afetados por um enorme aumento no preço dos combustíveis para a população e para o setor de entregas, é possível que o fim às hostilidades esteja próximo, especulam funcionários da AIE que preferem permanecer anônimos. A agência é uma organização intergovernamental composta por 32 nações industrializadas desenvolvidas do Hemisfério Norte.

Publicidade

Passagens aéreas e marítimas mais caras

A interrupção dos principais centros de tráfego aéreo em Dubai e Doha é um problema para muitas companhias aéreas internacionais. Os horários de voos de passageiros e de carga foram reduzidos. Conexões diretas da Europa para a Ásia, sem escalas no Golfo, estão agora em maior demanda e, consequentemente, estão ficando mais caras, explicou um porta-voz da companhia aérea Lufthansa.

O aumento dos preços dos combustíveis pode elevar os preços das passagens aéreas em todo o mundo a longo prazo. Cerca de 2 mil navios estão atualmente parados no Golfo Pérsico. As cadeias de suprimentos estão interrompidas. Os prêmios de seguro para transporte marítimo estão aumentando.

Governo alemão descarta crise de abastecimento

A ministra alemã da Economia, Katherina Reiche, enxerga atualmente uma crise de preços, mas não de abastecimento. Petróleo e gás natural estão disponíveis em quantidades suficientes, embora estejam ficando mais caros.

Os aumentos de preços em outros setores estão sendo monitorados, disse um porta-voz da ministra à DW. No entanto, nenhuma medida concreta foi decidida ainda para lidar com a potencial inflação. Julian Hinz, do Instituto de Economia Mundial de Kiel, desaconselha descontos de preços subsidiados pelo Estado. Estes são caros para o país e, em última análise, teriam que ser financiados por todos os contribuintes de qualquer maneira. "Não podemos fingir que nada aconteceu. Brincar com os preços é muito perigoso."

Publicidade

No Brasil, preocupação com o agronegócio

Embora o Brasil não esteja entre os países mais prejudicados pela guerra Irã, alguns setores da economia, como o agronegócio, se veem em situação vulnerável.

O Oriente Médio é um mercado importante para a exportação de produtos brasileiros como soja, milho, carne bovina, frango e açúcar, sendo que o próprio Irã importa grãos e derivados do Brasil.

O Brasil depende fortemente da importação de fertilizantes e insumos agrícolas, sendo que os países do Oriente Médio estão entre os principais fornecedores de fertilizantes nitrogenados como a ureia.

A guerra no Irã tem potencial de encarecer significativamente esses insumos, especialmente no caso de um prolongamento do conflito. Dos 7,1 bilhões de dólares em produtos que o Brasil importou do Oriente Médio em 2025, 2,2 bilhões de dólares eram de fertilizantes, o que representa mais de 14% das importações brasileiras desse tipo de produto.

Publicidade

Além disso, analistas também alertam para o fato de os países produtores de fertilizantes estarem suspendendo as exportações para proteger o mercado interno, como fizeram recentemente China e Rússia; sendo que esta última fornece 25% dos adubos químicos importados pelo Brasil.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se