Galípolo: Temos de debater por que o Brasil precisa de juro tão alto para perseguir meta de inflação

Segundo o presidente do BC, a palavra-chave da política monetária brasileira no momento atual é 'calibragem'

11 fev 2026 - 10h32
(atualizado às 10h56)

BRASÍLIA - O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, defendeu nesta quarta-feira, 11, que a meta de inflação de 3% no Brasil está em linha com a de seus pares no mundo. Ponderou, no entanto, que é necessário debater melhor a razão pela qual o País precisa de juros tão elevados para perseguir essa meta.

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"O que eu acho que realmente precisa ser melhor debatido com a sociedade é por que o Brasil precisa sustentar taxas de juros, comparativamente aos seus pares, mais elevadas, para, com muito esforço, conseguir fazer uma convergência maior para a meta. Eu acho que esse é o tema", disse. Ele participou da CEO Conference Brasil 2026, organizada pelo BTG Pactual em São Paulo.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

Galípolo também voltou a afirmar que a palavra-chave da política monetária no momento atual é "calibragem". "A partir de janeiro, decidimos sinalizar que se antevê, em se confirmando o cenário, um início dessa calibragem, desse ajuste. Eu volto aqui a enfatizar que a palavra-chave é essa: calibragem. Esse ajuste da política monetária a partir de março é justamente para podermos reunir mais confiança para iniciar esse ciclo", disse.

Ele ressaltou que, dado o tamanho da incerteza nas projeções no momento atual, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou por ser mais conservador e "esperar 45 dias para indicar o ciclo com maior confiança".

O presidente do BC ponderou que o mandato da autoridade monetária não é reduzir incerteza, mas disse ser saudável que o Banco Central colabore para ser uma fonte que diminua a incerteza do mercado. Pontuou que o comitê está olhando para diversas variáveis e não apenas uma informação específica.

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Galípolo também detalhou que, além da incerteza advinda do cenário geopolítico internacional e das mudanças na política econômica dos Estados Unidos, o próprio ano de eleição no Brasil é fonte de incerteza. Outra fonte, disse, é o comportamento das variáveis econômicas.

O executivo ressaltou também que suas falas recentes não têm como intenção corrigir a interpretação do mercado sobre a condução da política monetária. "Eu acho que o mercado vem consolidando uma interpretação do que tem sido a comunicação oficial do Banco Central e não há qualquer intenção aqui na minha fala de fazer qualquer tipo de reparo sobre como a gente tem se comunicado e como tem sido interpretado", disse. "Se alguém entender algo como uma correção na comunicação, fui eu que me expressei mal ou alguém acabou entendendo mal o que eu quis dizer."

Caso Master e aplausos

No evento, Galípolo foi aplaudido depois de agradecer às instituições do mercado pelo apoio à autarquia em dois momentos do ano passado: a liquidação do Banco Master, cujas repercussões se estendem até agora, e os incidentes de segurança que atingiram instituições do Sistema Financeiro Nacional (SFN).

"Eu preciso agradecer a todo mundo que está nessa sala e às instituições que ficaram ao lado do BC", disse o executivo no início da fala que levou a uma rodada de aplausos. "Eu não posso exagerar a importância do apoio que a gente tem recebido do mercado nesses dois casos, da opinião pública e do jornalismo profissional."

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A autoridade monetária foi alvo de uma série de pressões após a liquidação do Banco Master, em 18 de novembro de 2025. O principal momento foi a abertura de um processo para investigar o caso pelo ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de Jesus, que chegou a aventar a possibilidade de adotar medidas cautelares contra a autarquia.

Durante esse processo, entidades representativas do mercado financeiro lançaram uma série de manifestações públicas em apoio ao BC. Em um dos casos, 11 dessas entidades, incluindo a Confederação Nacional das Indústrias Financeiras (Fin), a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e a Zetta manifestaram ter "plena confiança" na autoridade monetária.

Galípolo reforçou ainda que o apoio das instituições foi relevante para que o BC pudesse dosar o aperto regulatório que seria feito após os incidentes de segurança que atingiram instituições do SFN no meio do ano passado. O mais famoso deles foi o desvio de mais de R$ 800 milhões da CM Software. Ele alertou que em todos os casos tem de haver um esforço regulatório contínuo.

"Queria dizer para vocês que não vai voltar a acontecer uma liquidação de banco ou que não pode voltar a acontecer um incidente, mas isso é meio doping e antidoping, polícia e ladrão: você fecha uma porta, ele vai tentar um outro caminho. O que a gente precisa é estar aprimorando e melhorando para que não voltem a ocorrer os mesmos erros", disse.

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Ele reiterou que o BC fez uma série de alterações nas regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para impor limites, e disse que esse processo de melhorias continua.

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