Fed deve manter juros devido à guerra e preferir 'esperar para ver' em possível último ato de Powell

Comportamento do BC dos EUA tende a ser 'linha-dura' antes da troca de bastão no comando da autoridade, com chegada do indicado de Trump, Kevin Warsh

29 abr 2026 - 10h06

NOVA YORK - Apesar de ter cogitado elevar os juros neste mês, o Federal Reserve (Fed) deve manter as taxas inalteradas novamente na reunião de política monetária de dois dias que termina nesta quarta-feira, 29. Diante do risco de alta da inflação por causa da guerra com o Irã, que caminha para o terceiro mês, o comportamento do banco central mais vigiado do mundo tende a ser "hawkish" (linha-dura) antes da troca de bastão no comando da autoridade, com a chegada do indicado do presidente Donald Trump, Kevin Warsh.

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Assim, os juros nos Estados Unidos devem permanecer estáveis na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano pela terceira vez consecutiva. A guerra que opõe Estados Unidos e Israel contra o Irã fez com que Wall Street postergasse suas expectativas de retomada de queda das taxas para 2027, com uma casa ou outra ainda vendo brecha para algum movimento de flexibilização monetária neste ano.

Sem chances de surpresas, o foco de Wall Street deve se voltar para a comunicação e postura do presidente do Fed, Jerome Powell, neste que pode ser seu grande último ato antes de passar a cadeira para Warsh. A expectativa predominante é de que ele prefira o modo "esperar para ver", com um discurso "hawkish", diante das tensões geopolíticas e sinais de recuperação do mercado de trabalho nos EUA.

"A grande questão é se a linguagem do forward guidance na declaração indicará que os riscos para a política são de duas vias. Achamos que não, mas é uma decisão apertada", diz o economista do Bank of America para os EUA, Aditya Bhave. Segundo ele, a perspectiva da inflação nos EUA continua tão "incerta" quanto na reunião de março, a primeira desde o início da guerra, em 28 de fevereiro. No fim de semana, houve nova expectativa frustrada de negociações para encerrar o conflito. Apesar do fracasso em meio a um cessar-fogo frágil, com ataques entre Israel e o Líbano, o presidente Trump voltou a afirmar que a guerra terminará em breve, após sofrer novo atentado durante um jantar com jornalistas no último sábado.

"Embora as ações americanas estejam sendo negociadas como se a guerra com o Irã tivesse terminado, a gasolina segue acima de US$ 4,00 o galão e o tráfego pelo Estreito de Ormuz ainda está altamente interrompido", observa Bhave.

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Diante deste quadro, casas como o próprio Bank of America e o Goldman Sachs esperam apenas um dissidente no encontro do Comitê Federal do Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) desta semana: o diretor Stephen Miran, que deve votar a favor de um corte de 25 pontos-base (0,25 ponto porcentual). Em discurso neste mês, ele afirmou que não há uma razão convincente para adiar os cortes de juros nos EUA e que talvez haja três cortes de juros até o fim do ano — sendo quatro uma visão otimista.

Mas, na prática, a cada dia que o conflito no Oriente Médio se estende, Wall Street precifica chances cada vez menores de uma retomada do corte de juros ainda neste ano. O britânico Barclays espera ainda uma redução na reunião de setembro, seguida por outra em março de 2027. O holandês ING prevê dois cortes, um em setembro e outro em dezembro.

Por sua vez, a Oxford Economics avalia como "mais provável" adiar os cortes de juros previstos em seu cenário base, atualmente em junho e setembro, para o futuro. "Comentários públicos de membros do Fomc também apontam para a política monetária sendo mantida estável por mais tempo", justifica a economista-chefe da consultoria para os EUA, Nancy Vanden Houten.

Para o diretor de macroeconomia do ASA, Fabio Kanczuk, a reunião do Fomc desta semana deve não só cravar nova manutenção nas taxas de juros, mas também enterrar de vez as expectativas de um corte de juros no país ainda neste ano. "Chega, acabou, não veremos cortes de juros pelo Fed neste ano. As casas têm de abandonar essa expectativa", diz o ex-diretor do BC brasileiro, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

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Na contramão, o chefe de economia do Macquarie Group, David Doyle, espera que o próximo movimento de política monetária nos EUA provavelmente será um aumento, com o momento mais provável no primeiro semestre de 2027.

Último ato de Powell

A entrevista à imprensa com Powell para justificar nova manutenção das taxas no país deve ser sua última como presidente do Fed, cujo mandato termina em 15 de maio. Para operadores em Wall Street, seu tom deve soar hawkish, dado os riscos de alta para a inflação por conta da guerra, um mercado de trabalho resiliente nos EUA e as atuais condições financeiras.

O radar do mercado estará voltado a saber se ele está aberto a aumentos de juros, prevê Bhave, do Bank of America. "Em termos de perspectivas para a política monetária, é improvável que obtenhamos algo particularmente revelador", admite o economista chefe internacional do ING, James Knightley, em nota a clientes.

Na prática, as sinalizações para a política monetária podem ter importância reduzida com a mudança no comando do Fed batendo à porta. Após a sabatina de Kevin Warsh no Senado dos EUA, na semana passada, ele espera que sua nomeação avance. Alguns nós foram desatados desde então. O Departamento de Justiça americano informou, na última sexta-feira, que encerraria a investigação criminal contra Powell, e passou a bola para o Escritório do inspetor-geral (IG), órgão de fiscalização interna do Fed.

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Diante disso, o senador republicano Thom Tillis, da Carolina do Norte, cujo voto ameaçava travar a indicação do sucessor de Powell, retirou a oposição no domingo, e prometeu apoiar o indicado de Trump. Assim, o caminho ficou livre para que o Senado dos EUA confirme Warsh na presidência do Fed antes de o mandato de Powell expirar. Resta saber se ele abrirá mão de sua cadeira no Fomc, cargo que pode ocupar até janeiro de 2028, uma pergunta óbvia para Powell responder a jornalistas — e cuja resposta é bastante aguardada pelo mercado.

O Fed anuncia sua decisão de política monetária nesta quarta-feira, às 15h (de Brasília). Na sequência, Powell é sabatinado por jornalistas na tradicional coletiva de imprensa, provavelmente sua última, que ocorre na sede da autoridade, em Washington, 30 minutos depois.

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