Fed abre novo capítulo em meio a cenário de política monetária incerto para Warsh, Trump e EUA

18 mai 2026 - 12h01

Após oito anos de atritos com a Casa Branca, uma pandemia global e uma batalha contra ‌a inflação elevada, o Federal Reserve dos EUA dará início a uma nova era, com o ex-diretor Kevin Warsh assumindo em breve o comando da instituição.

Também será uma nova era para o presidente Donald Trump. Em breve, ele não terá mais Jerome Powell, o atual presidente do Fed, como seu saco de pancadas favorito, embora Powell permaneça na diretoria do Fed. Warsh, escolhido por Trump para a presidência do Fed, presumivelmente marcará um novo começo nas relações entre a Casa Branca e o banco central.

Publicidade

Em 2016, Powell tinha assumido seu primeiro mandato há apenas poucos meses quando Trump começou a repreendê-lo, irritado com os aumentos das taxas de ⁠juros do Fed. Agora, Trump quer cortes de juros, e Warsh também pode decepcioná-lo devido ao risco de inflação mais alta e à perspectiva "hawkish" (favorável a juros mais altos) ‌de outras autoridades do Fed.

Neste momento, os investidores preveem que Warsh terá que aumentar as taxas já em janeiro.

Esta é o cenário no início do mandato de Warsh no Fed:

INFLAÇÃO

Publicidade

Trump prometeu que os preços cairiam desde o início de sua presidência, mas os índices de inflação mostram que isso não aconteceu. Entre o impacto ‌persistente das tarifas de importação, o aumento dos preços do petróleo durante a guerra EUA-Israel contra o ‌Irã e a continuidade de fortes investimentos e gastos, Warsh assume o cargo em um momento em que a inflação está se movendo ainda mais ⁠acima da meta de 2% do Fed. Vários diretores do Fed expressaram preocupação com o aumento das pressões sobre os preços.

Nos anos de Powell, a inflação média foi maior do que a de seus antecessores. Mas recentemente, uma "desinflação" ainda em desenvolvimento, ou desaceleração do ritmo da inflação, reverteu o curso após os choques gêmeos de tarifas mais altas e aumento dos custos de energia.

DESEMPREGO

Além do controle da inflação, a missão do Fed é usar a política monetária para manter o emprego forte. Por vezes os dois objetivos entram em conflito. O aumento dos preços pode exigir que o Fed torne a política monetária mais rígida e coloque em risco ‌o crescimento do emprego, ou o desemprego elevado pode exigir juros mais baixos, o que corre o risco de superaquecer a economia. O Fed está tentando determinar se ‌este é um desses momentos de tensão.

No entanto, até ⁠agora, embora a inflação precise diminuir, a taxa ⁠de desemprego tem se mantido estável e, pelos padrões históricos, bastante baixa, em 4,3%.

Publicidade

Os defensores dos cortes de juros argumentaram que o mercado de trabalho está mais fraco do ⁠que parece, com riscos reais de um rápido aumento do desemprego. Porém, ultimamente, os formuladores de política ‌monetária têm se mostrado mais preocupados com o ‌aumento dos preços.

BALANÇO PATRIMONIAL

O conjunto de ativos e passivos do Fed é uma entidade econômica peculiar. Ele inclui as reservas de ouro do país e todos os dólares norte-americanos físicos mantidos em bancos ou enfiados em colchões. No entanto, a maior parte de seus atuais US$6,7 trilhões em ativos e passivos compensatórios está na forma de títulos do Treasury dos EUA e títulos lastreados em hipotecas que têm uma dupla finalidade.

Os grandes saldos representam, na prática, ⁠o dinheiro do Fed injetado na economia em troca de títulos do Treasury ou hipotecários. Eles foram acumulados para ajudar a economia dos EUA a enfrentar crises como a pandemia da Covid-19 e estão sendo mantidos como parte do conjunto de ferramentas do Fed para gerenciar as taxas de juros de curto prazo.

Espera-se que Warsh explore várias mudanças regulatórias e de política monetária para reduzir o grande balanço patrimonial. Isso pode levar a uma discussão prolongada com progresso limitado no curto prazo. Warsh expressou confiança em sua capacidade de engendrar uma ampla "mudança de regime", e os observadores ‌do Fed podem considerar o tamanho do balanço patrimonial como um indicador de sua eficácia.

Publicidade

O sucesso será influenciado por fatores como o cronograma de emissão de dívida do Treasury dos EUA ou a reação dos investidores internacionais a qualquer mudança feita por Warsh para reduzir o balanço patrimonial. As taxas de juros ⁠de longo prazo sobre a dívida do governo dos EUA, um fator que influencia o que os consumidores pagam por hipotecas de casas e outros empréstimos, já estão subindo, e um balanço patrimonial menor do Fed poderia aumentar ainda mais a pressão de alta.

TAXAS DE JUROS: PARA CIMA, PARA BAIXO OU PARA OS LADOS?

O Fed tem mantido as taxas de juros em suspenso desde dezembro, e as autoridades monetárias, em geral, acham que a taxa atual de 3,5% a 3,75% está adequada. Ela é considerada ainda um pouco "restritiva", o que significa que pressiona a inflação para baixo e reduz a demanda geral, mas não tanto a ponto de arriscar um salto acentuado no desemprego. Os formuladores de política monetária também acham que a taxa atual poderá ser cortada rapidamente, se necessário, para um nível que manteria o mercado de trabalho estável.

Alguns dos pares de Warsh já estão preocupados com a inflação alta e querem usar a comunicação do Fed para sinalizar que aumentos de juros, e não cortes, podem estar próximos.

Essa decisão seria um desafio imediato para Warsh, apresentando a Trump uma mudança de linguagem, em direção a um tom mais duro, logo na primeira reunião de Warsh, em junho.

Publicidade

Mas o debate que se aproxima sob o comando do novo líder do Fed será amplo e pode levar algum tempo para ser resolvido, abrangendo aspectos como o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho e na produtividade, e a evolução contínua de uma força de trabalho limitada pelo envelhecimento da população e pelos níveis de imigração que despencaram sob Trump.

Reuters - Esta publicação inclusive informação e dados são de propriedade intelectual de Reuters. Fica expresamente proibido seu uso ou de seu nome sem a prévia autorização de Reuters. Todos os direitos reservados.
TAGS
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações