A escassez de mão de obra no campo tem levado produtores a frear investimentos, acelerar a mecanização e trocar culturas intensivas, como frutas, por grãos, aponta a CNA. O déficit decorre da redução populacional rural e da migração para agroindústrias. Somada à carência de trabalhadores, a precariedade da infraestrutura e os altos custos logísticos seguem limitando a competitividade do agronegócio nacional.
A dificuldade para contratar trabalhadores no campo já interfere na decisão sobre o que produzir, leva à mecanização e faz produtores reduzirem planos de expansão, afirmou nesta terça-feira, 25, o diretor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno Lucchi. Segundo ele, há casos de produtores que deixam atividades intensivas em mão de obra, como fruticultura e horticultura, e migram para grãos, cuja produção é mais mecanizada.
"Há uma escassez nítida no setor agropecuário", disse Lucchi em coletiva de imprensa durante o "Fórum CNA 2026 - Agenda Brasil: Crescimento, Emprego e Competitividade", em São Paulo, evento realizado em parceria com o Estadão e com curadoria da Broadcast. A avaliação faz parte de estudo apresentado pela entidade, que, segundo o diretor, ouviu mais de 2 mil produtores e analisou dados disponíveis sobre emprego.
Lucchi contestou a interpretação de que a mecanização seja necessariamente a causa da redução do número de trabalhadores dentro das propriedades. Segundo ele, em parte dos casos, ocorre o contrário. "Muitos dizem que é por causa da mecanização e, na verdade, a mecanização é uma consequência. Pela falta de mão de obra, por não ter pessoas, o produtor é obrigado a investir em mecanização", afirmou.
A escassez também começa a alterar a composição da produção. Lucchi citou como exemplo propriedades dedicadas a frutas e hortaliças, atividades que demandam mais trabalhadores e nas quais nem todas as tarefas podem ser substituídas por máquinas. Diante da dificuldade de contratação, segundo ele, há produtores migrando para grãos, que exigem contingente menor de trabalhadores.
O efeito não se limita à troca de culturas. "Muitos têm reduzido planos de expansão, poderiam estar aumentando a produtividade, mas, por faltar mão de obra, eles estão segurando aquele aumento da produtividade", afirmou.
Para dimensionar a dificuldade, Lucchi disse que um indicador considerado no estudo aponta desemprego de 5%, porcentual que chegaria a 15% ao incorporar pessoas que, segundo ele, não querem trabalhar ou trabalham ocasionalmente. No Nordeste, citou uma passagem de 8% para 24,4% nessa comparação. "Então, causa uma dificuldade muito grande que você possa contratar alguém para estar no meio rural", disse. O diretor não detalhou, na coletiva, a metodologia desses indicadores.
Entre os fatores relacionados à menor disponibilidade de trabalhadores no campo, Lucchi mencionou a redução da população rural, o aumento da escolaridade e a migração para outras ocupações. Segundo ele, isso não significa necessariamente redução do emprego no agronegócio como um todo. Parte da mão de obra deixa a produção primária e passa a trabalhar em segmentos como agroindústria, indústria de insumos e distribuição. O agronegócio reúne atualmente cerca de 28 milhões de trabalhadores, conforme os números citados pelo diretor.
Além da mão de obra, Lucchi apontou infraestrutura e logística entre os problemas estruturais que reduzem a competitividade do setor. Na avaliação dele, a situação das contas públicas restringe a capacidade de investimento em rodovias, ferrovias e hidrovias necessárias ao escoamento da produção. "Não tendo investimento, eu não consigo resolver os problemas de escoamento da produção, rodoviário, ferroviário, hidroviário", afirmou. "Hoje, o Brasil tem um dos custos logísticos mais altos do mundo, diminui a nossa competitividade."