BRASÍLIA - A instabilidade nos sistemas de informática mantidos pela Dataprev provocou um impacto financeiro potencial de aproximadamente R$ 233,2 milhões de dezembro de 2024 a fevereiro de 2026, de acordo com nota técnica do INSS, o Instituto Nacional do Seguro Social.
Procurada, a Dataprev informou não ter tido acesso à nota técnica, disse desconhecer a metodologia e critérios usados para estimar o valor apontado e contestou os apontamentos (veja mais abaixo).
O documento, de 17 de março, analisou o efeito desses incidentes sobre a capacidade produtiva das Centrais de Análise de Benefícios (Ceabs), que processam demandas relacionadas a benefícios indenizatórios, assistenciais e previdenciários.
A análise abrangeu o período de dezembro de 2024 a fevereiro de 2026, quando a fila do INSS alcançou 3,1 milhões de pedidos.
O aumento da fila foi um dos motivos usados para justificar a demissão de Gilberto Waller Junior da presidência do INSS.
Os responsáveis pela nota analisaram registros de produção do INSS e abatimentos de metas por causa de incidentes no Sistema de Gerenciamento da Produtividade, mantido pela Dataprev.
Os abatimentos são um mecanismo administrativo adotado para registrar situações em que falhas, indisponibilidades ou instabilidades de desempenho dos sistemas corporativos impedem ou limitam a execução regular das atividades submetidas ao regime de metas de produtividade no âmbito das Ceabs, segundo a nota técnica.
O documento afirma que, no período analisado, o número de servidores que atuavam nas Ceabs se manteve relativamente estável, passando de 7.543 profissionais no início de 2025 a 7.045 profissionais em fevereiro de 2026.
No período, a produção bruta total registrada pelas Ceabs foi de 11.260.410 pontos de produtividade. No mesmo período, foram registrados 1.769.739 pontos de abatimentos sistêmicos, provocados por indisponibilidades ou instabilidades tecnológicas que impediram a análise de benefícios.
Com isso, a produção líquida das Ceabs no período foi de 9.490.671 pontos de produtividade.
"Isso significa que aproximadamente 15,72% da capacidade produtiva potencial das Ceabs foi impactada por eventos sistêmicos registrados no período analisado", indica a nota.
Os analistas afirmaram que, ao converter os abatimentos de metas em equivalência financeira, considerando a remuneração média dos servidores dos cargos de Técnico e Analista do Seguro Social que atuam nas Ceabs, "estima-se que os incidentes sistêmicos analisados geraram impacto financeiro potencial de aproximadamente R$ 233,2 milhões no período analisado".
O montante, continua a nota, representa o valor estimado de remuneração paga a servidores que permaneceram à disposição da Administração Pública, mas que tiveram sua capacidade produtiva significativamente limitada por causa das indisponibilidades sistêmicas.
Os técnicos lembram que o INSS mantém contrato de prestação de serviços tecnológicos com a Dataprev para desenvolvimento, manutenção e operação dos sistemas usados em suas atividades.
"Nesse contexto, a ocorrência recorrente de eventos sistêmicos capazes de reduzir significativamente a capacidade produtiva institucional levanta questionamentos relevantes quanto ao nível efetivo de disponibilidade e estabilidade dos serviços tecnológicos prestados", indicam os analistas.
Na conclusão, os analistas defendem o fortalecimento das práticas de governança tecnológica, do monitoramento sistemático de incidentes e do aprimoramento contínuo da infraestrutura tecnológica que sustenta os sistemas do INSS.
Também afirmam que é preciso aprofundar a análise da relação entre desempenho sistêmico, capacidade operacional e cumprimento das obrigações contratuais associadas à prestação de serviços pela Dataprev, "de modo a mitigar riscos operacionais, aumentar a eficiência administrativa e assegurar maior efetividade às políticas públicas previdenciárias e assistenciais executadas pelo INSS".
Em nota, a Dataprev disse não ter tido acesso à nota técnica do INSS e afirmou desconhecer a metodologia e critérios utilizados para "estimar um suposto prejuízo financeiro ao erário em razão de 'incidentes sistêmicos'".
Também informou que, nos contratos firmados com o INSS, a Dataprev opera com Acordos de Nível de Serviço (ANS), "baseados em métricas amplamente utilizadas no mercado de TI, que estabelecem metas de disponibilidade das aplicações de 98%".
A nota afirma ainda que o INSS possui dezenas de serviços e que, por isso, não seria adequado somar os tempos dos incidentes, "uma vez que se tratam de ocorrências pontuais, em serviços específicos, e de curta duração média".
"Entre 2024 e 2025, a empresa registrou disponibilidade superior a 96% nas medições realizadas nos serviços prestados", continua a nota. "Em 2026, até meados do mês de março, não foram identificadas quebras de ANS. No período, o valor mínimo de disponibilidade apurado nos serviços foi de 98,50%."
A Dataprev ressaltou ainda que os contratos preveem a aplicação de penalidades, quando há descumprimento de cláusulas contratuais.
"A Dataprev ressalta que, para um diagnóstico completo de eventuais instabilidades, é necessário considerar também fatores externos, como infraestruturas locais e condições de conectividade das redes de acesso, sobre as quais a empresa não possui controle nem visibilidade", disse.