Do crédito às bets: o novo retrato do endividamento no Brasil e a corrida do governo Lula para conter a crise

Estudos mostram que, desde 2020, o brasileiro está acima do patamar baixo de endividamento e tem o seu poder de compra afetado por isso

13 abr 2026 - 04h57
(atualizado às 08h56)
Lula incumbio a Dário Durigan, novo ministro da Fazenda, a missão de apresentar um novo projeto de rengociação de dívidas antes do fim do mandato
Lula incumbio a Dário Durigan, novo ministro da Fazenda, a missão de apresentar um novo projeto de rengociação de dívidas antes do fim do mandato
Foto: ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Desenrola, ampliação do Minha Casa Minha Vida à classe média, criação do Crédito do Trabalhador e mais um projeto para renegociar dívidas está no forno, já no último ano de mandato do governo Lula 3. Desde o início desta gestão, o petista tem demonstrado que quer tratar da questão do endividamento e estimular o consumo das famílias. Mas, até aqui, parece que o problema só faz crescer. 

Na economia, o presidente Lula comemorou as mínimas históricas sequenciais da taxa de desemprego e o aumento da renda média do trabalhador. Ainda assim, por causa do endividamento, esse crescimento não se reverte necessariamente em consumo. É o que mostra um estudo realizado pelo Banco Daycoval, divulgado em março deste ano, com dados de até 2025.

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Segundo os pesquisadores, há um limiar de endividamento que quando ultrapassado faz com que, mesmo com aumento da renda, haja diminuição do percentual de consumo. Foi encontrado que este limiar é de 39,6% e ao atingi-lo o coeficiente de massa salarial sobre consumo cai de 0,29 para 0,17.

Em bom português, uma pessoa com endividamento menor que 39,6%, caso receba um aumento de R$ 100 no salário, irá destinar R$ 29 para o consumo. Enquanto aquelas que têm mais de 39,6% comprometidos com dívidas, só irão destinar R$ 17 para consumo. 

“Se você está aumentando a renda, esse aumento está sendo só 17% destinado para consumo, sendo que uma parte desse aumento da renda está indo justamente para pagar as dívidas. E antes da pandemia, este coeficiente era de 0,29. Então, você tem uma queda de 40% no coeficiente, o que indica que as pessoas consomem menos à medida que a dívida aumenta”, explica o economista Antonio Ricciardi, que participou da elaboração do estudo. 

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Entenda como o endividamento afeta o consumo das famílias

O que acontece com o consumo quando a massa salarial cresce R$ 100,00.

Dívida Controlada

Comprometimento menor que 39,6%
Aumento de R$ 100 na renda
 
R$ 29
Vão direto para o consumo

Dívida Asfixiante

Comprometimento maior que 39,6%
Aumento de R$ 100 na renda
 
R$ 17
Sobram para o consumo
Queda de ~40% no poder de compra

É como se o estudo dividisse a economia em dois estados: o regime de baixo endividamento e o de alto. 

  • Regime de Baixo Endividamento (Abaixo de 39,6%): A economia funciona de um jeito. O coeficiente de massa salarial sobre consumo é de 0,29.
  • Regime de Alto Endividamento (Acima de 39,6%): Há uma quebra estrutural no comportamento das famílias. A economia passa a funcionar de outro jeito, e o coeficiente cai e fica em 0,17.

O governo Lula 3 está inserido no regime de alto endividamento desde o início do mandato, que começou em 2023. Na verdade, de acordo com o estudo, a economia brasileira opera com o endividamento familiar acima do percentual de 39,6% desde 2020, e, em 2025, passou a representar quase 50% das rendas das famílias. 

Lula diz que dívida das famílias ofusca avanço da economia e pede solução à Fazenda
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As causas do endividamento 

Dívidas estão crescendo no Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Você não engorda da noite para o dia. Você começa ali com maus hábitos e quando viu, sobe na balança e não sabe dizer o que aconteceu”. É com esse raciocínio, que remete ao seu trabalho como profissional de Educação Física, que Antônio Ramalhete descreve como se endividou. Hoje, ele tem cerca de R$ 500 mil em dívidas, mas ressalta que nunca foi inadimplente. 

Antônio se lembra que sua primeira grande dívida foi um empréstimo feito em 2019, para comprar uma moto. Depois, percebendo que conseguia pagar as parcelas tranquilamente, passou a fazer novas. 

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Nessa bola de neve, Antônio notou que, por mais endividado que estivesse, mantinha os compromissos com os boletos que chegavam. E decidiu, então, apostar em uma dívida maior, financiando um imóvel através de uma cooperativa. O acordo foi desfeito recentemente, quando participou do reality show de educação financeira da Me Poupe! e percebeu que a situação estava ficando insustentável. 

Ele também já conta com as parcelas de um financiamento feito através de um banco, em que paga o apartamento em que mora. 

O estudo do Daycoval destaca como a tomada de crédito imobiliário passou a exercer grande influência sobre o percentual de endividamento nos últimos 20 anos. Em 2005, ele representava apenas 2,6% de comprometimento de renda e chegou a 18,5% no ano passado. 

Veja a evolução do comprometimento da renda do brasileiro nos últimos 20 anos

O impacto do endividamento na capacidade de consumo (2005 - 2025)

Salto habitacional

Em 2014, o crédito imobiliário rompeu a barreira de 10% da renda média.

Limiar crítico

Acima de 39,6%, cada aumento na renda faz com que o consumo cresça 40% menos que antes.

Cenário 2025

O endividamento total beira os 50% puxado pela expansão imobiliária.

 
Habitacional
Não Habitacional
Limiar (39,6%)
Fonte: DPEC/Daycoval com dados do BCB e IBGE. *Dados de 2025 são projetados.

O economista Antonio Ricciardi explica, porém, que o estudo não buscou analisar se esse aumento no endividamento por crédito imobiliário é bom ou ruim. 

“Podem dizer que se o financiamento habitacional melhorou, as pessoas agora têm casas, isso é um ganho de bem-estar para as pessoas. A gente não entrou nesse mérito, o que encontramos é que, de fato, esse nível de endividamento faz com que as pessoas consumam menos e, portanto, o aumento de renda percebido agora se traduz em menos consumo”, afirma. 

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“O grande movimento e o que fez desencadear essa dicotomia na nossa visão é que, a partir da pandemia, o nível de endividamento das famílias cresceu e manteve-se nesse patamar até os dias de hoje”, complementa Ricciardi. 

Mais um levantamento, divulgado também em março, mostra outros contornos do endividamento brasileiro e dá os devidos holofotes a um fenômeno que ganhou força justamente pouco antes da pandemia: as bets. 

Segundo o estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (Ibevar) em parceria com FIA Business School, as bets superaram a influência dos juros e dos cartões de créditos, se tornando o principal motor do endividamento das famílias no Brasil.

O relato de quem se viciou em apostas 

'Acumulei R$ 1 milhão em perdas': o relato da comerciante que tenta se reerguer após se viciar em bets
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A comerciante Roberta*, de 54 anos, estima ter acumulado perdas na casa de R$ 1 milhão com jogos de aposta online. Ela prefere não se identificar porque até hoje esconde o vício do marido e da filha, mas encontrou suporte com a ONG Ângela Maria, fundada por Jéssica Lobo, que perdeu a irmã para um suicídio por causa do vício em bets. 

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É com lágrimas nos olhos que Roberta fala sobre sua história. Ela conta que quer ver vários relatos como os dela, de pessoas que superaram o vício e estão se reerguendo, mas que sabe que há muitos outros casos que não terminam bem.

“Eu fui vendendo coisas, vendi uma casa de R$ 230 mil, perdi um dinheiro que o meu esposo ganhou de aposentadoria, salários que ele tinha, eu perdi… Mas eu sou muito batalhadora, trabalho muito, vendo muito na minha loja. Então, tudo que eu vendia, todo dinheiro que entrava, eu colocava no jogo”, diz. 

Bets é uma das causas de dívidas
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Roberta conta ter feito empréstimo em cartões de amigas, dizendo que era para repor mercadoria da loja que possui. Para pagar as amigas e não deixá-las com nome sujo, recorreu a empréstimos e, assim, foi se formando uma bola de neve. 

A solução que ela encontrou, quando percebeu que não podia mais jogar, foi deixar as contas dos aplicativos de banco nas mãos da filha, para que a jovem administrasse o que saía e entrava do caixa, além das contas de casa. A justificativa que deu à menina foi de que estava gastando muito com aplicativos de e-commerce e precisava se controlar. 

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Hoje, Roberta saiu da posição de adicta e se tornou coordenadora na ONG Ângela Maria, organização que funciona através de grupos de auxílio a viciados em jogos de apostas. 

Voltando ao estudo do Ibevar com a FIA Business School, a principal conclusão foi sobre o impacto que as bets têm hoje sobre o endividamento dos brasileiros. Em uma escala para equalizar a comparação, as bets têm impacto de 0,2255 sobre a renda, enquanto a tomada de crédito têm 0,040 de impacto e os juros sobre o consumidor, 0,0709. 

“Esses coeficientes são comparáveis, pela forma como o estudo foi construído. Quando você soma os coeficientes do impacto da tomada de crédito e dos juros na renda do brasileiro ainda dá um valor menor do que o das bets”, explica Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professora na FIA Business School.

Impacto Comparativo: Apostas vs. Indicadores de Crédito e Juros Análise da magnitude dos coeficientes sobre a economia
Fonte: Ibevar e FIA Business School

É neste cenário que os sites de apostas voltaram à mira do governo. Há a expectativa de que o novo plano de renegociação de dívidas, que deve ser anunciado em breve, também crie restrições de acesso a bets, para que quem aderiu ao programa não faça novos débitos.

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Também está em debate o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para abater dívidas já contraídas pelos trabalhadores.

O que fazer para sair do endividamento

Antônio e Roberta estão no caminho para quitar suas dívidas. O personal trainer está focado em fazer mais renda extra e diminuir seu custo de vida. “Hoje, eu vejo que é uma conta matemática simples, é você ter um custo de vida mais baixo do que você ganha e saber fazer renúncias. É dizer ‘eu não quero, eu não posso’”, diz.

A educadora financeira Bruna Andriotto, especialista em renda extra da Me Poupe!, explica que a prioridade para quem está com dívidas acima do que consegue pagar é quitar aquelas que colocam em risco seu patrimônio e seu bem-estar. 

“Primeiro, financiamentos que podem levar à perda da casa ou automóvel, ou interrupção de serviços essenciais como luz que leva a corte. Depois, as com maiores juros, matematicamente, você paga menos no final. Por último, as mais baratas ou negociáveis, como cartão de loja”, afirma. 

Ela explica que cada consumidor precisa entender o seu próprio limite de dívidas, pois há aquelas planejadas que devem ser vistas como um retorno futuro, como a do financiamento de imóveis. “O limite saudável é quando você conhece o orçamento (sabe quanto entra e quanto sai), tem reserva de emergência e lida bem com ela, não é quem acumula parcelas infinitas. Se compromete a paz, sem margem de pagamento ou liberdade, vira ameaça, não ferramenta”, defende. 

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Bruna ressalta que aquela pessoa que optar por renegociar uma dívida tem que absorver que a medida busca apenas dar fôlego para que o débito seja quitado. “A dívida não deixa de existir, então se ela continua gastando sem pensar, parcelando, sem organização financeira e reserva, a dívida cresce de novo. Se não priorizar, não honra o combinado, os juros abusivos voltam e perde o respiro”, diz. 

Fonte: Portal Terra
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