Empresa se prepara para entrar no mercado de ações, o que poderá impulsionar a fortuna Musk para a estratosfera. Seriam essas ambições realmente cósmicas ou apenas mais um buraco negro para investidores?Elon Musk tem o hábito de transformar ficção científica em realidade. De foguetes reutilizáveis a veículos elétricos autônomos e robôs humanoides, os empreendimentos do bilionário frequentemente alcançam o que antes era considerado impossível. Com a oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) da SpaceX, ele almeja marcas ainda maiores.
A empresa, que se manteve estritamente privada por 24 anos, agora se prepara para abrir seu capital. Em um documento S1 enviado aos reguladores dos EUA nesta quarta-feira (20/05), com centenas de páginas, a SpaceX anuncia planos de captar cerca de 75 bilhões de dólares (R$ 376 bilhões) de novos investidores, o que aumentaria o valor da empresa em até 1,75 trilhão de dólares.
Nada mal para uma empresa que ainda opera com prejuízos e que Musk - que já é o homem mais rico do mundo - ainda controlará de maneira efetiva.
Marte, mineração de asteroides, data centers orbitais
Musk quer que a SpaceX faça mais do que enviar astronautas ao espaço. Ele planeja construir a infraestrutura para garantir o futuro da vida humana além da Terra. O objetivo final, segundo Musk, é criar cidades autossustentáveis em Marte que possam abrigar até um milhão de pessoas.
Para alcançar esse objetivo, a SpaceX planeja usar a Starship - sua gigantesca espaçonave reutilizável - para realizar as primeiras viagens não tripuladas até 2030. A viagem só de ida para o Planeta Vermelho cobre cerca de 225 milhões de quilômetros em média e leva aproximadamente de seis a nove meses. As missões iniciais testarão os sistemas de pouso e começarão a instalar a infraestrutura básica, com viagens tripuladas que devem ocorrer alguns anos depois.
A SpaceX também quer usar recursos em corpos celestes muito mais próximos da Terra para apoiar a expansão multiplanetária da humanidade. Musk acredita que asteroides, que viajam pelo espaço em órbitas variáveis, poderão um dia ser explorados para mineração.
A gravidade quase nula dos asteroides torna o pouso neles e a extração de materiais muito mais fáceis e baratos. No entanto, a mineração em larga escala de platina, níquel, ouro e gelo (água) de asteroides - todos vitais para sustentar a vida, construir habitats e produzir combustível em Marte - não deve ser alcançada antes da década de 2040, ou ainda mais tarde, segundo previsões de analistas da indústria espacial.
Um primeiro passo crucial, porém, será a Lua, que fica a apenas três dias de viagem da Terra. A SpaceX prevê que habitats, fábricas e depósitos de combustível poderão ser construídos na Lua, uma opção muito mais barata do que lançar toneladas de materiais da Terra.
Musk também acredita que o espaço tem a resposta para um dos maiores problemas enfrentados pela inteligência artificial (IA): a enorme quantidade de energia e refrigeração necessária para que grandes centros de dados lidem com bilhões de solicitações de usuários simultaneamente.
Em vez de construir mais dessas instalações que consomem muita energia na Terra, a SpaceX lançou a ideia de colocar supercomputadores gigantes de IA em órbita em grandes conjuntos de satélites.
Esses data centers poderiam usar a luz solar ilimitada para energia e o vácuo frio do espaço para resfriamento gratuito, tornando o treinamento da IA em larga escala muito mais barato e eficiente do que em nosso planeta.
Musk, o primeiro trilionário do mundo?
Se as ambições da SpaceX já não fossem suficientemente ousadas, os planos do IPO para aumentar a fortuna de Musk são verdadeiramente extraordinários.
Ele detém atualmente cerca de 42% da SpaceX. Com a meta de avaliação de 1,75 trilhão de dólares, sua participação sozinha valeria aproximadamente 735 bilhões. Somando-se às participações de Musk na Tesla, xAI e outros empreendimentos, o IPO provavelmente elevaria seu patrimônio líquido total para mais de 1 trilhão de dólares, o que o tornaria o primeiro trilionário da história.
Uma estrutura especial de ações de dupla classe concede a Musk mais de 80% do poder de voto, apesar de possuir uma participação muito menor no capital da SpaceX. Essa configuração o torna, na prática, indestrutível como CEO, permitindo que ele busque projetos de longo prazo e alto risco sem a pressão de investidores de curto prazo ou acionistas ativistas.
O controle absoluto de Musk já atraiu críticas anteriormente, principalmente na Tesla, onde acionistas processaram a empresa devido a seus enormes pacotes de remuneração e potenciais conflitos de interesse, argumentando que o conselho não possui real independência. Preocupações semelhantes surgiram em relação ao seu controle da plataforma de mídia social X, onde ele próprio tomou decisões como mudanças estratégicas e demissões em massa.
A IPO estrondosa também criará enorme riqueza para os primeiros investidores e executivos. De acordo com o jornal econômico Financial Times, a presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell, e o diretor financeiro, Bret Johnsen, veriam suas ações ultrapassarem 1 bilhão de dólares em valor. O investidor de longa data Antonio Gracias poderia ter 70 bilhões ou mais, enquanto a participação do cofundador do PayPal, Luke Nosek, valeria cerca de 5 bilhões de dólares.
A aposta mais ousada de Wall Street
Wall Street se prepara para o que pode ser o maior IPO da história, com o banco de investimentos Goldman Sachs atuando como o principal subscritor.
Se a SpaceX conseguir o financiamento adicional de 75 bilhões de dólares, isso representaria quase o triplo do recorde anterior da Saudi Aramco, de aproximadamente 29,4 bilhões em 2019. Antes disso, a maior oferta pública inicial da Alibaba nos EUA havia sido a de 22 bilhões de dólares, em 2014.
Uma avaliação de 1,75 trilhão colocaria a SpaceX entre as dez maiores empresas de capital aberto do mundo, ao lado da Nvidia, Apple, Alphabet (proprietária do Google) e Microsoft.
Isso representaria um enorme voto de confiança por parte dos investidores, já que a SpaceX continua sendo uma empresa que opera no vermelho, tendo registrado um prejuízo líquido de 4,94 bilhões de dólares em 2025 devido aos altos investimentos na Starship, no lançamento de satélites e em recursos de IA.
Devido aos enormes riscos de operar fora do planeta Terra, juntamente com o rápido avanço da IA, o pedido de IPO descreve os perigos bastante reais que a SpaceX enfrenta. Esses incluem "uma gama única de riscos relacionados ao espaço", incluindo "radiação de fontes solares e cósmicas; micrometeoroides e detritos orbitais", assim como "ferimentos ou mortes de seres humanos".
O documento apresentado nesta quarta-feira também alerta que a empresa tem "um histórico de prejuízos líquidos e pode não atingir a lucratividade no futuro."
A avaliação de mercado altíssima tem levado alguns analistas a questionar se as ambições da SpaceX são mais utópicas do que ciência espacial - um debate que tende a se intensificar quando as negociações começarem na Nasdaq no próximo mês.