Apesar de décadas de sanções, de severas restrições financeiras e de um isolamento político crescente, o Irã não está isolado do resto do mundo. Os números são eloquentes: em 2022, cerca de 150 países ainda trocavam bens com Teerã. Em outras palavras, sanções não significam fim do comércio. Elas redefinem, sobretudo, a natureza das trocas, determinando com quais parceiros, segundo quais modalidades e por meio de quais circuitos paralelos as transações são mantidas. O comércio iraniano continua existindo, mas foi transformado, fragmentado e, em alguns casos, deslocado para canais menos visíveis, à margem dos circuitos financeiros tradicionais.
Se tantos países continuam a fazer negócios com o Irã, isso se deve, antes de tudo, à própria estrutura de sua economia. O país vende principalmente produtos como hidrocarbonetos, derivados de petróleo e produtos químicos. Em contrapartida, Teerã importa o que precisa para manter sua economia funcionando e atender às necessidades da população. O Irã troca, assim, uma renda por capacidade produtiva.
Essa lógica revela uma forte dependência em relação ao exterior, especialmente no que diz respeito a máquinas, tecnologias, insumos agrícolas e parte dos bens alimentares. Uma dependência que torna o comércio exterior vital, tanto do ponto de vista econômico quanto social.
Para o regime iraniano, o comércio exterior é uma condição de sobrevivência. As receitas de exportação financiam o país, enquanto as importações mantêm parcerias que também servem como canais diplomáticos.
China e Europa seguem como parceiros-chave, apesar das restrições
Entre os países que comercializam com o Irã, a China é o parceiro que se destaca de forma clara. Cerca de 80% do petróleo exportado por Teerã no ano passado foi comprado por Pequim. Trata-se, porém, de uma relação que vai muito além do simples âmbito comercial.
Diante das sanções financeiras que limitam as transações em dólares ou euros, a China implementou mecanismos alternativos de pagamento, reforçando uma relação que se tornou estratégica. Além disso, em torno desse eixo chinês gravitam outras economias asiáticas, como Índia e Turquia, que também continuam a negociar com o Irã em diferentes graus.
No entanto, mesmo os países ocidentais, que impõem sanções a Teerã, não estão totalmente ausentes do comércio iraniano. Na Europa, as trocas de fato diminuíram fortemente desde a implementação das sanções, mas não desapareceram. A Alemanha continua sendo um dos parceiros europeus mais ativos, especialmente nos setores farmacêutico, industrial e químico, ainda que os volumes permaneçam modestos em comparação com os da Ásia.
Mas essa relação entre europeus e iranianos é marcada por uma profunda ambiguidade. De um lado, empresas do Velho Continente veem no Irã um mercado de mais de 85 milhões de habitantes, relativamente pouco equipado. De outro, os riscos jurídicos e financeiros ligados às sanções freiam qualquer ambição em grande escala.
É justamente porque numerosos Estados continuam a fazer negócios com o Irã que Donald Trump agita agora a ameaça de sobretaxas alfandegárias. O objetivo declarado é isolar economicamente Teerã. Mas o efeito colateral pode ser pesado, pois penalizaria a atividade de empresas estrangeiras e, em última instância, a dos próprios Estados.