O El Niño deverá favorecer o plantio de soja em Estados do Centro-Oeste em 2026/27 tão logo o vazio sanitário esteja encerrado, em meados de setembro, já que haverá umidade adequada para a realização dos trabalhos nos campos da principal região produtora da oleaginosa do país, avaliou a Nottus Meteorologia nesta quinta-feira.
"Em meados de setembro terá umidade no solo para iniciar o plantio de verão. A chuva chega cedo, deve favorecer a semeadura. Rompeu o vazio sanitário, planta", disse o sócio-diretor da Nottus, Alexandre Nascimento, em videoconferência para jornalistas. Ele se referia ao período em que, por questões fitossanitárias, não se pode plantar soja.
Mas se o El Niño garantirá chuvas para um plantio precoce, ele também promoverá um corte antecipado dessas precipitações, deixando um alerta para culturas de segunda safra no ano que vem, especialmente o milho, plantado após a colheita da soja.
Além disso, as culturas de verão do Centro-Oeste também estarão sujeitas a riscos de intervalos mais longos sem chuva.
"Aumenta sim a chance de intervalos sem chuvas, por isso que é importante plantar logo. Acho que a chuva vai chegar até antes do fim do vazio, e pode ter momentos de veranico, mas se antecipa bastante, foge do problema lá na frente", disse Nascimento.
A pior situação para o produtor de soja é ficar sem chuvas na fase do enchimento de grãos, o que poderia representar uma quebra bastante significativa na safra, disse ele, ressaltando a importância de se usar a técnica do plantio direto. "Se pega dez dias com temperatura alta sem chuva, se tem uma cobertura (vegetal) bem feita (pelo plantio direto), retarda um pouco (o estresse hídrico)", afirmou.
O meteorologista disse também que na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) há grande risco de seca para a safra de soja, por conta do El Niño.
"Este é um ano para não fazer grandes investimentos em áreas com grandes riscos de chuvas, plantar fora do pivô (de irrigação), só se for algo que não demande tanto investimento", aconselhou.
No Sul do Brasil, por outro lado, o El Niño costuma proporcionar chuvas abundantes, disse Nascimento, algo normalmente favorável para as lavouras de soja.
Dados do National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) indicam que o El Niño deve permanecer ativo pelo menos até o primeiro semestre de 2027. Os modelos climáticos apontam ainda elevada probabilidade de intensificação do fenômeno nos próximos meses, com potencial para atingir a categoria "muito forte" até o final de 2026, relatou a Nottus.
O El Niño já está trazendo alguns desafios para o campo, como atrasos nas colheitas de café, cana e milho.
SETOR ELÉTRICO
A preocupação para o setor elétrico, que no Brasil tem forte dependência de hidrelétricas, seria maior em 2027, principalmente para as usinas do Nordeste, disse Nascimento.
"Este ano tivemos boas afluências, houve recuperação dos reservatórios, mas no ano que vem existe pressão de consumo elevado por conta do calor e de não chover tanto no Norte e Nordeste", disse.
Para 2026, contudo, o El Niño deve ser até benéfico de maneira geral para o sistema elétrico, referindo-se às chuvas.
"O que preocupa é distribuição e transmissão (de energia) por conta de chuvas com ventanias, proporcionando desligamentos", afirmou ele, lembrando que o fenômeno climático tende a aumentar a força e a frequência dos ventos associados à chegada de frentes frias.