Com projeções de inflação em alta e bem acima da meta neste ano e nos dois seguintes, o Banco Central (BC) decidiu avançar com cautela na redução da Selic, a taxa básica de juros, cortada de 14,5% para 14,25% na reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária, encerrada na quarta-feira, 17. Com mais esse corte, o terceiro dessa magnitude, os juros básicos se mantiveram entre os mais altos do mundo, complicando o crédito, impondo mais dificuldades às famílias já endividadas e encarecendo uma dívida pública já muito pesada para o Tesouro e para os pagadores de impostos.
A inflação projetada para este ano e para os dois seguintes - 5,30%, 4,10% e 3,68%, segundo a pesquisa Focus - supera com folga o centro da meta, fixado em 3% para períodos de 12 meses. A insegurança global, agravada pelos conflitos no Oriente Médio, pelas tensões entre Rússia e Europa Ocidental e pelos desmandos do presidente americano, Donald Trump, tem afetado os preços internacionais. Sem mencionar detalhes, o informe distribuído pelo Copom menciona as incertezas causadas pelas disputas externas e defende cautela por parte dos emergentes num ambiente de maior volatilidade de preços.
As pressões inflacionárias internas, como o câmbio depreciado, o crescimento econômico acima do potencial produtivo, os estímulos ao consumo e a condução da política fiscal, são mencionadas adiante. Não há, no entanto, referência mais direta e aberta à gastança federal e aos custos fiscais da busca da reeleição pelo presidente da República. Um dos efeitos desse quadro, a famosa "desancoragem" das expectativas, é mencionado, como tem sido em muitos comunicados do Copom.
Nos próximos dias, alguns desses pontos poderão ser examinados com mais detalhes num comunicado mais amplo do BC. Mas o essencial está transmitido. Dificilmente os membros do Copom avançarão em críticas mais explícitas e mais duras ao Executivo. A contenção diplomática tem sido uma tradição nos comentários de membros do Comitê sobre ações do governo. O recado mais severo é traduzido, habitualmente, por especialistas do mercado e pela imprensa.