'Com IA, a matemática deixa de ser o principal filtro; o que sobra? a relação humana', diz Edu Lyra

Nova tecnologia pode fazer pessoas da favela serem mais valorizadas por suas habilidades interpessoais, mas, se não resolver mais problemas do que criar, pode perder licença social, diz fundador da Gerando Falcões

11 mai 2026 - 21h45

Nascido em Guarulhos, Edu Lyra se tornou um dos mais influentes empreendedores sociais brasileiros, com reputação internacional e reconhecimento entre os mais poderosos empresários brasileiros. Fundador da organização não governamental Gerando Falcões, ele criou uma instituição capaz de ajudar a liberar a potência criativa e empreendedora das favelas brasileiras e, ao conectar essas comunidades à economia formal, tirar famílias da pobreza.

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Em 15 anos de existência, ela atua em 5 mil comunidades pobres por todo o território nacional. Um dos grandes desafios para o futuro está em preparar essas pessoas para a revolução que a inteligência artificial pode causar na sociedade, nas empresas e no mercado de trabalho.

Para Lyra, a nova tecnologia traz riscos, mas também grandes oportunidades. "Este pode ser um dos grandes momentos das favelas e das populações mais pobres", afirma. "A IA pode gerar um valor imenso para essas pessoas que não tiveram a chance de ter os melhores diplomas, mas que desenvolveram habilidades naturais de sobrevivência nas favelas."

Ele será um dos palestrantes do São Paulo Innovation Week, que ocorre de 13 a 15 de maio no Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado. O festival é uma realização do Estadão.

‘As empresas de IA têm de entender que precisam criar um impacto social positivo’, diz Lyra
‘As empresas de IA têm de entender que precisam criar um impacto social positivo’, diz Lyra
Foto: Felipe Rau / Estadão / Estadão

Qual será o futuro do trabalho nas favelas e comunidades mais pobres, com toda a mudança tecnológica atual?

Este pode ser um dos grandes momentos das favelas e das populações mais pobres. Os grandes centros acadêmicos como Harvard e Yale e todas as grandes universidades sempre tiveram como filtro a capacidade matemática de uma pessoa. Então, com capacidade matemática, você passa nos principais filtros e, a partir daí, vai ter as melhores oportunidades. Não tem nada de errado nisso. Mas, quando a IA se desenvolve tanto, com seus modelos de linguagem, elas conseguem entregar soluções matemáticas das mais complexas em dois segundos. Isso vira commodity. Então, a matemática deixa de ser o principal filtro. O que sobra? A relação humana, contato, capacidade de definir qual é o problema, capacidade de engajar as pessoas para solucionar esse problema, capacidade de motivar o outro, capacidade de criar alinhamento, interação humana… Isso é tudo que as pessoas mais pobres têm na favela. Elas vivem em comunidade, em colaboração, elas dão um jeito de sobrevivência todos os dias. Então, a IA pode gerar um valor imenso para essas pessoas que não tiveram a chance de terem os melhores diplomas, mas que desenvolveram habilidades naturais de sobrevivência nesses territórios. Então, o grande desafio é mostrar para a população, para as pessoas, que este pode ser o momento delas, de agarrar as oportunidades e encontrar os caminhos de crescimento.

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Além dessa capacidade de relações interpessoais, a falta de criatividade e a de senso de empreendedorismo nunca pareceram ser problema nas favelas. Também serão mais importantes para o trabalho do futuro?

Não é um problema mesmo para a favela. E, à medida que a IA vai se desenvolvendo, vai surgindo um novo trabalho. Esse novo trabalho passa muito pelo empreendedorismo. As pessoas querem empreender, elas querem criar. É a mulher que vende bolo de pote, é a manicure, é o cabeleireiro, é a pessoa que oferece um serviço ali na comunidade. Os nossos escritórios trabalham muito com mulheres empreendedoras, inclusive, com microcrédito, articulando isso para que possam empreender, gerar renda local. Quando uma mulher coloca dinheiro no bolso, ela tira uma criança da pobreza. Tem um volume muito grande de crianças pobres no Brasil. Permitir que uma criança seja pobre é um fracasso civilizatório. Então, a gente tem de dar um jeito nisso. Tem de encontrar formas para a IA ser uma aliada nisso. Por exemplo, uma das empreendedoras com que a gente trabalha faz roteiros de vídeo, faz todo o seu processo de comunicação usando IA. Ela grava, ela posta, ela aumenta as vendas e consegue trazer mais dinheiro para a comunidade, para investir nos seus filhos, e sair daquela posição de dependência.

A IA, ao trazer interfaces cada mais intuitivas para os usuários, também diminui a necessidade de formação tecnológica, de aprender a desenvolver códigos e fazer cursos?

Exato. As pessoas estão mais conectadas. O gap digital, a diferença de conhecimentos em tecnologia para as pessoas com mais poder aquisitivo, tem de cada vez mais ser diminuído. Inclusive, uma das métricas que usamos no nosso medidor de dignidade da Gerando Falcões, o 'dignômetro', é se a pessoa tem acesso à internet. Uma vez que ela tem acesso à conectividade, o mundo se abre para ela. Pode assistir a uma aula de quem quiser no YouTube ou aprender o que quiser, inclusive, com a IA. A partir daí, é saber fazer as perguntas certas, é a interação e a troca. Na hora em que isso chega na mão dos mais pobres, dos moradores de favela, nós vamos nos divertir muito com o que eles vão ser capazes de criar. Parte do futuro, da microeconomia, do aquecimento da economia do País vai passar por essa grande massa criando, produzindo e empreendendo. O custo de empreender também está diminuindo, o que é muito importante. Antes, era muito caro empreender. Agora, vai depender muito mais da fome da pessoa de fazer acontecer.

Além do empreendedorismo, muda a inserção das pessoas mais pobres no mercado formal de trabalho, dentro das empresas?

Existe um impacto natural que já começa a acontecer muito mais, inicialmente nos escritórios. O que vejo, sobretudo em São Paulo, é um volume de oportunidades de empregos gigantesco. Se você olhar, por exemplo, o volume de dinheiro que a Sabesp está investindo no esforço de universalizar o saneamento básico e o volume de contratações passa de 30 mil pessoas. Há uma necessidade de mão de obra gigantesca. Um dos grandes empresários de IA do mundo, o fundador da Nvidia, diz que nos Estados Unidos os próximos milionários serão os encanadores, por que se acaba gerando uma necessidade de trabalhos muito grande. É uma grande oportunidade e um grande desafio. No fim das contas, a IA é um vento contra e outro a favor.

Do lado contrário, tenho ouvido de empresários e executivos que a IA pode eliminar trabalhos mais simples, que geralmente são dados para estagiários, para os iniciantes nas empresas. Isso não pode fechar a porta para jovens que precisam ganhar experiência?

De fato, existem riscos. Fundamentalmente, as universidades, as escolas, os líderes vão ter de entender como se adaptar a isso, quais são as grandes capacitações, os negócios emergentes, as economias que estão pulsando. Então, temos que direcionar e inspirar as pessoas para caminhos alternativos. Um tempo atrás encontrei, numa vinda dele ao Brasil, o escritor Yuval Harari. Eu perguntei a ele o que ele recomenda para a formação dos jovens nas favelas. Se é, por exemplo, ser piloto de drones. E ele respondeu: 'Eu não sei'. Perguntei se não tinha nada a recomendar, e ele falou: 'Eu te sugiro capacitar as pessoas em habilidades emocionais'. Se elas tiverem esse estoque emocional, o mundo vai mudar, mas elas vão se adaptar a esse mundo e desenvolver novas capacidades. Se não tiverem esse estoque emocional, elas vão se perder. O impacto vai ser muito grande e não vão conseguir encontrar um novo caminho. Você tem de ficar o tempo inteiro se adaptando às circunstâncias. É como jogar futebol. Você toma um gol e se adapta. Não está mais zero a zero. Tomou um gol, então, tem de mudar o jogo, ser mais agressivo. A gente está formando os jovens, com a Microsoft, para programar com IA.

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Vai mudar tudo, no trabalho, no consumidor e nas relações pessoais?

O que eu acredito que não vai mudar é o ser humano. Ele sempre vai querer o contato com o outro, o olho no olho. Todo o trabalho que a gente está fazendo na Gerando Falcões é para que a IA faça as atividades burocráticas. A mentora ou alguém que trabalha numa atividade-chave perdia 30% do tempo subindo informação, vendo documentos. Isso acaba liberando o tempo dessa pessoa para estar mais com os pobres, com as famílias, olhando a rota, a jornada, transferindo conhecimentos e dando motivação, para ajudar as pessoas a cumprirem as metas. Para que as pessoas sejam desenvolvidas, se sintam importantes e vistas. E, por outro lado, as grandes empresas de IA têm de entender que o produto que estão desenvolvendo precisa criar um impacto positivo. Se não tiver um impacto positivo massivo, vão perder a licença social para desenvolver o produto.

Se isso não acontecer, pode haver uma forte reação contra a tecnologia?

Todo produto ou tecnologia deveria resolver um drama da sociedade, um drama social, ambiental, seja de qual ordem for. Se não entrega esse valor ou cria um outro drama, você tem um problema aqui. Os grandes pensadores e desenvolvedores, especialmente os que estão no Vale do Silício agora, precisam ter essa sensibilidade e ouvir as comunidades, os países emergentes, para que essa tecnologia possa ter um efeito positivo e transformar a civilização. Tirar o mundo de um problema de que mais de 1 bilhão de pessoas vivem em extrema pobreza. Esse é o desafio que precisa ser falado. A obsessão não deveria ser simplesmente chegar na inteligência artificial generativa. A obsessão deve ser resolver um drama social colossal que ainda existe no planeta Terra.

Com 15 anos de operação da Gerando Falcões, já deu para perceber uma mudança geracional e do que os jovens querem para trabalhar e para as suas vidas?

Existe um anseio muito grande relacionado à economia digital, à presença como youtuber ou influencer. O trabalho digital como um todo chama muita atenção do jovem. Ter uma carreira muito longa já não atrai tanto. O jovem quer processos diferentes. Por outro lado, a gente tem de encontrar caminhos, porque ele quer empreender também. É preciso ter alternativas distintas. O que permanece a mesma coisa é o quanto esse jovem almeja por oportunidades. No fim das contas, ele quer botar um tênis e um boné de marca para ser aceito. Ele quer que a música dele viralize no YouTube. Por outro lado, isso é um risco, por que essa fragilidade, de alguma forma, torna ele um alvo fácil do tráfico de drogas e de tantas outras coisas. A batalha é saber quem chega primeiro, o tráfico ou o Estado. Quem é mais veloz? Quem é mais burocrata, quem é mais lento vai perder. Então, a gente tem de encontrar a forma de chegar mais rápido, de ter um storytelling, de ter uma narrativa, de mostrar um caminho de ascensão. O outro lado vai levar e nós vamos perder o jovem. Vamos perder essa batalha e não podemos perder. Mas eu acredito muito, e cada vez mais, que as empresas precisam recrutar na favela. É lá onde tem um grande número de gente casca grossa por metro quadrado. É gente que aguenta, que não vai desistir, que vai segurar o tranco. Como os desafios são cada vez maiores das companhias, precisa ter gente com essa vivência para participar dessas grandes jornadas das empresas brasileiras.

A Gerando Falcões surgiu até para fazer essa conexão das empresas com as pessoas das favelas. Como nasceu a ONG?

Surgiu porque eu nasci numa favela em Guarulhos, em São Paulo. Eu morava num barraco de chão de terra batida, em extrema pobreza. Dormia numa banheira azul. E o meu pai acabou entrando para o mundo do crime e foi preso. A minha mãe, todo dia, ela olhava nos meus olhos e me dizia: 'Filho, não importa de onde você vem, o que importa na vida é para onde você vai'. Então, a minha mãe colocou conteúdo na minha cabeça. Ela transferiu uma visão de que o lugar onde eu tinha nascido, ele podia influenciar muito, mas não determina o que eu seria. Eu podia romper com aquilo e, inclusive, transformar a minha própria família.

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Isso virou até um slogan da própria Gerando Falcões, né? Para buscar inspirar outras pessoas a buscar isso, de buscar um futuro melhor?

A gente acredita que as pessoas podem vencer a pobreza, que a pobreza precisa ser uma casa transitória, e não um lugar onde a pessoa viva para sempre. Uma pessoa que nasce hoje em pobreza e morre daqui a 70 anos em pobreza é um erro. A civilização, a sociedade fracassou com essa pessoa. Então, a gente tem de conseguir alterar a rota de vida dessa pessoa e fazer ela ter dignidade. O contrário de pobreza não é riqueza. É dignidade. Não dá para todo mundo ser rico neste País, mas daria para todo mundo viver uma vida digna. Essa deve ser a grande obsessão do Brasil: fazer com que cada brasileiro tenha dignidade, viva uma vida com autossuficiência, sem depender de tanta ajuda externa, de assistencialismo. Então, a partir da minha experiência de vida, a partir do que minha mãe fez por mim, dar dignidade em escala é a grande razão e a obsessão da minha vida. É a minha missão de vida. É uma missão.

As empresas precisam aproveitar mais essas pessoas que normalmente são talentosas, de todos os lugares do Brasil, mas que não têm a formação e oportunidades? São pessoas com um grande potencial que precisa ser destravado?

Exato. No ano passado, a gente colocou mais de 30 mil pessoas no mercado de trabalho. São moradores de periferias, de favelas, muitas pessoas que moram em comunidades que não têm CEP, que não existem no mapa do estado. Elas foram treinadas, muitas delas capacitadas, e hoje estão no mercado de trabalho ganhando dinheiro, criando valor para o País. Esse é um trabalho de desenvolvimento humano. A principal plataforma, o principal programa de tudo isso, é um programa chamado Decolagem. Tem um mentor social na favela que cuida de um grupo de algumas centenas de famílias. Ele embarca a chefe da família, a mulher, no programa. Isso porque programa social que dá certo tem a mulher como foco. Quando uma mulher põe dinheiro no bolso, ela pensa primeiro nos filhos. A forma mais rápida de tirar uma criança da pobreza é colocando dinheiro no bolso da mãe. A gente passa essa mulher naquilo que a gente chama de 'dignômetro', que é um medidor de pobreza com 10 perguntas, de forma simples. É como se a gente colocasse um espelho social na frente do rosto dessa mulher. Com essas 10 perguntas, ela percebe: 'O meu filho está fora da creche, não temos um CEP, estou sem dente na boca, meu marido está desempregado, eu vivo de renda de auxílio, tem um problema aqui, eu estou na pobreza'. A mentora fala: 'Calma, vamos criar uma jornada, vamos criar uma trilha'. Com essa trilha, em até dois anos, essa mulher vai evoluindo. Nós vamos capacitando, transferindo know-how, conhecimento e motivação para ela não desistir da trilha. Ela vai evoluindo junto com a família e dando check no 'dignômetro', até que ela dá os 10 checks e chega no patamar de dignidade. As pessoas aprendem a serem pobres. Elas podem também aprender a sair da pobreza. E o importante é que elas saiam. Elas podem ser guiadas, apoiadas, mas elas têm que sair, porque se elas saírem, elas sabem como não voltar nunca mais. Isso quebra o ciclo de pobreza. É fazer com que os próximos não tenham que passar por aquilo nunca mais.

O grande desafio do Brasil é exatamente essa capacitação humana?

O Brasil precisa acreditar, investir nas pessoas. No geral, no Brasil existe pleno emprego. Mas, sobretudo nessa porcentagem que teve acesso e capacitação. Tem uma parte da pirâmide que está desassistida. Ela precisa de caminhos de oportunidade para acessar o seu futuro. Então, é uma obsessão em chegar nos mais pobres entre os pobres. Mensalmente, a gente recebe feedback e auditoria para saber onde precisa melhorar e evoluir, para chegarmos nas pessoas que mais precisam. As nossas mentoras são pessoas que fizeram uma decisão de vida de trabalhar com impacto social. Elas são remuneradas para isso e são reconhecidas à medida que tiram mais pessoas da pobreza. Assim como existe uma corrida espacial, a gente precisa ter uma corrida social.

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