O diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, disse nesta terça-feira que a autoridade monetária pretende manter os juros básicos em nível restritivo até que esteja convencida de que a inflação no país caminha em direção à meta de 3%.
Em evento promovido pelo Santander, David voltou a afirmar que o BC se preocupa com a desancoragem das expectativas de mercado para períodos mais longos, especialmente 2028, que tendem a ser menos sensíveis a choques momentâneos.
"O que mais nos preocupou foi o fato de as expectativas de inflação para 2028 subirem... o que dificulta nosso trabalho", afirmou.
O mercado espera que a inflação fique em 3,65% ao fim de 2028, segundo o boletim Focus, acima do centro da meta de 3%, que tem uma tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos.
O BC cortou a Selic em 0,25 ponto percentual em abril, a 14,50%, em movimento que tem chamado de "calibração", com David reforçando que a autarquia terminará o ciclo de com juros ainda em nível restritivo.
De acordo com o diretor, o conflito no Irã pegou o Brasil em uma situação melhor do que outros pares, com o país tendendo a ter um crescimento econômico maior do que o esperado por ser superavitário no comércio de petróleo.
Ele ponderou, no entanto, que esse deve ser um crescimento mais restritivo do que em outros momentos porque deve se observar uma renda disponível menor das famílias diante do aumento de preços de alimentos e combustíveis.
O diretor acrescentou que o nível de incerteza, ampliado com o início do conflito, impede o BC de indicar o que fará com a taxa Selic nas próximas reuniões.
Para David, a atividade econômica no Brasil, que vinha rodando acima de seu potencial, agora está em patamar neutro --que tende a não pressionar a inflação.
O diretor afirmou que o conflito no Oriente Médio mudou preços relativos no mundo e isso pode ser transmitido para os índices de inflação. Ele defendeu que o BC não reaja a dados únicos ou mudanças pontuais de preços.
"O Banco Central não vai atacar qualquer mudança nos preços que possa ocorrer devido ao conflito, mas também não vai tolerar que isso se transforme em inflação no futuro", disse.
O diretor afirmou que as avaliações do BC são feitas com cautela e serenidade diante do elevado nível de incerteza no ambiente, ressaltando que a política monetária está funcionando.
David disse ainda que o novo Desenrola, programa de renegociação de dívidas do governo, traz mais uma camada de incerteza porque pode gerar efeitos distintos -- pessoas gastando mais após "limparem" seus nomes e pessoas com menos renda disponível porque vão gastar para quitar seus débitos.
Na apresentação, ele tratou dos desafios enfrentados pelo BC nos últimos anos, citando a irrigação de recursos na economia com uma série de iniciativas, como o aumento do nível de crédito, a política de ganhos reais de salário mínimo, o pagamento de precatórios represados e o maior nível de bancarização.
David também citou preocupação apresentada por agentes de mercado de que o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda poderia pressionar a inflação e dificultar o trabalho do BC.
"Apesar das condições monetárias restritivas, vimos o Brasil crescer acima das expectativas ano após ano até o ano passado", disse o diretor.