Empresas perdem 22 dias de trabalho ao ano por falta de políticas de bem-estar menstrual

Pesquisa conjunta da Essity, GPTW e Dalia avaliou proporção da queda de produtividade a cada 100 trabalhadoras em atuação no Brasil; 1 em cada 4 já sofreu alguma punição no trabalho devido a efeitos da menstruação

19 mai 2026 - 10h11

Embora os impactos do período menstrual sejam uma constante para as mulheres no mercado de trabalho, a preocupação com o tema ainda segue distante das políticas corporativas da maior parte das empresas brasileiras. Questões como cólicas fortes, dores de cabeça e fadiga continuam sendo vistas como um problema individual das profissionais, enquanto a oferta de suporte é bastante inferior em relação à demanda.

No Brasil, 9 em cada 10 profissionais que menstruam sentem impactos negativos na produtividade quando estão passando pelo período. No entanto, somente 8% das empresas no País possuem algum tipo de ação que promova bem-estar às funcionárias nessa fase. Mais ainda, 75% dessas companhias nunca sequer consideraram o tema como uma pauta corporativa.

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O resultado da falta de atenção com a saúde menstrual de funcionárias recai diretamente sobre os ganhos na jornada laboral: as companhias perdem 22 dias de trabalho a cada 100 colaboradoras ao não oferecer um suporte adequado para minimizar os desconfortos menstruais. Os incômodos já fizeram com que 59,2% das mulheres deixassem de trabalhar nesses dias.

Os dados fazem parte da pesquisa conjunta "Menstruação e produtividade no trabalho", conduzida no Brasil pela multinacional sueca de produtos de higiene e saúde Essity, pelo indicador global Great Place to Work (GPTW) e pela consultoria de desenvolvimento profissional feminino Dalia, do México. As informações serão apresentadas em um evento nesta terça-feira, 19, em São Paulo (SP), e foram antecipadas ao Estadão.

Pesquisa aponta que apenas 8% das empresas no Brasil têm ações de bem-estar menstrual
Pesquisa aponta que apenas 8% das empresas no Brasil têm ações de bem-estar menstrual
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil / Estadão

A pesquisa foi aplicada a 1.688 pessoas por meio de um formulário eletrônico, entre maio e setembro de 2025, e ouviu também 80 empresas no mesmo período. As companhias mapeadas são dos setores de serviços, do comércio e da indústria. Quanto ao porte das empresas, 10% têm até 30 colaboradores, 21% possuem de 35 a 100, 35% têm de 101 a 500 e 30% contam com mais de 500 funcionários.

O mapeamento aponta que os impactos de bem-estar no período são significativos. Somente 1,9% das mulheres não sentem nenhum tipo de desconforto menstrual. Entre as demais, os incômodos mais frequentes são: alterações de humor ou irritabilidade (85,3%), cólicas (84,2%), cansaço (74%), inchaço e dor nos seios (65,2%), dor de cabeça (56,3%) e dor na lombar (53,9%). As entrevistadas podiam marcar mais de uma opção.

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A questão ganha ainda mais complexidade quando são avaliadas as consequências da redução de produtividade dessas mulheres devido à menstruação, com a conclusão de que é flagrante que há uma política de punição das empresas a essa diminuição temporária na produtividade.

O estudo mostra que uma em cada quatro entrevistadas já enfrentou algum tipo de consequência no trabalho relacionada à menstruação. Descontos salariais, discriminação, assédio laboral, negativa de promoção, negativa de aumento salarial e demissão foram relatados.

A porta-voz do estudo, Palmira Camargo, que é diretora de Comunicações e Assuntos Públicos da Essity na América Latina, explica que os dados demonstram um conjunto de fatores coexistentes que tornam o cenário negativo para as mulheres.

"Há muita falta de conhecimento, há tabus e há poucos estudos como esse que englobam o tema dos efeitos da menstruação na produtividade", diz. "E se não temos evidência, não podemos fazer mudanças sistêmicas."

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Palmira Camargo é diretora de Comunicações e Assuntos Públicos da Essity na América Latina
Foto: Essity/Divulgação / Estadão

Com a discriminação em torno do tema e a normalização do estado de desconforto da mulher nesse período, o ambiente dificulta que as mulheres possam se sentir à vontade para relatar os incômodos, fazendo com que o problema perdure e a negligência das empresas seja normalizada.

"(O desconforto é normalizado) porque não há condições no trabalho para que isso seja relatado, e (as mulheres) preferem dar qualquer outro pretexto, em vez de falar que têm uma dor menstrual incapacitante. Então, ocultam isso por medo", avalia Camargo.

O índice de compreensão das empresas sobre menstruação e produtividade é baixo para 65,4% das empresas, médio para 20,5% e alto apenas para 14,1%.

"É por isso que os dados são tão importantes", explica a gestora. "Se falarmos com as empresas usando números, demonstrando o impacto na economia e nos negócios, é aí que eles dirão que, sim, é importante. É por isso que, para nós, conectar esses números com a produtividade é relevante para resultar em ações."

Suporte básico

Segundo a pesquisa, o suporte considerado como necessário pelas mulheres para amenizar os desconfortos menstruais é simples e não requer grandes investimentos financeiros das empresas, mas sim, exige, principalmente, flexibilidade na jornada e oferta de medicamentos.

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A lista aponta para cinco medidas principais:

  1. Proporcionar flexibilidade laboral com ênfase nos dias de menstruação (como trabalho remoto, mediante avaliação médica);
  2. Disponibilizar analgésicos, absorventes ou outros materiais úteis;
  3. Permitir adequar o cargo laboral ao ciclo menstrual, mediante avaliação médica;
  4. Conceder licenças menstruais;
  5. Realizar palestras de conscientização sobre o tema.

O mapeamento aponta que empresas que oferecem algum tipo de suporte melhoram indicadores como produtividade e presença no trabalho, mostrando que condições mais adequadas garantem mais equidade de desempenho. Desse modo, só é possível avançar em diversidade e inclusão se esses pontos forem considerados, enfatiza a porta-voz.

"Muitas empresas buscam implementar políticas de igualdade, diversidade e inclusão, como, por exemplo, equidade em questões de raça, religião, idade e gênero. Mas, se realmente queremos que essas empresas se tornem inclusivas, não podemos ignorar a questão do apoio às mulheres durante essa importante fase da vida, que é a menstruação", defende Camargo.

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