Banco ligado à Universal cedeu à empresa carteira de financiamentos que tinha até carro roubado

Empresa de pastor que também atua no mercado financeiro vendeu operação de consignados ao Digimais e recebeu carteira de financiamentos com altos índices de perdas em pagamento. Negócio envolveu fundo de investimento. Banco não se manifestou

20 mai 2026 - 12h15

Em mais um movimento que tirou ativos podres de seus balanços, o banco Digimais, do líder da Igreja Universal, Edir Macedo, cedeu uma carteira de financiamentos veiculares que incluía até contrato rescindido judicialmente porque o carro vendido era roubado. A carteira foi repassada a um pastor de outra igreja em um negócio complexo envolvendo fundos de investimentos. Em troca, o banco devia investir em um negócio que envolvia a venda de imóveis por meio de crédito consignado. Mas o banco não teria depositado cerca de R$ 30 milhões prometidos.

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A Hatikvah Participações recebeu do Digimais, os direitos creditórios de uma carteira de financiamentos veiculares, no dia 30 de dezembro de 2025. Segundo um contrato obtido pelo Estadão, a empresa comprou a carteira por R$ 255 milhões. Em troca dela, a Hatikvah cedeu, inicialmente, ao banco 35% do Fundo de Investimentos em Participações (FIP) Hatikvah. Hoje, o banco já é dono de 97% do fundo, que, em sua carteira, investe em duas empresas de empreendimentos imobiliários de Gouvêa. O fundo declara que os aportes são de R$ 711 milhões.

A operação é complexa. Na prática, ao averiguar a carteira do fundo, o auditor vai se deparar apenas com o investimento do banco em duas incorporadoras. O fundo Hatikvah é novo e ainda não tem demonstrações financeiras auditadas disponíveis na base de dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), onde esse tipo de documento usualmente é analisado.

Mas o negócio faz com que os contratos de financiamento feitos pelo Digimais agora sejam cobrados pela empresa de Gouvêa. A empresa também vira titular de ações judiciais relacionadas a eles e precisa processar devedores para obter sentenças ou acordos pela quitação dos empréstimos.

Procurado pelo Estadão, o empresário afirmou que ofereceu ao Digimais a operação de empréstimos consignados a servidores públicos de municípios com os quais ele já tem contrato. O negócio, segundo ele, envolve a possibilidade de servidores usarem o crédito para financiar imóveis, que estão em construção nessas cidades e pertencem às duas empresas de empreendimentos imobiliários de Gouvêa.

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Contrato mostra como o Digimais é cotista do fundo que investe na empresa que comprou sua própria carteira de financiamentos veiculares.
Contrato mostra como o Digimais é cotista do fundo que investe na empresa que comprou sua própria carteira de financiamentos veiculares.
Foto: Reprodução / Estadão

Gouvêa disse que recebeu a carteira de empréstimos consignados como parte do pagamento do banco. Ele afirma que o Digimais devia ainda investir cerca de R$ 30 milhões no negócio. No entanto, freou toda a operação do consignado em meio à tentativa de venda ao BTG Pactual, mais recente pretendente à aquisição do banco. Afirmou ainda que está até hoje com a carteira, que tem alta inadimplência e que acredita ter tomado prejuízo com o negócio, mesmo após o negócio ter sido encerrado, pois o banco não pagou os R$ 30 milhões prometidos.

Em dezembro de 2025, O Digimais declarou apenas ter investido R$ 1,7 bilhão em Fundos de Investimentos em Participações (FIPs), como é o caso do Hatikvah. Na base de dados da Comissão de Valores Mobiliários, não constam laudos de auditoria do fundo. À época, em sua carteira, constavam apenas investimentos em letras do Tesouro. A auditoria do banco afirma que havia R$ 997 milhões em FIPs que ainda não tinham apresentado demonstrações financeiras para serem escrutinadas.

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