Na tela, uma mulher de cerca de 40 anos, de cabelos longos, com um vestido vermelho curto, parece segura em frente ao mar. Em off, a voz de seus pensamentos é feita sob medida para tantas outras mulheres de meia-idade. “Um dia a gente entende que a vida é feita de ciclos. As histórias têm um começo, um meio e um fim. Mas no amor, ninguém está preparado para esse fim. Mesmo a gente sabendo que é fundamental fechar o ciclo para abrir o caminho para uma nova história”. Antes que o público possa se recompor do longo suspiro, vem uma onda grande, a personagem em cena toma um caldo daqueles e sai rolando pelo mar. No áudio, as palavras reflexivas são substituídas pela trilha instrumental de uma comédia pastelão. Quem tentava refletir se pega no sofá rindo do infortúnio da protagonista.
A cena, que abre o primeiro episódio da série “Os Homens São de Marte…E É Pra Lá Que Eu Vou”, na Globoplay, de 2015, é um bom exemplo de como funciona a dinâmica do trabalho da atriz e escritora Mônica Martelli. A gente pensa e sente, sim, e até sofre o que tem que sofrer. Mas depois ri — e ri muito.
“Esse é o poder do humor e por isso que ele é tão soberano para mim. É possível falar de coisas sérias, mas aquilo chega no público de forma leve. Rimos daquilo com que nos identificamos. E, a partir desse momento, elaboramos essa dor e nos curamos também”, reflete em entrevista exclusiva para a Velvet. O público, espelhado na mulher de meia-idade da série, percebe que todo mundo toma seus tombos, mesmo quando quer se mostrar forte. E, depois de rolar à beira-mar literal e metaforicamente, se sente melhor.
“Coloco minhas dores, vulnerabilidades e tudo o que eu passo na minha vida no texto. As angústias, tristezas, alegrias, quedas… tudo isso está em meu trabalho”, conta. Só escreve, porém, no período posterior ao sofrimento. “Quando eu estou com dor de amor, estou jogada no chão sofrendo, entendeu?”, ela faz questão de dizer. Mas quando passa, tem vontade de rir de si mesma. Quem ganha são as milhares de pessoas que lotam teatros e cinemas no Brasil para rir também.
Às vezes o humor é tratado como uma coisa menor. Se eu faço você rir, como é que você me leva a sério, amor? Mas o humor para mim tá acima de tudo porque necessariamente nasce da sabedoria.
Era uma casa muito engraçada
Mônica foi educada para risadas. Desde a infância, em Macaé, no Rio de Janeiro, vive no que chama de “uma casa engraçada”. A mãe, Marilena Garcia, foi eleita a primeira vereadora mulher da cidade, aos 35 anos, nos anos 1980. “Ela fazia as sessões da Câmara Municipal com um penico na bancada, para protestar porque não tinha banheiro feminino no plenário. E já chegava em casa falando daqueles homens vereadores de uma forma muito divertida”, lembra a filha. Os irmãos também herdaram esse jeito de levar a vida. A mais nova, Susana Garcia, escreve com ela até hoje. Mônica narra histórias de um jeito engraçado desde que era jovem. “Acho que isso é natural. O humor não se ensina. Ou você tem o timing, ou não tem. É o humor quem te escolhe. Posso estar no parque de diversão, na fila com você, e vou narrar aquilo de uma forma engraçada. E você vai narrar como uma desgraça por estar debaixo do sol, sofrendo. É como a gente olha a vida”, ela diz.
A mãe e os irmãos mudaram-se para o Rio de Janeiro quando Mônica tinha 18 anos e, depois de quase cursar Direito, ela decidiu ir para os Estados Unidos estudar Dramaturgia. Lá, trabalhou como maquiadora para se sustentar. Na volta, até conseguiu alguns papéis na TV e no teatro, mas era a hora de coordenar a própria guinada. Escreveu a peça “Os Homens São de Marte... E É para Lá Que Eu Vou”, em 2005, e conseguiu, com a protagonista Fernanda, a identificação do público com a crise da mulher que não tem certeza se o casamento acabou e sofre com isso. Mas sofre fazendo rir.
O espetáculo, cujo título é inspirado no clássico da autoajuda “Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus”, escrito pelo terapeuta norteamericano John Gray, ficou nove anos em cartaz até virar a adaptação cinematográfica com o mesmo nome, em 2014. No elenco, o amigo Paulo Gustavo. Juntos, alcançaram o posto de filme mais visto daquele ano. A saga de Fernanda seguiu crescendo e virou a série televisiva descrita no início da reportagem, com quatro temporadas. E não acabou por aí: desde 2017, a Fernanda de Mônica segue com o monólogo “A Minha Vida em Marte”, que está em cartaz até hoje. Em 2018, foi novamente adaptado para o cinema, em nova dobradinha com Paulo. Nesses mais de 20 anos, acumulou prêmios como atriz e autora. Ufa.
A dor vem de todo o futuro que você planejou e que você não vai ter mais.
Uma vida em Marte
“A peça realmente é atemporal, porque fala de uma crise de casamento. A Fernanda tem medo de se separar e de ficar sozinha. Nós, mulheres, somos cobradas a ter um par. A gente se sente um ser faltante. É como se alguma coisa não desse certo na nossa vida se não tivermos um parceiro do lado”, reflete.
O tema também permeia o novo filme da atriz com Ingrid Guimarães, “Minha Melhor Amiga”, que estreia em setembro de 2026. Na história, a personagem de Mônica questiona a amiga se ela quer ficar seus próximos 40 anos em um casamento infeliz. Juntas, dão uma guinada em suas trajetórias.
“Quando a gente fala hoje de longevidade, é sobre viver até os 90 anos. Dá para descartar a segunda metade da vida?”, questiona. Para Mônica, esse é o motivo das conversas sobre menopausa terem virado mainstream.
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No sofá do “Saia Justa” que apresentou de 2013 a 2021, não tinha pudores ao mencionar os fogachos no ar. “Gente, parecia uma entidade na beira de uma fogueira chegando. Eu falei: ‘Meu Deus, o que eu tô sentindo aqui?’”, se diverte ao lembrar. “Há 8 anos, ninguém falava de menopausa. Todo mundo tinha vergonha, porque a menopausa sempre teve cheiro de velhice. E cheiro de velhice é final de vida. Mas é só o final da vida reprodutiva”, diz.
Mulheres como ela, falando sobre isso, incentivam outras a pensar se realmente querem passar o resto da vida com aquele marido, ou naquele trabalho.
Tem coisas das quais não dá para rir. Jamais faria piada em cima de violência contra a mulher em um país extremamente misógino, patriarcal em que a gente luta diariamente para estar viva só por ser mulher, por exemplo.
Romper com paradigmas de relacionamento
Mônica namora o empresário Fernando Altério há sete anos. “Moramos em casas separadas e só vejo meu namorado no final de semana. Claro que essa cultura que a gente vive me pressiona para casar. Aí eu paro e penso: ‘eu tenho que botar minha inteligência a serviço dessa relação. A relação está maravilhosa desse jeito’”, decreta. Nesse modelo, Mônica consegue decidir passar um feriado no Rio quando ele quer ir para o interior, mesmo que sejam questionados sobre não estarem juntos sempre. “A gente é resistência também. Manter um outro tipo de acordo dentro de uma sociedade que te fez acreditar nesse amor romântico, morando junto, é o único jeito e é difícil também”, diz.
Mas ela também vive as aventuras de uma mãe comum: Julia, sua única filha, completou 16 anos e elas vêm enfrentando as novidades da adolescência. “No sábado, esperá-la chegar às 3 horas da manhã de uma festa é novo para mim”, conta.
Recentemente, Julia colocou um piercing após um ano insistindo com a mãe. “Um dia ela perguntou por que um piercing no corpo dela me afetava tanto. Ela queria se expressar no mundo desse jeito. Era uma pessoa ali, que devo respeitar. Mas não é adulta ainda e tenho que impor limites, então, é difícil”, afirma sobre o desafio de ser autoridade e dar autonomia em proporções saudáveis.
Sempre segura, com a voz firme de quem soube traçar as guinadas de sua vida, o medo da atriz é não poder decidir seu destino. “A riqueza da vida é você poder fazer escolhas. Escolher quem você quer como seu parceiro, a vida que você quer, o que você quer fazer com o seu tempo e dinheiro”, diz em uma reflexão sobre a independência financeira feminina. “No mundo capitalista, isso me dá liberdade.”
O maior desafio que temos na vida, ela diz, é não se perder da gente mesmo. “Se vamos mudando a cada fase, nossos desejos também se transformam. Então é fundamental perguntar quem você é hoje”, reflete.
Não há como negar que os caldos que a gente toma da vida, como Fernanda em frente ao mar, nos ajudam a responder a essa pergunta. Depois, fica mais fácil rir de tudo — até de si mesma.