Ruy Castro conta bastidores da Academia Brasileira de Letras: "Lugar com personalidades de todos os pensamentos políticos. Ninguém discute, ninguém levanta a voz"

O escritor e colunista mergulha na arte de seu acervo analógico para trazer as referências que encantam leitores há décadas

22 jun 2026 - 04h59

Tempos atrás, o escritor Ruy Castro andava pelas ruas do Rio de Janeiro quando ouviu alguém passar de carro e provocar: “Voltando do botequim, hein?”. Não passava das 8h da manhã e o autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues não estava vindo de bar algum. Tinha saído cedo de casa, após uma noite de sono, e carregava na sacola os remédios que acabara de comprar na farmácia. Outros tempos.

Até os 50 anos de idade, Ruy passou boa parte da vida na madrugada. Um biógrafo, afinal, não poderia escrever tudo o que escreveu levando uma rotina trancafiada em um gabinete. Tem que viver a noite, defende ele, “com todas as peripécias que existem na madrugada, como amar, ser amado, trair, ser traído, correr da polícia, do marido de alguém, ficar doente, ser preso”, exagera. Ou não.

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Aos 78 anos, Ruy hoje anda mais recluso. “Saio menos de casa do que gostaria”, diz. Ao Maracanã, uma paixão antiga, o torcedor do Flamengo só vai uma vez por ano. “Isso quando tem jogo do Zico”, pontua, citando o amistoso de fim de ano organizado pelo ídolo de seu time do coração. “Faço parte da torcida Fla-Sofá”, brinca.

Da antiga rotina, Ruy preservou as caminhadas pelo calçadão do Leblon, onde mora com a companheira, Heloisa Seixas, até Ipanema. Nos finais de semana, o casal costuma perambular por bairros como Gávea, Cosme Velho, Laranjeiras, Lapa, Santa Teresa ou Copacabana. “Carioca não chateia ninguém na casa de ninguém. Nossa casa é a rua. Encontro todo mundo o tempo todo na rua. É impressionante”.

Eu só me decido a trabalhar em um assunto quando estou absolutamente convencido de que eu vou ficar apaixonado por ele até o último dia de entrega.

Cinema desde a primeira infância

O talento para a escrita foi descoberto logo cedo. Como Ruy já sabia ler e escrever desde os 4 anos, a dona da escola o dispensou das aulas. O combinado era que ele voltasse só no último ano, para tirar o diploma. Assim foi. “Aos 5 anos, eu tinha uma máquina de escrever e escrevia tudo o que viesse à cabeça, de cinema a futebol. Me dediquei esses anos todos a jogar pelada, namorar as amigas da minha irmã, ler e escrever”, ele conta.

O interesse pela cultura também data desse período. Ele se recorda de ir ao cinema todos os dias a partir dos 6 anos de idade. Na juventude, em 1965, estudou Ciências Sociais na Faculdade Nacional de Filosofia, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1965, e foi morar no bairro da Glória. Nunca atuou como cientista social, entretanto, e foi fisgado pelo jornalismo desde cedo. Desde 1967, já trabalhou em alguns dos principais veículos da imprensa brasileira — “Correio da Manhã”, “Manchete”, “Seleções”, “Jornal do Brasil”, TV Globo, “IstoÉ”, “Playboy”, “Status”, “Veja, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”.

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Ruy Castro
Ruy Castro
Foto: Divulgação / Velvet

O cinema, do qual é fã desde criança, aliás, é tema recorrente da coluna que ele mantém há quase 20 anos na Folha. Ele ocupa hoje o nobre espaço que já foi de Otto Lara Resende e Carlos Heitor Cony para escrever sobre o que quiser, desde que tenha um ponto de vista carioca. Sua obra literária abarca um conjunto de registros detalhados de diferentes épocas e contextos. “O Anjo Pornográfico”, descreve o autor, não é um livro sobre um jornalista, Nelson Rodrigues, mas sobre a história do jornalismo. E “Garrincha” fala menos sobre futebol do que sobre álcool. Ele, aliás, só topa a empreitada de contar a vida de alguém se tiver certeza de que vai se apaixonar e manter a empolgação até a última linha. “Nunca aconteceu de abandonar um projeto no meio depois de começar”, garante.

Paixão transmissível

Não é só a ele que os personagens biografados acompanham por anos. No livro “A Vida por Escrito”, um manual de como escrever uma boa biografia, Ruy Castro narra a história de um publicitário sequestrado, cujo nome não revela, que, ao ser libertado, disse em uma entrevista para a TV que seus grandes companheiros no cativeiro eram os personagens de “O Anjo Pornográfico”.

A repercussão e o reconhecimento do conjunto de sua obra lhe rendeu, em outubro de 2022, a cadeira de número 13 da Academia Brasileira de Letras, que ele faz questão de visitar ao menos uma vez por semana. “Me orgulho de estar ali sentado ao lado de pessoas que são a história do Brasil. É um lugar de ótima convivência, com personalidades de todos os pensamentos políticos. Ninguém discute, ninguém levanta a voz. As pessoas se respeitam, se admiram e se tratam muito bem. É um ambiente de colaboração.”

Projetos que nunca param

Quando escreve uma biografia, Ruy diz que sempre parte da pretensão de capturar a alma de seus personagens. Ocorre, porém, o contrário. Sua alma é capturada.

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Na pesquisa sobre Carmen Miranda, passava meses assistindo aos filmes de Greta Garbo, Norma Shearer e John Gilbert. Assistir às obras era uma maneira de ficar imerso na cabeça de sua personagem, que desenvolveu o sonho de ser artista vendo essas películas. Via também filmes que retratavam o universo em que ela viveu na Califórnia e em Nova York, prestando atenção nas cenas externas para ter uma ideia do ambiente físico. Hoje, o escritor está imerso em dois projetos, um deles secreto. O outro é o livro “Eu Gosto de Música — Samba, Carnaval, Bossa Nova e todo aquele Jazz”, que reúne cerca de cem colunas publicadas na Folha. Diz ter reunido ao longo da vida cerca de 6.000 títulos em DVDs e LaserDiscs. Tem em casa filmes anteriores aos dos irmãos Lumière, do começo do século passado. Streaming? “Nem sei nem pra que serve”, diz, desinteressado.

Ruy Castro
Foto: Divulgação / Velvet

Com os discos é a mesma coisa. Só de Bing Crosby, ele estima ter mais de 150 discos. Tem também a obra completa de Ciro Monteiro, Lúcio Alves, Dick Farney e Orlando Silva. “Não preciso de nada. Tenho tudo o que quero. Levei décadas comprando tudo o que queria, desde que eu tinha 10 anos, e não joguei nada fora”, conta. Estima ter hoje cerca de 3.000 LPs, que maneja com todo cuidado para não arranhar, e garante ter aprendido muito com os “textos maravilhosos” dos encartes, hoje peças de museu. Ele tem planos de organizar, em breve, um livro sobre os discos que retratam o Rio de Janeiro na capa — só em seu acervo existem mais de 300. “O Rio foi talvez a cidade do mundo mais fotografada para capas de LPs, mais até do que Nova York ou Paris. Eu tenho capas lindas feitas entre 1950 e 1970”, recorda.

Conhecer o ambiente e o cenário facilita demais a escrita. Não poderia falar de São Paulo como falo do Rio de Janeiro.

Cada um fala de seu quintal

Ruy conta que, ao longo da carreira, recusou inúmeras propostas para escrever livros baseados em São Paulo, cidade onde morou por 16 anos, teve “ótimos empregos”, se casou, saiu muito e virou até nome de prato de restaurante. “Foi o Paulicéia 22, em Pinheiros. Me botaram como ‘creme de aspargos’ — logo eu, que não sou chegado nem a cremes nem a aspargos. Devia ter alguma maldade embutida”, ironiza. Ainda assim, ele sente que só poderia escrever sobre o Rio. “Mesmo morando três anos em Portugal, continuava lendo jornais do Rio todos os dias, mesmo que chegassem atrasados.”

Ninguém poderia escrever a história da Bossa Nova sem ter morado no Rio e saber a diferença entre Copacabana e Ipanema — que não se distinguem apenas pelo CEP, mas também pelo espírito e pela composição social e humana. O personagem comum em toda a obra de Ruy é o Rio de Janeiro, assim como, lembra ele, é a Bahia para Jorge Amado, o Rio Grande do Sul para Érico Veríssimo ou Nova York para Paul Auster. “Cada um fala do seu quintal”, diz, categórico.

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Essa vivência é hoje matéria-prima tanto para as colunas quanto para os livros que ainda estão em produção. Por isso, garante, novidades como a Inteligência Artificial não o assustam. “A IA trabalha com dados que já existem a respeito de algum assunto. E meu trabalho é exatamente desencavar informações que não estão em lugar nenhum. Estão na cabeça das pessoas.”

Há 10 anos, quando alguém disse a Ruy que não haveriam mais objetos físicos, como discos, livros e DVDs, e que tudo isso em breve estaria em uma nuvem, ele debochou dizendo que quando essa nuvem chegasse, ele próprio estaria em uma delas. Uma década depois, o cronista está firme entre discos, livros e filmes físicos. Ainda mais premiado, e agora imortal.

Fonte: Velvet Conteúdos da revista Velvet
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