Nascida no Rio de Janeiro, Carollina Carreteiro, 34 anos, cursou Comunicação, já que não se via nas áreas de Medicina, Direito ou Engenharia, opções comuns entre seus amigos. A escolha do curso, não lhe dava clareza do que gostaria de fazer quando se formasse. Mas, num evento promovido por amigos, conheceu seu então namorado: Zeca Veloso, filho do cantor Caetano Veloso com a produtora Paula Lavigne. A partir da relação, seus horizontes se ampliaram e um universo cultural foi aberto para ela. “Embora tenha crescido viajando e frequentando museus, o contato com as artes era algo distante e não fazia parte da realidade da minha família", diz.
A relação que durou cerca de sete anos, expôs Carollina a convivências importantes, como a de Antonio Cícero e Jorge Mautner, além dos sogros, o que aguçou nela curiosidades até então adormecidas. Vendo o trabalho de Paula nos bastidores, entendeu que aquilo era o que queria fazer. “A Paula Lavigne foi uma mentora indireta para mim. Eu via ela cuidando dos bastidores, ajudando tudo acontecer e vi algo ali, pois sempre soube que o palco não era pra mim. Essas presenças ajudaram a construir uma percepção importante: realizar projetos criativos não era algo inalcançável".
Novos horizontes
Após a graduação, Carollina se mudou para Madrid para cursar mestrado em Gestão Cultural. Na cidade, estagiou em galerias e ampliou ainda mais a visão sobre o que a arte poderia ser. “Eu ia ao teatro toda semana sozinha e percebi que as coisas não precisavam ficar em caixinhas". A vivência abriu caminho para um interesse crescente pelas artes visuais contemporâneas, especialmente aquelas que exploram novas formas de presença e linguagem.
Como tinha muitos amigos em Berlim, Carreteiro ia com frequência à cidade conhecida pela cena artística pulsante. Tanto que no último ano do mestrado, se mudou para lá e foi quando compreendeu, de fato, como funcionavam as galerias comerciais. “Vi que era possível me cercar de tudo que me interessava. Eu sempre gostei da proximidade com o artista e nesta área consigo trabalhar diretamente com eles, manter o olhar criativo e desenvolver projetos".
Influenciada por nomes como Marina Abramović, Joseph Beuys e pelo movimento Fluxus, ela passou a enxergar a arte como uma ferramenta de leitura do mundo. Foi quando a palavra alemã Zeitgeist, expressão que significa “espírito do tempo”, passou a fazer sentido. “Entendi que meu papel era construir um palco para artistas visuais e conceituais, criando espaços para que as questões do presente fossem discutidas”, reflete.
O retorno ao Brasil
Apesar da forte conexão com a Europa, com a proximidade dos 30 anos, começou a questionar os rumos que estava dando a própria vida. Decidiu então retornar ao Rio de Janeiro. Na capital fluminense, trabalhou como produtora na ArtRio e em galerias como Nara Roesler e a Carpintaria. “Encontrei mentores fundamentais ao longo do caminho. Entre eles, a artista Adriana Varejão, cuja orientação teve papel importante em meu amadurecimento dentro do mercado. Muitas pessoas acreditaram em mim e me ensinaram muito", conta. O próximo passo Apesar de amar o ofício no Rio, Carollina queria ter a própria galeria e entendeu que na cidade o espaço já estava tomado. Foi quando decidiu se mudar para São Paulo. “Durante a pandemia, a cena artística brasileira mudou muito, com novos nomes chegando", conta.
Os primeiros projetos na cidade foram realizados de forma independente. Mas, em um almoço com um amigo, novamente o acaso agiu: o espaço ocupado por uma galeria no subsolo da sede do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) ficaria disponível. Em poucos dias, numa negociação rápida, ela ficou com o local: “Eu simplesmente entrei e coloquei as obras”.
Desde agosto do ano passado, a Ora ocupa o espaço, localizado em uma das áreas mais simbólicas do centro paulistano. Para a empresária, estar no centro de São Paulo vai muito além de uma escolha geográfica. “A região reúne arquitetura moderna, equipamentos culturais, restaurantes, cinemas históricos e iniciativas que vêm transformando o entorno. O próprio edifício carrega uma história relevante. É uma área muito especial, tem uma energia única”, conclui.
Ora
A escolha do nome da galeria diz muito sobre o que Carollina acredita e sobre como os encontros têm agido em sua vida: orar, hora presente. “Eu não queria uma galeria com meu nome porque quero que o centro sejam os artistas", comenta.
Atualmente, a galeria, que fica na Rua Bento Freitas, 306, conta com obras de Diana Motta, Iole de Freitas, Gi Monteiro, Anna Maria Maiolino, Oiticica, entre muitos outros, que estarão expostas até o início de julho. Tantos nomes emblemáticos na Ora em tão pouco tempo de existência da galeria, como diz Carreteiro, tem um porquê: “é uma iluminação divina, vocação".