Zeca Camargo já foi bailarino, repórter, editor, colunista e apresentador. Trabalhou em veículos como a Folha de S.Paulo, a MTV e a Globo, no Fantástico. Mas o predicado “amigo” vem antes dos outros. É assim que eu o apresento quando vou entrevistá-lo. E ele gosta disso, porque sabe que a amizade é um dos fatores mais importantes do nosso sucesso profissional. “Tudo que a gente constrói é com amizade, conexão e acesso. Se nos tornamos pessoas mais interessantes, é porque conhecemos pessoas mais interessantes. Amizade é darwinismo”, decreta. Cita durante a conversa vários companheiros de vida a quem chama de “núcleo duro”. No grupo, ele fala do jornalista Tony Goes, da turma da MTV, como Chris Couto, Astrid Fontenelle e Marina Person, e de muitos outros que foram agregados nesse caminho.
Zeca acredita que são as amizades também que guiam as afinidades. Quem se interessa por cultura, viagem e arte acaba andando junto. É verdade. Dá para dizer que Zeca é o melhor repórter de cultura do país. Ariano com ascendente em Leão, ele não tem preconceito com nada e vive atrás de novidades.
A curiosidade de Zeca permeia toda a sua carreira. Seu pai queria que ele seguisse a família e rumasse para a medicina. “Imagina o choque dele quando eu disse que queria ser bailarino? Larguei tudo e fui para a Índia”, ele se diverte. Zeca estudou e foi assistente do coreógrafo Ivaldo Bertazzo, com quem trabalhou por 12 anos a partir dos anos 1980. Paralelamente a isso, fez Administração de Empresas na FGV, diploma conquistado junto com o de Publicidade, na ESPM.
Mas foi quando recebeu o convite da Globo que tudo mudou. Ele, que costumava andar de metrô por São Paulo, passou a ser reconhecido nas ruas. “O público era mais nichado, adolescente. Na Globo, segui falando com esse adolescente, mas também com a tia-avó dele e com o gerente do banco. Ali eu podia falar de cultura com a seriedade do jornalismo impecável”, diz.
Não foi fácil de cara e, já no convite, tremeu na base. Foi a colega Fátima Bernardes quem deu o conselho que o guiou: “Ela perguntou se eu tinha medo das pessoas que estavam atrás da lente, que iriam assistir ao programa, e eu confirmei. Aí ela disse que não havia nada ali, só uma lente de vidro. É verdade. E eu relaxei. Até hoje penso que é só uma câmera”.
As chances na maior emissora do país foram aparecendo. Logo, apresentou o Fantástico, na folga de Pedro Bial. O cabelo comprido dos tempos de MTV ficaram para trás e, com o corte novo, surgiu um Zeca Camargo repaginado. Fez entrevistas internacionais e comandou o “No Limite”, no ano 2000, um marco para a TV brasileira. O programa, um dos primeiros realities de grandes proporções no país, inspirado no americano “Survivor”, chegou a alcançar 56 pontos de audiência. Um feito enorme.
Meu esforço não é me privar da vida pública. Eu adoro receber convites e ser bem recebido nos lugares. Mas a gente precisa desse núcleo, amigos e amores que vão te segurar.
AS REFERÊNCIAS
É a curiosidade que compõe o seu repertório. Em sua fala, ele vai das referências ao Studio Ghibli às grandes artistas plásticas brasileiras contemporâneas. Conta como garimpa arte pelas ruas, como a de artistas do norte do país, e que não sossega até convencê-los a fazer um grafite em sua casa. “Tudo me provoca”, diz, enquanto reconhece o talento das novas musas do pop, como Rosalía, a quem gostaria de entrevistar, e também cita referências jovens, como o trap. À cantora espanhola, aliás, ele rasga elogios. “Além de conhecer o primeiro produtor dela, gosto de entrevistados que pegam a pergunta na rede e cortam. Tem que estar sempre preparado”, ele diz, em metáfora aos jogos de vôlei.
Zeca escuta tanta novidade que se gaba de ter apenas 19 anos de idade segundo a retrospectiva do Spotify. Ele, que no RG tem 63, se renova, acompanha tendências e gosta de ser esse farol, e disse que notou que o público tinha um terço de sua idade em uma festa da qual foi DJ, em Belo Horizonte, em fevereiro. “Acho incrível a conexão com a música. Ela atravessa gerações.”
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Sua nova obsessão, entretanto, é o desdobramento de tudo que é brasileiro e latino. Passou o Carnaval em Recife, com a camiseta do Pitombeiras, como Wagner Moura em “O Agente Secreto”, e tem admirado o boom da latinidade. “Bad Bunny, Anitta e outros artistas merecem reconhecimento maior e estão tendo um espaço enorme. Isso é muito positivo. O fato de o Tiny Desk abrir uma franquia no Brasil é um sinal de que a nossa música é uma loucura”, ele diz.
Também lembra que não é só a música que tem se curvado ao que produzimos por aqui. Na Fundação Cartier de Paris, a quantidade de obras de brasileiros é marcante, entre os quais Luiz Zerbini, Adriana Varejão e Claudia Andujar, além de artistas do Vale do Jequitinhonha. Outro ponto alto citado na conversa foi a Bienal das Amazônias, que aconteceu primeiro no Pará e rodou a América Latina toda, posteriormente.
EXPERIÊNCIA DE DÉCADAS
Nesses 40 anos de carreira, as tantas mudanças na forma de comunicar, do impresso à TV, o ensinaram a ser verdadeiro: “A gente só ganha com honestidade. Se você quer ser respeitado, diga o que realmente sente”. Ele segue o conceito em mais um de seus projetos, o Clube do Livro que toca com Astrid Fontenelle. A escolha de um dos temas, a autobiografia de Gisèle Pelicot, “Um hino à vida”, que narra a violência sexual que ela sofreu do marido e de conhecidos dele, também parte do princípio de usar histórias que tocam de verdade — e não aproveitar a lista de mais vendidos apenas.
No Instagram, planeja criar uma série de posts sobre os livros que gostaria “de jogar na parede”: “Aqueles que tem frases tão boas que dão raiva, porque eu sei que nunca escreveria, e olha que eu sou bom nisso!”, conta gargalhando. Nas redes sociais, um post seu com tradução de um trecho de Shakespeare rende mais de 700 mil views. “Quero oferecer ao público coisas que eles não veem, pérolas garimpadas. Gosto de compartilhar descobertas que me fazem pensar que nunca vi isso”, reflete. Entre os exemplos, a inserção de uma perna cabeluda no filme “O Agente Secreto”, ou o filme mudo que Almodóvar insere em “Fale com Ela”. Surpresas que o inflamam.
Em um mundo cada vez mais tecnológico, Zeca não despreza a I.A. e acredita, inclusive, que podem surgir dali ideias geniais com o aprimoramento contínuo dos sistemas. “Mas a centelha é o ser humano que tem. Você pode pedir que a Inteligência Artificial escreva ‘Grande Sertão: Veredas’ na voz do Shakespeare e vai ficar bom porque os dois existem. Mas I.A. não cria do zero. O que me surpreende é uma coisa que nunca vi, senti ou degustei.”
Zeca segue buscando aquilo que nunca sentiu em garimpos cotidianos pelo mundo e dividindo afinidades com a turma toda. “Quem perder a curiosidade, envelheceu”, ele diz, mais jovem do que nunca.