De tempos em tempos, personagens ligados a crimes hediondos voltam a ocupar espaço nos noticiários e programas de entretenimento, reativando um debate incômodo: até que ponto a mídia contribui para transformar condenados em 'celebridades do crime' e qual é a responsabilidade do público nesse fenômeno?
Recentemente, o goleiro Bruno, responsabilizado pelo assassinato de Eliza Samúdio, reapareceu em um podcast onde reafirmou sua inocência.
Suzane von Richthofen, levada à Justiça pelo homicídio dos próprios pais, voltou ao noticiário — incluindo matéria no respeitado ‘Jornal da Band’ — em razão de uma disputa envolvendo a herança de um tio.
Esses episódios reacendem críticas sobre a valiosa visibilidade concedida a figuras cuja notoriedade está diretamente ligada a mortes brutais.
O argumento mais recorrente é que histórias a respeito de crimes chocantes despertam curiosidade e garantem audiência.
Em um cenário de competição intensa por atenção, narrativas com forte carga emocional e personagens já conhecidos tendem a gerar engajamento imediato, seja na televisão, em portais de notícias ou nas redes sociais.
Há também o interesse do público em consumir esse conteúdo sombrio. Uma parcela, aliás, chega a reverenciar os protagonistas de casos policiais, interagindo no perfil digital deles e pedindo selfies ao encontrá-los.
Ficções sobre as histórias sangrentas, a exemplo da trilogia cinematográfica sobre Suzane (‘A Menina que Matou os Pais’, ‘O Menino que Matou Meus Pais’ e ‘A Menina que Matou os Pais: a Confissão’) atraem numerosos espectadores.
É justamente esse ponto que provoca desconforto em parte da sociedade. Anos atrás, em entrevista à jornalista Leda Nagle, a autora Gloria Perez foi enfática ao rejeitar qualquer possibilidade de desenvolver uma obra ficcional sobre o caso do goleiro Bruno. “Jamais, nunca, nunca”, afirmou.
“Bruno é um psicopata crudelíssimo, cometeu um crime atroz e está querendo voltar para a mídia, se vender. Qualquer coisa que você escreva, só vai ajudar ele nisso.”
A dramaturga imaginou como o atleta agiria. “Ele indo naqueles programas de tarde para criticar a escalação do elenco, dizer que a cena tal não foi bem assim, seria isso.”
Leda questionou se haveria interesse em Suzane von Richthofen. “Não, eu sou contra. Acho que certos casos podem dar documentários, mas ficção em cima não é legal.”
A fala da dramaturga ganha peso adicional pela própria experiência. Mãe da atriz Daniella Perez, assassinada em 1992 pelo colega de elenco Guilherme de Pádua, ela liderou uma mobilização que resultou na inclusão do homicídio qualificado na lista de crimes hediondos.
Gloria aceitou participar da série documental 'Pacto Brutal: o Assassinato de Daniella Perez', da HBO Max, por ser um registro histórico, mas disse que não gostaria de ver uma ficção sobre a tragédia da filha.
O pensamento dela é o mesmo de parte do país: a prioridade deve ser honrar as vítimas e discutir as consequências sociais dos crimes, e evitar a promoção da imagem dos réus sentenciados.
A discussão levanta um dilema ético complexo para o jornalismo e o entretenimento: a cobertura estendida e a ficcionalização desses casos atende ao interesse público ou apenas explora a curiosidade coletiva?
Entre o direito à informação e o risco da espetacularização, a questão permanece sem resposta definitiva.