'A Nobreza do Amor': Autores detalham trama da nova novela das seis e explicam suas intenções

Com Lázaro Ramos, Duda Santos, Erik Januza e Nicolas Prattes no elenco, trama vai partir de um reino africano e chegar em um Brasil dos pequenos poderes

16 mar 2026 - 19h46

Uma novela escrita a seis mãos, mas que sabe exatamente para onde quer apontar. Assim é A Nobreza do Amor, a nova novela das seis da TV Globo.

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Criada e escrita por Duca Rachid, vencedora do Emmy por Órfãos da Terra e Joia Rara, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr., ambos parceiro de Duca em Amor Perfeito, a trama se passa nos anos 1920, entre o reino de Batanga, na África, e Barro Preto, no Rio Grande do Norte, ponto brasileiro mais perto do continente africano. Localidades fictícias, mas que vão falar sobre ancestralidade e a formação do povo brasileiro, com sua cultura e religiosidade.

Em Batanga, o tirano Jendal, primeiro vilão de Lázaro Ramos, conquista o reino por meio de um golpe. Com isso, a rainha Niara (Erika Januza) e a princesa Alika (Duda Santos) partem rumo ao Brasil. Em Barro Preto, tomam contato com o desconhecido, uma outra forma de governo e o racismo, e passam a se chamar Vera e Lúcia.

A novela seguirá até seu final - serão 203 capítulos - com histórias paralelas entre Batanga e Barro Preto, inclusive a de amor, que une Alika ao jovem trabalhador Tonho (Ronald Sotto), romance o qual o bon-vivant Mirinho (Nicolas Prattes) tentará impedir.

Niara (Erika Januza) e Alika (Duda Santos) assumem novas identidades em Barro Preto.
Niara (Erika Januza) e Alika (Duda Santos) assumem novas identidades em Barro Preto.
Foto: Estevam Avellar/TV Globo/Divulgação / Estadão

O elenco ainda traz nomes como Cássio Gabus Mendes, Thereza Fonseca, André Luiz Miranda, Danton Mello, Zezé Motta, Rita Batista, Fabiana Karla, Marcelo Médici, Bukassa Kabengele e Paulo Lessa.

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Em conversa com o Estadão, os autores explicam como A Nobreza do Amor fala sobre os dias atuais e chamam atenção para o fato de Alika e Niara serem duas refugiadas, que trocam de nome ao chegarem ao Brasil em busca de justiça para elas e para sua terra.

A ancestralidade é um dos principais temas da trama. Como isso será mostrado e como ele se conecta com os dias atuais?

Duca Rachid - A ancestralidade será mostrada por meio da nobreza africana. Buscamos esse ineditismo: falar sobre uma África nobre, com cultura, história e ritos de nobreza. Nossa intenção é mostrar ao público — e a nossa população, em sua maioria, é mestiça e negra — que, de onde ela vem, existe uma nobreza. Porque, em geral, as representações da África são de um continente pobre, pátria de escravizados. O colonialismo provocou essa representação. É um tema mais atual do que nunca.

Júlio Fischer - Vamos repensar o Brasil por meio de uma novela de época. É hoje que temos que pensar nessa ancestralidade que nos habita, saber o quanto a história pode mobilizar o público hoje.

Elísio Lopes Jr. - Me lembrei de um provérbio: Exu matou um pássaro hoje com a pedra que ele jogou ontem. O que vivemos hoje, os buracos e as lacunas, e tudo que tentamos combater e melhorar no mundo, nossas dores e nossa nobreza, nascem com os nossos ancestrais. Vamos colocar essas figuras em posições centrais e mostrar o que elas falam, vivem e amam.

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As religiões de matriz africana já fizeram parte da teledramaturgia brasileira — e até foram protagonistas. Hoje, não mais. Como a religião será mostrada em 'A Nobreza do Amor'?

Elísio - É uma novela muito sincrética. E foi assim que as religiões de matrizes africanas sobreviveram e se fortaleceram no Brasil. Atualmente, o que você tem de culto do candomblé, nos terreiros, é uma transformação do que era feito em África. Essa foi a forma de sobreviver a um período de hegemonia branca.

Duca - Aliás, existem nos terreiros uma tendência de acabar com o sincretismo, de se assumir, de chamar tudo pelo nome. Não vamos falar de nenhuma religião em específico. Teremos algumas referências, mas não é o tema central.

O elo nessa ancestralidade são Alika, a princesa africana, e Tonho, o nordestino de Barro Preto. Como será o encontro deles?

Duca - São dois protagonistas que vão se descobrir parte da mesma história.

Zezé Motta, como Dona Menina, será uma espécie de reserva dessa ancestralidade, é isso?

Júlio - Sim. Ela tem uma memória ancestral, uma ligação forte com a natureza, e visões dessa ancestralidade. Nem ela compreende muito bem. Ela é artesã, molda santos em barro. Não é uma personagem com qualquer tipo de proselitismo religioso. Não professa nenhuma religião específica.

Elísio - É uma figura muito popular no nordeste, que é benzedeira, rezadeira, parteira, que conhece as folhas.

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Zezé Motta como Dona Menina em 'A Nobreza do Amor'
Foto: TV Globo/Divulgação / Estadão

Um dos pontos de conflito será a princesa Alika e a rainha deixando a África e chegando ao Brasil para encontrar uma realidade bastante diferente da que viviam. O que elas encontrarão nesse novo mundo?

Júlio - Elas se deparam com o racismo, que não conheciam, e a questão sobre como o poder era exercido em uma cidadezinha do Nordeste brasileiro. Alika era uma princesa que tinha uma responsabilidade muito grande com seu povo, um comprometimento com o bem-estar das pessoas. Será um choque para ela.

Elísio - Sempre que elas se depararem com o racismo, nós respondemos a questão no mesmo capítulo, como a ideia de que não valorizamos esse ato. Alika sai do macro, que são as questões do reino, e vai para o Brasil, lidar com as questões do micro poder, das mesquinhezas. É um jogo bastante interessante. É o pequeno Brasil, uma visão crítica sobre ele.

Alika e a mãe são refugiadas. Fogem de um tirano. Estamos em um momento de muitos conflitos no mundo, sobretudo no mundo árabe, e também na América Latina. A função de uma novela também é debater essas questões ou ela deve ser puro entretenimento?

Duca - Escrever uma novela é uma grande responsabilidade. Jamais conseguiria escrever uma novela que não tivesse um propósito. Minha história como autora mostra isso. Claro, fazemos entretenimento, queremos que as pessoas vejam, se divirtam, porém é importante tocar em alguns temas. Com Órfãos da Terra, o público entendeu que refugiados não são foras da lei, muito pelo contrário. E mais: entenderam que qualquer um de nós, de uma hora para outra, pode ser um refugiado. Se um louco desses resolve entrar no Brasil e fazer uma guerra aqui...É a questão do século, infelizmente.

Júlio - O público gosta desses debates, tem interesse. Não podemos jamais subestimá-lo. O público quer ser provocado, quer que sua inteligência seja respeitada. Em Amor Perfeito lançamos algumas pautas e o telespectador pegou. A gravidez psicológica, por exemplo, gerou conversas e debates.

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A trama segue com o reino de Batanga e com o distrito de Barro Preto até o final, com tramas paralelas?

Duca - Sim, até o final. É a novela mais difícil que já escrevi.

O Brasil também consome novelas turcas, que carregam no melodrama e flertam com a estética cinematográfica, e as novelas asiáticas, que conquistaram o mundo pop, e que muitos dizem assistir porque são livres de violência. Esse gêneros estão influenciando a forma de escrever novela no Brasil?

Duca - De alguma forma, sim. Talvez as temáticas. Mas não dá para você se afastar muito do folhetim. Acredito muito no melodrama como meio de atingir as pessoas. Falar sobre assuntos que importam. É mais eficaz do que um discurso, uma obra política, engajada.

Elísio - Nosso público é expert em novela. Quando a novela não é boa, não engaja, o telespectador deixa muito claro aquilo que não o agradou. Escrever e emocionar o público diariamente é um desafio.

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