Quando surgiu a foto de Vinícius Júnior após a tal ‘naturalização facial’ (seria a gourmetização da harmonização?), a resposta nas redes sociais foi previsível: comparações, piadas, elogios e críticas.
Como quase sempre acontece quando uma figura pública altera a própria aparência, o debate ficou restrito ao ‘antes e depois’.
O assunto é mais profundo do que a simples remodelação do queixo de um dos jogadores mais famosos do planeta.
A mudança estética de Vini Jr. diz menos sobre vaidade e mais sobre um desejo humano universal: ser admirado e aceito.
Vivemos uma época em que sucesso financeiro, fama e prestígio deixaram de ser suficientes.
As pessoas querem mais. Buscam a validação social. Não basta agradar aos mais próximos, o objetivo é impressionar positivamente a multidão.
O espelho quase nunca devolve apenas um reflexo, mas também a expectativa sobre o que a sociedade vai enxergar.
Psicanalista focado na falta eterna de alguma coisa sentida pelo ser humano, Jacques Lacan afirma que o desejo nunca nasce de maneira isolada, está sempre baseado no olhar do outro.
O sujeito compra mansões, carros luxuosos, joias gigantescas, roupas caras, tem milhões de fãs, mas, no íntimo, uma pergunta continua a incomodar e fragilizar.
“Sou alguém digno de admiração?”
O ‘ter’ nunca é suficiente quando há dúvida sobre o ‘ser’. E quase sempre haverá. A pessoa não se contenta como se vê. Ela quer a aprovação a partir da percepção alheia.
Os procedimentos estéticos alimentam a esperança de mudar para melhor a maneira como a pessoa é avaliada pelo mundo.
No caso de homens como Vini Jr. há ainda a questão racial, impossível de ser ignorada.
No Ocidente, os padrões de beleza foram construídos privilegiando características da população europeia.
Homens pretos e pardos não foram apenas excluídos desses modelos estéticos, mas também rotulados de feios e até repulsivos.
Basta relembrar as piadas pejorativas sobre a aparência de Vini postadas e compartilhadas quando ele começou a namorar a branca e loira Virginia.
Houve um inconformismo geral: como uma mulher tão bonita se interessaria por um homem como ele?
Leia-se: de pele tão escura, nariz largo, lábios grandes, cabelo crespo. Ele destoa da figura do homem atraente no imaginário feminino.
Ainda há quem jure de pés juntos que o romance não passa de uma jogada de marketing para autopromoção de ambos.
Não é possível afirmar que a transformação facial do jogador tenha sido motivada exatamente pela razão antes descrita, mas o anseio por legitimação se tornou comum entre homens negros bem-sucedidos.
Fazer-se mais bonito para ser mais aceito. Um pouco, pelo menos. E ‘mais bonito’ significa tentar se aproximar de um estereótipo.
Nas redes sociais, muita gente comentou que Vini Jr. agora está “à altura” de Virginia, com quem reatou o namoro. É o tipo de comentário que muitos homens gostariam de ler sobre si mesmos.
Espelho, espelho meu…
A sociedade do espetáculo e do consumo vende a ilusão de que sempre existe uma versão melhor de nós.
O resultado é uma corrida que nunca acaba em direção à hipotética perfeição estética.
Atualmente, os homens estão tão ansiosos quanto as mulheres.
Implanta cabelo, ‘lipa’ a barriga, aumenta o peitoral, diminui o nariz, estica o rosto, define as mandíbulas…
A cada procedimento, novas fotos são publicadas, acompanhadas da expectativa silenciosa por aprovação.
Como se cada curtida fosse um certificado provisório de beleza. O problema é que nenhuma validação obtida nas redes sociais possui longo prazo de validade.
Não raro, o sujeito perde a noção de quem é, como aponta a teoria do sociólogo Charles Horton Cooley.
“Eu não sou o que penso que sou; não sou o que você pensa que sou; sou o que penso que você pensa que sou.”