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'Corisco & Dadá': O cangaço como alegoria simbólica do Brasil

Chico Díaz e Dira Paes em Corisco & Dadá, de Rosemberg Cariry, filme que retratou o casal do cangaço como figuras míticas

21 ago 2026 - 11h58
Resumo
Lançado na Retomada do cinema nacional, "Corisco & Dadá" (1996), de Rosemberg Cariry, destaca-se por transformar o cangaço em alegoria mítica e poética. Em vez do rigor factual, a obra foca no imaginário popular, no cordel e na força simbólica do sertão, equilibrando a dimensão lendária com a humanidade do casal vivido por Dira Paes e Chico Díaz. Mesmo menos lembrado comercialmente que seus contemporâneos, o filme permanece como um marco autoral singular e potente do cinema brasileiro.

Os anos 1990 marcaram a retomada do cinema brasileiro. Após a crise provocada pelo fechamento da Embrafilme no início da década, uma nova geração de filmes recolocou a produção nacional no circuito internacional e reconquistou o público. Títulos como Carlota Joaquina (1995), O Quatrilho (1995), Baile Perfumado (1996), O Que É Isso, Companheiro? (1997) e Central do Brasil (1998) ajudaram a definir esse renascimento. Em meio a esse movimento, Corisco & Dadá, lançado em 1996, acabou ocupando um lugar mais discreto. Trinta anos depois, o longa de Rosemberg Cariry ainda não desfruta do mesmo reconhecimento de muitos de seus contemporâneos, embora permaneça como uma das obras mais singulares daquele período.

'Corisco & Dadá' O cangaço como alegoria simbólica do Brasil (Divulgação)
'Corisco & Dadá' O cangaço como alegoria simbólica do Brasil (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

Se boa parte dos filmes do período buscava dialogar com um público mais amplo ou revisitar episódios históricos sob uma perspectiva mais convencional, Cariry optou por um caminho menos óbvio. Corisco & Dadá não pretende apenas contar a história do último grande líder do cangaço e de sua companheira. Seu interesse está em transformar esses personagens em figuras quase míticas, aproximando o cinema da tradição oral, da literatura de cordel e da religiosidade popular do sertão. E essa é sua maior qualidade.

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Rosemberg Cariry demonstra um domínio raro da geografia e da cultura nordestinas, filmando o sertão não como um cenário, mas como uma força que molda seus personagens. A caatinga deixa de ser pano de fundo para se tornar parte da narrativa, carregando uma presença quase espiritual. Nascido no município de Farias Brito, na região do Cariri cearense, o diretor conhece profundamente aquele universo e faz dessa intimidade o principal diferencial do filme.

A maneira como ocupa os espaços reforça constantemente essa proposta. Em diversos momentos, Corisco e Dadá aparecem sozinhos em meio à vastidão da caatinga ou às margens de rios, cercados por um vazio que parece infinito. São imagens de enorme força plástica, que diminuem os personagens diante da paisagem e, ao mesmo tempo, os elevam à condição de lenda. O sertão de Cariry nunca é apenas geográfico; é simbólico. Cada plano parece sugerir que aqueles homens e mulheres pertencem menos ao mundo da história do que ao da memória coletiva.

É justamente essa dimensão de fábula que diferencia Corisco & Dadá de tantas outras representações do cangaço. O filme não está preocupado em organizar cronologias ou reproduzir fatos com precisão documental. Seu compromisso é com o imaginário. O cangaço aparece como um território onde violência, misticismo, paixão e resistência coexistem, transformando figuras históricas em personagens quase arquetípicos.

Ao mesmo tempo, Cariry jamais perde de vista a humanidade de seus protagonistas. Em meio às perseguições e aos conflitos, o relacionamento entre Corisco e Dadá ocupa o centro da narrativa. A história de amor impede que o filme se transforme em um desfile de episódios heroicos. Há espaço para a fragilidade, o medo e a cumplicidade, lembrando que, antes de se tornarem mitos, aqueles personagens eram pessoas tentando sobreviver em um mundo cada vez mais hostil.

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O filme também ocupa um lugar importante na trajetória de seu elenco. Para Dira Paes, vivendo Dadá, foi um dos primeiros grandes papéis no cinema, revelando uma atriz que, nas décadas seguintes, se tornaria uma das presenças mais consistentes da produção brasileira. Ao seu lado, Chico Díaz entrega um Corisco intenso e inquieto, consolidando uma relação com o universo do cangaço que ganharia novo capítulo no mesmo ano, ao interpretar Benjamin Abrahão em Baile Perfumado, outro marco da retomada e uma das leituras mais inventivas desse período histórico.

Talvez o destino de Corisco & Dadá tenha sido justamente o de permanecer à margem dos grandes holofotes. Lançado ao lado de obras que conquistaram maior repercussão comercial e internacional, o filme nunca alcançou o mesmo espaço na memória popular. Ainda assim, três décadas depois, sua força permanece intacta. Não apenas por revisitar um dos capítulos mais fascinantes da história brasileira, mas por fazê-lo através de um cinema profundamente autoral, que encontra na paisagem, na cultura popular e na força de suas imagens uma forma de transformar história em mito.

Rolling Stone Brasil
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