Tecnécio-99: o que é o material radioativo envolvido em incidente em SP e quais os riscos à saúde?

Especialista ouvido pelo 'Estadão' explica como o elemento é produzido e as implicações após a Comissão Nacional de Energia Nuclear confirmar que dois trabalhadores foram submetidos a exames

12 jun 2026 - 18h41

A confirmação de um incidente envolvendo traços de tecnécio-99 no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, levantou dúvidas sobre o elemento químico, seus usos na medicina e os riscos à saúde. Segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o caso ocorreu durante a retirada de sensores biológicos de uma máquina de esterilização utilizada no processo produtivo de um radiofármaco.

A Universidade de São Paulo (USP), responsável pelo campi da Cidade Universitária, e o Ipen não responderam às tentativas de contato do Estadão.

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O 2º vice-presidente do Conselho Federal de Química, Wilson Botter, explicou que o tecnécio é um elemento químico radioativo utilizado principalmente na medicina diagnóstica.

"Ele é um elemento radioativo e artificial da tabela. Existe natural também, mas esse que nós usamos é produzido artificialmente a partir do molibdênio." Segundo Botter, o molibdênio também é radioativo e, ao emitir radiação, transforma-se em tecnécio. O processo faz parte da chamada desintegração radioativa, fenômeno em que um elemento químico se converte em outro ao liberar energia.

Pesquisa com radiofármacos no Ipen, um dos institutos beneficiados.
Pesquisa com radiofármacos no Ipen, um dos institutos beneficiados.
Foto: Marcio Fernandes/Estadão / Estadão

Por que o tecnécio é usado na medicina?

De acordo com o especialista, uma das principais características do tecnécio é seu curto tempo de meia-vida, duração de apenas 6 horas. Segundo Botter, isso significa que a substância perde rapidamente sua atividade radioativa, característica que favorece seu uso em exames médicos.

O elemento é empregado principalmente em cintilografias, exames que permitem visualizar órgãos e tecidos por meio da emissão de radiação detectada por equipamentos específicos.

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O especialista explica que o tecnécio é associado a substâncias que possuem afinidade com determinados órgãos ou tecidos. Após a aplicação no paciente, a radiação emitida pelo elemento é captada por detectores e processada por softwares capazes de gerar imagens do local examinado.

"Você injeta o tecnécio no organismo, esse tecnécio vai estar ligado a uma molécula que os ossos, quando é cintilografia óssea, ou o coração, quando é um exame cardiológico, têm afinidade."

Quais são os riscos da exposição?

Botter afirma que materiais radioativos podem causar danos ao organismo quando há exposição suficiente para afetar células e moléculas do corpo. "Essa energia pode aquecer o material, pode destruir ligação química." Segundo ele, em situações mais intensas, a radiação pode provocar alterações celulares e até mutações no DNA.

"Quando você altera a estrutura do DNA dentro da célula, essa célula pode começar a produzir uma célula mutante, porque ela tem um DNA diferente, e essa célula mutante a gente chama de câncer."

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Apesar disso, o especialista afirma que a gravidade dos efeitos depende da intensidade da exposição, da quantidade de material envolvida e do tempo de contato.

"Mas veja, essa radiação do tecnécio é de baixa energia, são raios gama, e não para você ter uma ação muito intensa de produzir a mesma situação que aconteceu com o urânio em Goiânia, você precisa de alta exposição, alta exposição, uma dosagem muito grande."

O que se sabe sobre o caso do Ipen?

O incidente envolveu dois trabalhadores, que foram submetidos a exames in vivo (Contador de Corpo Inteiro). As contagens de radioatividade detectadas foram baixas e demonstraram que não houve contaminação interna. A contaminação ficou restrita à área controlada do Centro de Radiofarmácia do instituto, segundo a CNEN.

Botter afirma que, com base nas informações divulgadas até o momento, não considera o episódio grave. O especialista ressalta ainda que profissionais que atuam em laboratórios e centros de produção de radiofármacos trabalham sob protocolos rigorosos de segurança.

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"Esse tipo de contaminação não costuma ser grave, porque os técnicos são treinados, os técnicos sabem com o que eles estão lidando", disse.

Ele também destacou a importância dos profissionais da química na produção de radiofármacos e em processos relacionados ao uso seguro de materiais radioativos na área da saúde.

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