Cientistas descobrem cemitério de baleias no Oceano Índico a mais de 7 mil metros de profundidade

Fenda reúne carcaças e ossos com mais de 5 milhões de anos, que servem de abrigo para invertebrados

11 jun 2026 - 09h10
(atualizado às 09h21)
Uma região do Oceano Índico se tornou um cemitério de baleias há mais de 5 milhões de anos
Uma região do Oceano Índico se tornou um cemitério de baleias há mais de 5 milhões de anos
Foto: Reprodução/Nature

Uma região do Oceano Índico se tornou um cemitério de baleias há mais de 5 milhões de anos, e reúne carcaças e ossos de milhares de cetáceos a cerca de 7 mil metros de profundidade, tornando-se um abrigo para animais invertebrados. A descoberta foi relatada por um artigo publicado na quarta-feira, 10, na revista científica Nature.

O “cemitério” acabou virando um verdadeiro ecossistema com o passar do tempo, e é lar para espécies únicas, que surgiram em torno dos restos mortais dos mamíferos aquáticos. A descoberta foi feita com o uso de submersíveis chineses, que mapearam parte da floresta submarina de esqueletos, na chamada zona de fratura Diamantina, no Oeste da Austrália.

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Os detalhes sobre a biodiversidade marinha deste local foram detalhados no estudo pelo cientista Xiaotong Peng, do Instituto de Ciência e Engenharia do Mar Profundo da Academia Chinesa de Ciências. As “chuvas de baleias”, ou em inglês “whale falls”, são os sepultamentos desses animais, e foram encontradas 500 em uma faixa de 1.200 km de comprimento ao longo da região. O local teve sua geologia moldada pelo processo de separação entre a massa continental da Austrália e a Antártida há cerca de 50 milhões de anos.

Essa é a “chuva de baleia” com maior profundidade encontrada até hoje. As que foram encontradas antes tinham profundidades de poucos metros, a 4.000 metros. No entando, pesquisadores identificaram "chuvas" consideradas ativas, isto é, em condições que sustentam o florescimento de pequenos ecossistemas em torno dos esqueletos, a quase 7.000 m da superfície do oceano. Há ainda fósseis de baleias em profundidades ainda maiores.

Baleias-bicudas

Estudo detalhou animais invertebrados encontrados nas carcaças de baleias
Foto: Reprodução/Nature

Segundo a Nature, a maior parte dos esqueletos de baleias pertence às baleias-bicudas, um subgrupo que inclui animais de até 13 metros de comprimento, e tem aparência que lembra golfinhos, com corpo extremamente alongado.

Pouco estudadas, as baleias-bicudas são excelentes mergulhadoras, e caçam invertebrados como lulas em profundidades de até alguns quilômetros. A estratégia para sobreviver, porém, tem seus riscos. A pressão da água sobre esses animais pode explicar as mortes e o afundamento dos cadáveres.

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Outra justificativa para a concentração das “chuvas de baleias” na região é o relevo submarino. No local, há uma espécie de funil que pode ter confinado os corpos das baleias em um local estreito. 

As baleias-bicudas possuem um crânio mais maciço que de outras espécies, e por isso se decompõem mais devagar, o que pode ser mais uma justificativa para a fossilização relativamente mais fácil.

Há também outras espécies de baleias no “cemitério”, como uma baleia-minke-antártica (Balaenoptera bonaerensis), com cinco metros de comprimento. Esqueletos mais recentes tiveram seus ossos cobertos com uma espécie de tapete de micróbios marinhos, de forma densa e esbranquiçada, segundo o estudo.

Invertebrados de vários tipos e tamanhos se instalaram em volta do local e até dentro dos ossos. Esses animais se alimentam da gordura interior dos ossos das baleias.

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Outras espécies

Pesquisadores chineses identificaram cerca de 20 espécies no local, a maioria possivelmente nova para a ciência. Entre os habitantes estão bivalves (parentes dos mariscos) que vivem em simbiose com bactérias, diversos tipos de ofíuros, semelhantes a estrelas-do-mar, mas com "patas" que se locomovem de maneira diferente, bem como esponjas e anêmonas.

As anêmonas chamaram atenção pela preferência por ossos mais antigos, usados como rochas, para se fixarem neles. Outra surpresa do estudo foi a grande quantidade de invertebrados. Em alguns pontos, a densidade populacional chega a ser de quase 3.000 indivíduos por metro quadrado.

Fósseis de espécies extintas desconhecidas

Tipos de ossos identificados mostram que há espécies extintas de baleias desconhecidas no local
Foto: Reprodução/Nature

Além das possíveis novas espécies marinhas, os pesquisadores concluíram que algumas baleias fossilizadas correspondem a espécies extintas, até então desconhecidas. No estudo publicado pela Nature, foi batizada a espécie Pterocetus diamantinae, um tipo de baleia-bicuda, e ao menos duas outras baleias extintas, a P. benguelae e a Izikoziphius rossi.

As amostras dos fósseis das duas últimas foram datadas pelos pesquisadores, usando um método baseado em variantes do elemento químico estrôncio. As idades aproximadas foram de 5,26 milhões de anos para a P. benguelae e de 2,44 milhões de anos para a I. rossi.

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Considerando a abundância das “chuvas de baleias” e a capacidade de invertebrados explorarem ao máximo os recursos oferecidos pelas baleias mortas, os autores do estudo propõem que as descobertas podem trazer pistas importantes sobre como ambientes mais profundos do oceano se apresentam com o passar do tempo.

A ideia é que as carcaças de baleias funcionam como uma “faixa de pedestres” das profundezas, permitindo que os invertebrados se adaptem às condições e encontrem novos recursos, como achar parceiros, espalhando as espécies por mais áreas do oceano.

Fonte: Portal Terra
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