Quando conversamos com a IA, com quem estamos conversando, na verdade?

A inteligência artificial entrou em nossas vidas com tamanha rapidez que nos restou pouco tempo para compreender como ela altera a maneira como pensamos e nos relacionamos uns com os outros, escreve o psicoterapeuta George Chiriacescu

31 out 2026 - 10h10
(atualizado às 12h12)
Resumo
A inteligência artificial transformou-se em um interlocutor cotidiano incansável, paciente e persuasivo, com quem desabafamos sobre vida pessoal e dilemas. No entanto, essa interação constante levanta um alerta crítico: ao nos sentirmos compreendidos, corremos o risco de não obter uma perspectiva real e diversa, mas apenas um espelho altamente agradável que valida e reforça nossas próprias crenças preexistentes, moldando silenciosamente a maneira como pensamos e nos relacionamos com o mundo.
Com a IA conversacional, algo novo está acontecendo: o interlocutor já não precisa ser inteiramente imaginado.
Com a IA conversacional, algo novo está acontecendo: o interlocutor já não precisa ser inteiramente imaginado.
Foto: Imagem: Matthias Bein/dpa/picture alliance / Xataka

Hoje, podemos ter uma conversa de duas horas com alguém que nunca se cansa, nunca fica entediado, nunca perde a paciência e — se não tivermos cuidado — pode explicar, com uma capacidade de persuasão extraordinária, exatamente por que estamos com a razão.

Contamos a essa entidade sobre nosso trabalho, nossa vida amorosa, conflitos com pessoas próximas ou decisões que temos adiado há meses; ao final, podemos nos sentir ouvidos, compreendidos e, talvez, até um pouco mais sábios.

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No entanto, vale a pergunta: será que realmente descobrimos uma nova perspectiva, ou apenas passamos duas horas em uma conversa muito agradável com as nossas próprias crenças preexistentes?

A inteligência artificial entrou em nossas vidas com tamanha rapidez que tivemos pouco tempo para compreender como ela altera a forma como pensamos e nos relacionamos com os outros. Falamos sobre as profissões que ela transformará, a autonomia desses sistemas e a possibilidade de que, um dia, eles se tornem mais inteligentes do que nós.

Enquanto isso, deparamo-nos com algo muito mais próximo do nosso cotidiano: um interlocutor que está quase sempre disponível, fala a nossa língua e acompanha o nosso raciocínio com um nível de paciência que poucos seres humanos conseguiriam oferecer no dia a dia.

Ao contar a nossa história, também escolhemos o que incluir nela

Suponha que tenhamos tido uma discussão com nosso parceiro ou parceira. Estou chateado, sinto que fui tratado de forma injusta e explico a um assistente de IA o que ...

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