O planeta onde poderíamos voar apenas movendo os braços

Cada vez mais se descobrem exoplanetas com condições muito diferentes das da Terra; o Kepler-138d é um exemplo que nos leva a pensar em mundos nos quais seria até possível voar

21 jul 2026 - 10h33
(atualizado em 22/7/2026 às 08h58)
O Kepler-138d despertou grande interesse porque, apesar de ter um tamanho semelhante ao da Terra, parece ter uma densidade muito menor, sugerindo que poderia conter enormes quantidades de água e materiais leves a ponto de ter sido identificado como um potencial "mundo oceânico". Zoteva/Shutterstock
O Kepler-138d despertou grande interesse porque, apesar de ter um tamanho semelhante ao da Terra, parece ter uma densidade muito menor, sugerindo que poderia conter enormes quantidades de água e materiais leves a ponto de ter sido identificado como um potencial "mundo oceânico". Zoteva/Shutterstock
Foto: The Conversation

A busca por exoplanetas, que orbitam outras estrelas que não nosso Sol, mudou nossa maneira de entender o Universo. Por muito tempo, os astrônomos classificaram os planetas usando como referência os mundos do Sistema Solar. Os milhares de exoplanetas descobertos nas últimas décadas, no entanto, revelaram uma diversidade muito maior do que se esperava. Entre eles se destaca o Kepler-138d, um planeta situado a cerca de 200 anos-luz de distância da Terra que poderia pertencer a uma categoria completamente diferente de tudo o que se conhece em nossa vizinhança cósmica.

Um mundo oceânico

O Kepler-138d despertou grande interesse porque, apesar de ter um tamanho semelhante ao da Terra, parece ter uma densidade muito menor. Os dados sugerem que ele poderia conter enormes quantidades de água e materiais leves, a ponto de ter sido identificado como um dos candidatos mais promissores a mundo oceânico. Se essa interpretação estiver correta, estaríamos diante de um planeta cuja estrutura interna e condições ambientais poderiam diferir radicalmente das terrestres.

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E isso leva a uma pergunta fascinante: se existem mundos tão distintos do nosso, será que poderiam existir alguns onde os seres humanos fossem capazes de voar apenas movendo os braços?

Foto: The Conversation

Ilustração da estrela Kepler-9 e de dois de seus exoplanetas, caracterizados por suas densidades excepcionalmente baixas. NASA, Jet Propulsion Laboratory/California Institute of Technology, Ames Research Center

O ambiente importa tanto quanto o corpo

A resposta intuitiva é não. Nós, seres humanos, não temos asas e nossa anatomia não foi projetada para o voo. Mas essa conclusão depende em grande parte das condições físicas da Terra.

Nosso planeta combina uma gravidade relativamente intensa com uma atmosfera que, embora seja suficiente para que pássaros e aviões voem, não oferece o suporte necessário para que uma pessoa consiga se manter no ar apenas com a força de seus próprios braços. Por isso, precisamos de tecnologias que compensem essas limitações.

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Mas a física do voo não depende apenas do organismo. Depende também do ambiente.

Os dois ingredientes do voo humano assistido

Para imaginar um mundo em que uma pessoa pudesse voar movendo os braços, são necessários dois ingredientes fundamentais.

O primeiro é uma gravidade relativamente baixa. Quanto menor for a atração gravitacional de um planeta, menor será também o peso de qualquer objeto situado em sua superfície. Os saltos serão mais altos, as quedas mais lentas e permanecer no ar será muito mais fácil.

O segundo ingrediente é uma atmosfera densa. Quando o ar contém mais matéria, os movimentos geram forças aerodinâmicas mais intensas. Cada superfície exposta ao fluxo de ar produz mais sustentação e pode permanecer suspensa com maior facilidade.

A combinação desses dois fatores muda completamente as regras do jogo. Em um planeta com gravidade moderada e uma atmosfera especialmente densa, uma pessoa equipada com simples membranas para planar poderia se deslocar pelo ar de forma surpreendentemente eficiente. Os movimentos dos braços e das pernas ajudariam a manter a altura, aproveitar as correntes atmosféricas e prolongar o tempo de voo.

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Não seria um voo como o das aves, mas algo a meio caminho entre pular, planar e navegar pelo ar.

Voar sempre foi o sonho da Humanidade. Wikimedia Commons
Foto: The Conversation

O que o Kepler-138d nos ensina

O Kepler-138d é especialmente interessante porque demonstra que existem mundos com propriedades físicas muito distintas das terrestres. Sua baixa densidade sugere uma composição rica em água e materiais leves, algo que, até poucos anos atrás, quase não aparecia nos modelos planetários mais comuns.

Embora ainda saibamos poucos detalhes sobre sua atmosfera, esse planeta poderia representar uma das primeiras amostras de uma família de mundos onde as condições ambientais diferem profundamente daquelas que encontramos na Terra. Os chamados mundos oceânicos poderiam ter atmosferas extensas e ambientes físicos muito diferentes daqueles que estamos acostumados a imaginar.

Justamente por isso o Kepler-138d nos convida a pensar em possibilidades que antes pareciam reservadas à ficção científica. Se existem planetas com composições tão distintas, também poderiam existir mundos onde a combinação de gravidade e atmosfera favoreça formas de mobilidade impossíveis em nossa Terra.

Nesse contexto, o voo humano assistido deixa de ser uma fantasia absurda para se tornar uma consequência plausível de determinadas condições físicas.

Um Universo cheio de possibilidades

A imagem de uma pessoa subindo lentamente enquanto move os braços pode parecer algo saído de um romance de fantasia. Mas isso não contradiz nenhuma lei da natureza. O único requisito é um ambiente adequado.

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O Kepler-138d não é importante porque sabemos exatamente como ele é, mas porque nos lembra que a Terra representa apenas uma das muitas maneiras possíveis de se formar um planeta. Cada novo exoplaneta descoberto amplia nossa visão do que pode existir no Universo.

Talvez alguns desses mundos tenham atmosferas tão densas e condições gravitacionais tão favoráveis que voar seja quase tão natural quanto andar. Talvez os habitantes desses planetas aprendam a planar desde crianças e considerem o deslocamento aéreo uma habilidade cotidiana.

À medida que descobrimos mais mundos como o Kepler-138d, fica cada vez mais evidente que muitas das limitações que consideramos naturais são simplesmente consequência de vivermos em um planeta específico. Em algum lugar da galáxia poderia existir um mundo onde o antigo sonho humano de voar não exigisse motores nem asas artificiais. Bastaria estender os braços e deixar que o planeta fizesse o resto.

The Conversation
Foto: The Conversation

Carlos Vázquez Monzón não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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