Crise de água na Espanha ameaça abastecimento agrícola da Europa

13 out 2026 - 05h47
Resumo
A Espanha, fornecedora de 25% dos vegetais da Europa, vive uma grave crise hídrica gerada pela agricultura intensiva, mudanças climáticas e milhares de poços ilegais que secam o Parque de Doñana. Sob pressão da União Europeia, o país combate o furto de água, lacra poços e aplica um plano bilionário com foco em irrigação eficiente por gotejamento e restauração ecológica para tentar salvar seus aquíferos sem paralisar o abastecimento alimentar continental.

País produz até 25% das frutas e verduras da Europa. Mas, em meio à agricultura intensiva, às mudanças climáticas e aos poços ilegais, a água necessária para o cultivo está se esgotando.O Parque Nacional de Doñana, no sudoeste da Espanha, uma das áreas úmidas mais importantes da Europa, lar de milhões de aves migratórias e de espécies ameaçadas como o lince-ibérico, está secando. Mas o aumento das temperaturas e a seca provocados pelas mudanças climáticas são apenas parte do problema.

Culturas como o morango têm drenado os recursos hídricos da Espanha
Culturas como o morango têm drenado os recursos hídricos da Espanha
Foto: DW / Deutsche Welle

Protegida pela Unesco, a região na costa atlântica depende de um aquífero subterrâneo que vem sendo explorado por centenas de poços ilegais. O motivo: o abastecimento europeu de frutas e hortaliças. A Espanha fornece um quarto dos produtos frescos consumidos na Europa, abastecendo as regiões mais frias do continente com frutas e verduras durante todo o ano.

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A escala da extração de água na Espanha é impressionante: em 2016, a ONG WWF Espanha estimou que a área úmida de Doñana abrigava mais de mil poços ilegais e mais de 1,7 mil reservatórios que irrigavam ilegalmente uma área equivalente a 4,2 mil campos de futebol.

"Fica mais quente a cada ano. E a água seca muito rapidamente", disse à DW um morador de El Rocío, cidade ao norte das áreas úmidas.

"Para mim, no dia a dia, a principal questão são os meus animais", afirmou outro morador, enquanto prendia seu cavalo a uma carruagem turística. "Preciso buscar água para eles, mas o poço não tem água suficiente para fornecer tudo de uma vez."

Morangos são lucrativos, mas têm um custo

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A região de Doñana era originalmente uma área de caça da realeza, composta por pântanos e lagoas. No início do século 20, partes da área passaram a ser usadas para agricultura de sequeiro, técnica usada em regiões áridas e com uso quase exclusivo de água de chuva.

Mas, em 1971, a Espanha, então sob a ditadura do general Francisco Franco, declarou a irrigação da região de interesse nacional. O Plano Almonte-Marismas, batizado em referência ao aquífero explorado, fazia parte de um enorme esforço estatal para aumentar a produção de alimentos.

As autoridades decidiram apostar nos morangos, que chamavam de "ouro vermelho". Segundo cálculos baseados em dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), os morangos podem gerar receita bruta de até 150 mil euros (aproximadamente R$ 886 mil) por hectare ao ano contra cerca de 20 mil euros (R$ 118 mil) para batatas ou 15 mil euros (R$ 88,6 mil) para uvas.

Mas cultivar morangos em larga escala também exigia muito mais água. As autoridades distribuíram cotas e concessões generosas, aparentemente sem considerar quanto o aquífero seria capaz de suportar. Mesmo essas cotas legais não eram suficientes para os campos em constante expansão.

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Os agricultores recorreram a poços e reservatórios ilegais para compensar a diferença. Eles foram construídos para armazenar água, drenando recursos hídricos de moradores da região e do sítio vizinho declarado Patrimônio Mundial da Unesco.

"Houve uma seca extrema e falta de atenção por parte da administração pública", disse Pedro Bañez, da associação de usuários de água do condado. "E acabamos com várias propriedades rurais, ou partes delas, situadas fora das áreas classificadas como terras agrícolas irrigáveis."

Polícia e ONGs rastreiam ladrões de água

O ponto de virada ocorreu em 2019. Após inúmeras denúncias sobre poços irregulares, uma criança de dois anos caiu em um poço profundo, supostamente ilegal, em uma propriedade rural próxima a Málaga e morreu. Depois disso, a Guarda Civil espanhola criou unidades especializadas em roubo de água.

Dois anos depois, em 2021, o Tribunal de Justiça da União Europeia decidiu que a Espanha havia falhado na proteção do aquífero de Doñana e concluiu que o país violava a legislação europeia.

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Hoje, a polícia e organizações como a WWF Espanha monitoram a extração ilegal, tanto em Doñana quanto em outras regiões agrícolas sobrecarregadas do país, usando uma combinação de ferramentas antigas e modernas. O trabalho começa com imagens de satélite da região, comparadas com mapas de direitos de uso da terra para identificar áreas mais verdes do que seu status legal permitiria. Em seguida, drones dão aos investigadores uma visão mais detalhada da origem da água utilizada.

Alguns poços são totalmente ilegais. Outros são legais, mas retiram mais água do que o permitido, algo que exige inspeções presenciais para ser comprovado.

Os investigadores verificam os hidrômetros que medem quanta água está sendo retirada de um poço. Fraudes são comuns, frequentemente com o uso de ímãs potentes que interferem no mecanismo interno dos medidores, permitindo que a água passe sem ser registrada.

Agricultores flagrados fazendo extração ilegal podem ser acusados de crimes ambientais e fraude. A maioria recebe multas, mas as penas podem chegar a cinco anos de prisão.

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Governo e agricultores tentam combater desperdício de água

Na tentativa de reverter décadas de uso excessivo, autoridades locais e nacionais negociaram um plano conjunto de 1,4 bilhão de euros (R$ 7,8 bilhões).

O governo continuou fechando poços ilegais, lacrando quase 300 apenas na região de Doñana.

As autoridades também começaram a comprar propriedades rurais, recuperando áreas naturais e transformando-as em zonas protegidas, além de criar fundos para gerar empregos em outros setores, como turismo e energia renovável.

Enquanto isso, os agricultores tiveram de mudar a forma como irrigam suas plantações.

Muitos adotaram sistemas de irrigação por gotejamento, nos quais cada planta recebe seu próprio gotejador, combinado com sensores de umidade que informam exatamente de quanta água ela necessita. Isso reduz o desperdício tanto de água quanto de fertilizantes.

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Os agricultores também passaram a cultivar produtos menos intensivos em água e a transferir parte da produção para os meses mais frios do ano.

Soluções para garantir água

A Espanha não está sozinha diante desse problema. À medida que as economias amadurecem, a produção de frutas e hortaliças tende a ser transferida para lugares com mão de obra mais barata, menos restrições e mais sol.

México, Brasil e Colômbia produzem alimentos para partes dos Estados Unidos, enquanto países do Sudeste Asiático exportam grandes quantidades de produtos agrícolas para China e Japão. Alguns países do norte da África, entre eles Marrocos e Egito, também abastecem seus vizinhos europeus com frutas e hortaliças frescas. Mas, assim como ocorre na Espanha, a agricultura intensiva tem pressionado os recursos hídricos locais.

O Marrocos tentou reverter essa tendência usando comparações por satélite para monitorar a irrigação e oferecendo subsídios a agricultores que migram para sistemas de gotejamento. Na Índia, o governo busca incentivar o cultivo de espécies menos dependentes de água.

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Na Califórnia, Estados Unidos, o governo pagou agricultores para interromper determinados tipos de irrigação e aprovou legislação destinada a monitorar e distribuir a água de forma mais sustentável.

Garantir o abastecimento de água, que já não é visto como um recurso ilimitado, será um desafio cada vez maior à medida que os efeitos das mudanças climáticas se intensificarem. Enfrentar a superexploração exigirá um esforço coordenado de governos, agricultores e das indústrias que dependem dessa água.

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