Como derretimento de gelo na Groenlândia faz baleias migrarem para áreas antes inacessíveis

O derretimento do gelo marinho causado pelas mudanças climáticas abriu caminho para que baleias gigantes realizem "frenesi alimentar" na região.

24 ago 2026 - 06h22
Resumo
O derretimento do gelo marinho devido às mudanças climáticas abriu caminho para milhares de grandes baleias, como jubartes e minkes, ocuparem a costa leste da Groenlândia no verão. Atraídos pelo aquecimento das águas e pela oferta de presas, esses mamíferos adaptaram suas rotas para se alimentar em áreas antes inacessíveis. Contudo, essa profunda alteração ecológica ameaça espécies nativas do Ártico, como narvais e belugas, que acabam perdendo espaço ou sendo deslocadas em seu habitat.
Baleias-comuns se alimentam nas águas livres de gelo do leste da Groenlândia, enquanto cientistas observam de seus barcos
Baleias-comuns se alimentam nas águas livres de gelo do leste da Groenlândia, enquanto cientistas observam de seus barcos
Foto: Fernando Ugarte / BBC News Brasil

O gelo marinho tem desaparecido do leste da Groenlândia, permitindo que baleias gigantes aproveitem a oportunidade e se desloquem para áreas antes inacessíveis.

Essa é a conclusão de um estudo que durou décadas e registrou com imagens centenas das maiores baleias do mundo, incluindo baleias-jubarte, baleias-minke e baleias-comuns, se alimentando em mares sem gelo ao longo da costa durante o verão.

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Nenhum desses mamíferos marinhos nadava por essas águas no passado, pois estavam impedidos de acessar as águas costeiras devido ao gelo. Agora, com as mudanças climáticas aquecendo o mar e derretendo esse gelo, os animais se adaptaram.

Os cientistas classificam o fenômeno como períodos sazonais de intensa atividade alimentar no Ártico, reflexo de uma profunda mudança nas condições oceânicas ao largo do leste da Groenlândia.

Uma baleia-jubarte se alimentando em águas costeiras subárticas
Foto: Fernando Ugarte / BBC News Brasil

A mudança é drástica: os levantamentos realizados a partir de navios na região não registraram um único avistamento de baleia-jubarte até 2006.

Em 2007, foram avistadas sete baleias-jubarte e, em 2024, já havia 150 avistamentos desses animais gigantes a partir de navios.

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Os primeiros levantamentos aéreos sistemáticos de baleias-de-barbatana — um grupo que inclui baleias-comuns, baleias-minke e baleias-jubarte — ao largo da costa leste da Groenlândia — foram realizados pelos pesquisadores durante os verões de 2015 e 2024.

Eles combinaram essas informações com os rastros de 15 baleias marcadas com transmissores via satélite e depoimentos de caçadores inuítes, construindo um panorama do que o pesquisador principal, Mads Peter Heide-Jørgensen, chamou de "grande mudança no regime ecológico".

Estima-se que 4 mil baleias-jubarte, 6 mil baleias-comuns e 6 mil baleias-minke visitaram o Mar da Groenlândia no verão de 2024.

Em algumas baleias, os pesquisadores colocaram dispositivos de rastreamento por satélite para acompanhar seus movimentos sazonais
Foto: Fernando Ugarte / BBC News Brasil

Heide-Jørgensen, do Instituto de Recursos Naturais da Groenlândia, disse à BBC News que as mudanças na região são "provavelmente as mais radicais que podemos ver em qualquer lugar no subártico".

Essa mudança é impulsionada pelo aumento da temperatura da água do mar e pela disponibilidade de alimentos. As baleias parecem estar se alimentando de peixes que migraram para as águas mais quentes do leste da Groenlândia.

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Eles estimaram que as três espécies de baleias consumiriam pelo menos 800 mil toneladas de peixes e krill durante a temporada de alimentação de verão.

Enquanto algumas baleias se beneficiam do aquecimento das águas, espécies do Ártico como os narvais estão perdendo habitat
Foto: Carsten Egevang / BBC News Brasil

Este estudo não deixa claro se a mudança reflete um aumento geral nas populações dessas espécies de baleias ou apenas uma redistribuição a partir de outras áreas.

Outros especialistas consultados pela BBC manifestaram preocupação com o fato de o estudo sugerir uma entrada maciça de animais provenientes da Groenlândia Ocidental. Essa é uma questão delicada na Groenlândia, país onde algumas baleias são caçadas.

Mas os cientistas afirmaram que suas descobertas sugerem que essas baleias-de-barbatana "oportunistas" parecem estar se adaptando e podem até estar se beneficiando da mudança.

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Outras espécies do Ártico, no entanto, estão "em apuros agora", explicou Heide-Jørgensen.

Animais como narvais e belugas estão compartilhando o habitat com essas outras baleias, ou até mesmo sendo deslocados por elas.

"Para algumas espécies, as mudanças climáticas não são necessariamente um problema - elas abrem novas oportunidades", disse Heide-Jørgensen, "mas outras espécies estão perdendo seu habitat".

O estudo foi publicado na revista Frontiers in Marine Science.

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