'A desinformação virou uma coisa profissional': conheça cientistas que caçam charlatões usando humor

Laura Marise e Ana Bonassa, divulgadoras de ciência à frente do 'Nunca vi 1 cientista', são destaque no São Paulo Innovation Week

6 mai 2026 - 12h13

A cada dia, uma nova "ameaça" à saúde aparece no feed: um alimento que supostamente faz mal e você não sabia ou uma conspiração internacional fantasiosa envolvendo um produto. Pipocam também soluções milagrosas, suplementos mágicos, remédios caseiros inéditos. E sementes de dúvida sobre aquilo que a ciência já comprovou há muito tempo, como as vacinas ou o aquecimento global, são plantadas a todo momento.

Publicidade

Está cada vez mais difícil separar o joio do trigo na enorme lavoura de desinformação que virou a internet, onde é preciso ter cuidado mesmo com perfis de pessoas que se identificam como profissionais.

Mas, desde 2018, a tarefa ganhou o reforço da bioquímica Laura Marise e da bióloga Ana Bonassa. À frente do projeto "Nunca vi 1 cientista", elas desmentem com bom humor os principais boatos que levam as pessoas a adotar práticas e crenças prejudiciais ou sem fundamento e ensinam a desconfiar da origem da informação. São "caçadoras de charlatões", título que virou até história em quadrinhos contra a desinformação, publicada em neste ano.

Elas estarão no São Paulo Innovation Week, o maior festival global de tecnologia e inovação, promovido pelo Estadão. O evento será entre 13 e 15 de maio na Faap e na Arena Pacaembu com mais de 2 mil palestrantes.

O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos. Assinantes podem comprar ingressos com 35% de desconto: para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.

Publicidade

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

A gente tem hoje uma enxurrada de desinformação sobre saúde e conteúdos anticientíficos que têm muito alcance nas redes sociais. Como essas coisas chegam até vocês e como filtram aquilo que merece atenção?

Laura Marise - Tem muita coisa que chega pelos próprios seguidores. Tem coisas que a gente fica sabendo contra a nossa vontade, porque eles realmente mandam muita coisa para tirar dúvida ou só pra gente ficar sabendo que aquilo está acontecendo. Outras coisas vêm do nosso consumo de redes mesmo, a gente acompanha para entender o que os assuntos que estão em alta podem trazer de pauta para o nosso canal.

O que não dá para falar individualmente, gente junta num combo que chamamos "top surtos", para as pessoas entenderem que aquilo realmente não faz sentido. A gente seleciona os que são mais compartilhados para fazer esse formato que o pessoal já espera todo mês.

Ana Bonassa - O filtro é basicamente se está muito viral e prejudica a vida das pessoas. Não dá para fazer conteúdo de tudo. Agora, com a IA, é humanamente impossível combater todos, nem se juntar todos os divulgadores científicos.

Então, a gente escolhe, vai tentando fazer uma triagem e apagar incêndios, se (a desinformação) está impedindo as pessoas de fazer algum tratamento ou fazendo jogar comida fora. Tem muito disso de terrorismo nutricional: "tem verme na banana", "o chocolate é feito de látex".

Publicidade

O canal nasceu em 2018. De lá para cá, vocês sentem que a desinformação amadureceu, ficou mais sofisticada? É mais difícil hoje desmentir uma informação falsa, estamos mais vulneráveis?

Ana - A desinformação virou profissional. Hoje qualquer pessoa consegue abrir um perfil e colocar qualquer coisa nas redes, então ficou muito mais fácil colocar informação e desinformação. E estando no mesmo lugar parece que está em pé de igualdade, é como colocar um terraplanista para discutir com um cientista, um astrônomo. Faz parecer que existe debate (sobre a Terra ser redonda), mas não existe. A comunidade científica tem um consenso e tem três "Zé Ruelas" que falam o contrário. E aí as pessoas ficam confusas, não dá para culpar.

Laura - Também teve uma mudança em quem está gerando essa desinformação. Antigamente, uma mensagem citando uma pessoa aleatória, o médico fulano de tal, que provavelmente nem existe, falando sobre um chá para curar gripe. A gente saiu disso para um lugar em que profissionais de saúde criam perfis em que eles espalham a desinformação. Isso também gera essa percepção de que cada um fala uma coisa, porque a pessoa entende que um profissional da saúde automaticamente teria que estar comprometido com a saúde das pessoas, e a gente vê que na prática não é assim que funciona. Muitos profissionais acabam chegando nas redes sociais só para ganhar dinheiro e usam a desinformação como ferramenta. A gente entrou num cenário em que é difícil mostrar para as pessoas quem é que está trazendo desinformação, porque nem sempre é tão óbvio.

Tem profissionais que postam a desinformação com pequenas doses de informação correta e aí as pessoas ficam cada vez mais confusas. Então, tem ficado mais difícil, ficou um trabalho bem mais árduo.

Ana Bonassa e Laura Marise: não é verdade que brasileiro não gosta de ciência; as pessoas só se sentem distantes dela, dizem
Ana Bonassa e Laura Marise: não é verdade que brasileiro não gosta de ciência; as pessoas só se sentem distantes dela, dizem
Foto: Lucas Ghitelar/Estadão / Estadão

O que levou vocês da carreira de pesquisadoras a virar comunicadoras? Qual foi o estalo para querer falar com mais gente?

Laura - A gente vem de dois backgrounds diferentes, que acabaram convergindo no projeto. Eu tinha um trabalho voluntário no mestrado, em que fazia presencialmente o que a gente faz na internet hoje, com um grupo de gestantes.

Publicidade

Apesar de existirem até divulgadores científicos que propagam que brasileiro não gosta de ciência, a gente não vê isso na prática. As pessoas só não gostam de se sentir enganadas. Quando a gente mostra para elas o que está acontecendo, se sentem interessadas. Ali eu entendi que tinha um buraco a ser preenchido com informação, mas uma informação que tinha que ser mais acessível. Mas isso foi muito antes da internet como é hoje, eu não tinha muita ferramenta para criar nada.

Essa ideia ficou adormecida até a gente se conhecer numa competição de comunicação de ciência que não existe mais, o FameLab, em que você tinha 3 minutos para explicar um conceito científico de forma que qualquer pessoa pudesse entender. A gente viu que tinha ideias muito similares e que podia transformar isso num projeto. A Ana já tinha começado um canal dela e a gente embarcou juntas.

É possível criar conexão com quem está na defensiva ou contra a ciência?

Laura - É um trabalho de tentar chegar nessas pessoas sem julgamento. Acontece um fenômeno que a gente consegue mensurar só pelos comentários que recebe, de pessoas que descobriram o canal e quando começaram a assistir, não gostaram, porque a gente dizia coisas que iam contra o que elas tinham ouvido ou acreditavam. Mas elas ficaram e foram entendendo o que a gente queria dizer. Não estamos aqui para dizer como você tem que viver a sua vida, estamos apresentando as informações para que você não seja enganado por outras pessoas.

Ana - É bem difícil, mas não impossível. Se ela tiver contato só uma vez com o conteúdo e clicar em "não tenho interesse", aí, perdemos. Mas, se ela for mais exposta, pelo cansaço, talvez dê.

Publicidade

Laura - Às vezes a pessoa tem muita certeza de uma coisa e quando vê uma visão embasada que diz o contrário, planta uma dúvida na cabeça dela. E aí talvez na próxima vez que ela for analisar alguma coisa, faça isso com um pouquinho mais de senso crítico. A gente vê que dá, mas é um trabalho difícil.

Quais as estratégias para não cair na conversa dos charlatões online?

Laura - Desconfiar de coisas que as pessoas estão tendo contato pela primeira vez. De onde vem essa informação? Quem é essa pessoa? Por que ela está falando disso, ela tem um interesse financeiro por trás? Qual a formação científica dela, ela tem qualificação para falar sobre isso?

É um trabalho também não só falar da informação, mas de como ela é construída. Isso é muito importante para as pessoas conseguirem decidir no que confiar, a partir de várias dicas que a gente vai dando.

Tem a ver com explicar como é a metodologia científica. A ciência é feita muito mais de perguntas do que de respostas. Se uma pessoa está afirmando algo com muita certeza, mas não deixou nenhuma fonte, será que está certo? Ou se essa pessoa já está dando sinais de que não está interessada em informar, mas em viralizar?

Publicidade

As pessoas falam "sou formado no Nunca vi 1 cientista", porque começam a reparar na estratégia (de desinformação).

Vocês usam bastante o humor nessa comunicação. Como fazem para equilibrar essa descontração e a construção de credibilidade? Ou não tem conflito nenhum nisso?

Ana - A gente costuma falar que divertido não é o contrário de sério, divertido é o contrário de chato. Dá para ser divertido, sério, comprometido, embasado, dá para fazer tudo isso, não precisa ser chato. Na nossa visão, não tem problema em equilibrar essas duas coisas.

Laura - E o humor é uma ferramenta importante de aprendizado, as pessoas aprendem mais quando se divertem, tem estudos que mostram isso. Trazer as pessoas para esse lado do humor faz elas se aproximarem e se divertirem assistindo um vídeo que é denso, tem assuntos que são muito complexos. Se a gente não permeia isso com pitadas de humor, fica maçante.

Vocês já disseram que é mentira que o brasileiro não gosta de ciência, mas por que o conhecimento científico ainda é visto como algo distante, apartado da sociedade? O que contribui para isso e por que é um problema?

Ana - Isso parte muito do nome do nosso canal, "Nunca vi 1 cientista". As pessoas realmente acham que nunca viram, porque para elas o cientista é aquele homem branco, antissocial, no laboratório, que fica falando eureka. A gente mostra que pesquisadores, mestrandos, doutorandos estão aí ao nosso redor, são pessoas como a gente. Quando você distancia, as pessoas pensam que "ciência é difícil, não é para mim, não vou entender". E isso é o que afasta.

Laura - Tem até uma questão de formação básica, porque a gente tem um sistema de ensino que não contextualiza o conhecimento. Se vou falar sobre termodinâmica, sobre variação de temperatura, por que não usar a cozinha para falar sobre isso? Lá estão todos os instrumentos para explicar. E é óbvio que o ensino básico tem diversos motivos para não conseguir elaborar melhor, muitas falhas para consertar, não é culpa dos professores. Mas as pessoas muitas vezes não conseguem entender onde aquilo se encaixa na vida delas, então não acham importante. É uma conjugação de fatores, mas passa também por essa percepção de que a gente não vai usar nada de ciência na vida.

Publicidade

A ciência virou um 'time'? Como despolarizar fatos científicos para que eles sejam de todo mundo, independentemente do espectro político?

Ana - A ciência não é neutra, mas ela deveria ser apartidária. Ela pode e deve ser politizada, porque quanto mais pessoas diversas divulgam a ciência, mais elas colocam a vivência delas ali e isso importa.

Quanto mais diversa for a produção, tanto científica quanto a comunicação de ciência, melhor é para a sociedade, para todo mundo. Agora, o que não precisa é ser partidário, porque isso afasta o (espectro) oposto. Por exemplo, "se eu voto num determinado candidato, automaticamente sou antivacina". Essa associação que as pessoas criaram não faz sentido. Vacinação não deveria ter lado político. Vacinação é ciência, é comprovado, salva vidas.

Não tem como fazer ciência sem envolver política, porque o dinheiro para fazer ciência depende de política pública, educacional e tecnológica. Mas tem como fazer ciência sem discriminar em quem se vota.

Vocês falaram no início de como a IA tem aumentado a desinformação sobre ciência. Como veem o impacto dela na produção científica? Como se relacionam com essa ascensão acelerada que a gente tem visto?

Ana - Tem artigos mostrando quanto o uso das ferramentas de IA estão mudando a forma como os artigos são escritos. Antes você sentava e escrevia seus dados. Agora você joga na IA e elas escrevem, calculam, e a pessoa vai perdendo a capacidade de fazer, de pensar criticamente. É um pouco preocupante.

Publicidade

Laura - Tem também muito profissional de saúde usando IA (na produção de conteúdo) como forma de viralizar, porque assim conseguem produzir muito conteúdo por dia. Aí muita gente compra o protocolo deles, paga consulta, assina sei lá o quê. Então eles estão explorando isso como estratégia de crescimento em rede social. A gente decidiu não lutar contra isso diretamente, porque o volume é insano. A gente tenta ensinar as pessoas a identificar (o uso de IA) para que não caiam nesse tipo de desinformação, mas não dá para lutar contra.

Ana - Esse barco já partiu.

TAGS
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações