Brincar é essencial: os impactos do excesso de tecnologia no desenvolvimento infantil e o desafio de equilibrar mundos

O ato de brincar acompanha a infância desde muito antes da escola, dos brinquedos industrializados e, mais recentemente, das telas digitais. Veja os impactos do excesso de tecnologia nessa prática e o desafio de equilibrar mundos.

28 abr 2026 - 12h48

O ato de brincar acompanha a infância desde muito antes da escola, dos brinquedos industrializados e, mais recentemente, das telas digitais. Em diferentes contextos culturais, a criança que joga bola na rua, monta casinhas com cadeiras ou explora jogos em um tablet está, em essência, envolvida em uma atividade que organiza o pensamento, regula emoções e aproxima pessoas. Para além do entretenimento, o brincar aparece como um elemento central na forma como meninos e meninas interpretam o mundo e constroem significados sobre si e sobre os outros.

A psicologia do desenvolvimento descreve o brincar como um espaço privilegiado de experimentação. Afinal, ao criar regras para um jogo, imaginar personagens ou negociar papéis em uma brincadeira de faz de conta, a criança exercita funções cognitivas complexas, como planejamento e memória. Ao mesmo tempo, treina a convivência, aprende a esperar, a ceder e a argumentar. Assim, em um cenário em que as tecnologias digitais ganham peso nas rotinas infantis, esse espaço simbólico continua existindo, mas assume novas formas. Ou seja, traz desafios e também possibilidades para famílias e escolas.

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A psicologia do desenvolvimento descreve o brincar como um espaço privilegiado de experimentação – depositphotos.com / yanlev
A psicologia do desenvolvimento descreve o brincar como um espaço privilegiado de experimentação – depositphotos.com / yanlev
Foto: Giro 10

O que dizem as teorias de Jean Piaget e Lev Vygotsky sobre o brincar?

Na perspectiva de Jean Piaget, o brincar está ligado à construção de estruturas de pensamento. Para ele, o jogo aparece como uma forma de a criança assimilar o mundo, reorganizando mentalmente aquilo que observa. Assim, nos jogos de exercício, por exemplo, o bebê repete gestos e sons, explorando o próprio corpo e o ambiente. Mais tarde, nos jogos simbólicos, transforma objetos em outros — um cabo de vassoura vira cavalo, uma caixa se torna carro —, o que indica avanços na capacidade de representação e na formação de conceitos.

Lev Vygotsky, por sua vez, enfatiza o caráter social do brincar. Na sua abordagem, a interação com outras pessoas — crianças ou adultos — é um motor para o desenvolvimento. As brincadeiras de faz de conta, segundo o autor, criam uma espécie de "zona de desenvolvimento proximal", em que a criança age além do que consegue fazer sozinha, apoiada pela linguagem, pelos combinados e pela presença de parceiros. Nesse contexto, o jogo não é apenas reflexo do que a criança já sabe, mas um impulsionador de novas aprendizagens cognitivas e emocionais.

Ao articular as contribuições de Piaget e Vygotsky, o brincar na infância pode ser visto simultaneamente como exercício interno de organização mental e como prática cultural compartilhada. Portanto, essa dupla dimensão ajuda a compreender por que atividades lúdicas favorecem criatividade, autonomia, capacidade de resolver problemas e fortalecimento de vínculos afetivos. Em jogos cooperativos, por exemplo, há necessidade de planejamento conjunto; em brincadeiras de competição, surgem estratégias, regras e negociações constantes.

Brincar na infância: quais impactos no desenvolvimento cognitivo, emocional e social?

No campo cognitivo, o brincar estimula funções executivas, atenção e pensamento flexível. Dessa forma, quebra-cabeças, jogos de tabuleiro e brincadeiras de construção convidam a criança a testar hipóteses, antecipar consequências e lidar com erros de forma concreta. Portanto, esse processo contribui para a compreensão de causa e efeito e para a formação de raciocínios mais complexos, importantes para a aprendizagem escolar.

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Já o desenvolvimento emocional é alimentado pelo espaço simbólico do jogo. Ao encenar medos, conflitos e desejos em histórias inventadas, a criança experimenta formas de lidar com frustrações e limites. Personagens e narrativas criadas em brincadeiras funcionam como um "laboratório seguro" de sentimentos. Nesse ambiente, torna-se possível treinar autocontrole, tolerância à frustração e empatia, especialmente quando há contato com o ponto de vista de colegas.

No plano social, o brincar infantil favorece a construção de regras de convivência. Em jogos em grupo, surgem acordos, disputas e reconciliações. A criança aprende a se posicionar, a ouvir, a negociar e, muitas vezes, a desistir de uma vontade imediata em favor do combinado coletivo. Esses movimentos reforçam pertencimento, cooperação e noção de justiça. Em contextos familiares, o tempo de qualidade em brincadeiras compartilhadas pode fortalecer laços, gerar memórias comuns e abrir espaço para diálogos que, em outros momentos, não ocorreriam.

Como as tecnologias digitais transformam o brincar na infância?

Com a popularização de smartphones, tablets e plataformas de streaming, o tempo de tela passou a ocupar parcela significativa do dia de muitas crianças. Em alguns lares, as brincadeiras ao ar livre e as interações presenciais são frequentemente substituídas por jogos eletrônicos, vídeos e aplicativos de entretenimento. Esse movimento altera a rotina, reduz o espaço para experimentações corporais e limita o contato direto com a natureza e com ambientes públicos de convivência.

Do ponto de vista da saúde física, a diminuição de atividades que envolvem correr, pular e explorar o espaço pode contribuir para maior sedentarismo, afetando resistência, coordenação motora e hábitos de sono. No campo emocional, a exposição a conteúdos intensos, o ritmo acelerado de estímulos e a pressão por respostas imediatas podem interferir na capacidade de espera e de autorregulação. Em termos sociais, o uso excessivo e isolado de dispositivos pode reduzir oportunidades de interação presencial entre pares.

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Por outro lado, ambientes digitais também abrem novas possibilidades de brincadeiras educativas. Jogos que exigem resolução de problemas, aplicativos de criação de histórias, construção de mundos virtuais e recursos de programação visual podem estimular lógica, criatividade e trabalho em equipe, especialmente quando utilizados de forma orientada. Ferramentas de videoconferência, por exemplo, permitem que crianças mantenham contato lúdico com familiares e amigos que moram longe, ampliando redes de relação.

A presença ativa de pais, responsáveis e educadores pode ajudar a definir limites de tempo de tela, escolher conteúdos adequados à faixa etária e incentivar uma relação mais crítica com a tecnologia – depositphotos.com / ArturVerkhovetskiy
Foto: Giro 10

Qual o papel de pais e educadores na mediação do brincar em um mundo conectado?

Em um cenário cada vez mais digital, a mediação adulta torna-se elemento central para equilibrar riscos e oportunidades. A presença ativa de pais, responsáveis e educadores pode ajudar a definir limites de tempo de tela, escolher conteúdos adequados à faixa etária e incentivar uma relação mais crítica com a tecnologia. Em vez de proibir de forma absoluta, muitas famílias optam por combinar períodos de uso com momentos de brincadeiras livres e atividades físicas.

Algumas estratégias são frequentemente mencionadas em contextos educativos para preservar o brincar livre sem ignorar o mundo digital:

  • Organizar espaços em casa e na escola com materiais simples, como caixas, panos, blocos e sucata limpa, que estimulem imaginação e construção.
  • Reservar tempos diários para brincadeiras sem tecnologia, em que a criança possa inventar regras, personagens e cenários próprios.
  • Propor experiências ao ar livre, como praças, parques e quintais, favorecendo movimentos amplos e contato com diferentes ambientes.
  • Acompanhar de perto o uso de jogos eletrônicos, transformando parte desse tempo em atividade compartilhada, com conversa sobre conteúdos e regras.
  • Articular escola e família na definição de orientações sobre uso responsável de dispositivos, buscando coerência entre os diferentes contextos da criança.

Ao olhar para o brincar na infância em 2026, o cenário mostra crianças circulando entre mundos físicos e virtuais, criando jogos em telas e em calçadas, transitando de histórias digitais para faz de conta presencial. A forma como adultos organizam rotinas, oferecem condições de exploração e dialogam sobre tecnologias tem peso direto nesse processo. Manter o brincar como eixo central do desenvolvimento significa garantir que, em meio a avanços digitais, a criança possa continuar experimentando, imaginando e se relacionando com liberdade e segurança.

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